Cristiano Ronaldo, Dorian Gray e Nureyev
Nos últimos 23 anos, Cristiano Ronaldo jogou 268 vezes pela seleção A de Portugal, num total de 21.110 minutos, que renderam, além de 164 golos, um Campeonato da Europa e duas Ligas das Nações. Números fantásticos e muito provavelmente irrepetíveis, de um jogador que ficará na história do futebol mundial como um dos melhores de sempre, ao lado de Pelé, Maradona e Messi.
Mas como não há bela sem senão, Cristiano Ronaldo não soube envelhecer, não percebeu que devia ter dito adeus à Seleção em 2022, e manteve a presunção de que continuava a ser, em termos desportivos, quem um dia havia sido. Nos últimos quatro anos, apesar da conquista da Liga das Nações com Roberto Martínez, Ronaldo foi mais problema do que solução para a turma das quinas, mantido ligado à máquina da titularidade em função dos proventos que a sua fama ainda permitia arrecadar.
Estou particularmente à vontade para falar sobre este tema porque, após o Mundial do Catar, publiquei um longo artigo em A BOLA sobre este assunto que tinha por título «Cristiano Ronaldo, obrigado e adeus.» Obrigado, porque nunca tive memória curta e sei o que devemos a CR7, que durante anos a fio andou com a Seleção às costas, sendo o principal responsável pelas receitas que entraram na FPF; adeus porque era visível a olho nu que o que a mente queria o corpo já não acompanhava, e a fabulosa geração que cresceu à volta de um Ronaldo transformado em eucalipto rendia muito aquém do potencial que tinha.
Há uns meses, após o Mundial dos Estados Unidos, México e Canadá, comparei Cristiano Ronaldo a Rudolf Nureyev, o príncipe dos bailarinos clássicos, que após ter brilhado no São Carlos voltou, anos depois, a Lisboa, para atuar no Coliseu dos Recreios: na primeira vez esplendoroso, na segunda, penoso.Infelizmente, como Dorian Gray, mas sem retrato, não aceitou a lei escrita pelo tempo, e quis ser, como cantaram Dylan e os Alphaville, jovem para sempre.
À medida que os anos passaram, a relação de CR7 com a bola, que chegou a ser íntima, foi-se deteriorando, à custa de tanta musculação, e a velocidade, atributo que o fazia competir com Usain Bolt, desapareceu. Surgiu então uma versão caricatural de um ex-grande jogador, empenhado em mostrar que os anos não passavam por ele, sem entender que só era mantido à tona internacionalmente pelos seguidores que tinha nas redes sociais e pelo número de camisolas que continuava a vender.
Do espanto que provocou quando começou a dar nas vistas no Sporting, à entusiasmante jornada no Manchester United - Sir Bobby Charlton dizia que cada vez que lhe passavam a bola levantava-se de imediato porque sabia que algo de extraordinário ia acontecer -, à conquista do mundo em Madrid e a duas excelentes épocas em Turim, seguiu-se um declínio que se iniciou na última época na Serie A, prosseguiu na segunda passagem em Old Trafford, e encontrou refúgio na Arábia Saudita, longe dos tempos em que era protagonista, com Lionel Messi, no maior dos clássicos de Espanha.Mas não foi só no Al-Nassr que CR7 encontrou um ambiente propício.
Também na Seleção Nacional, apesar de não ter rendimento desportivo que o justificasse, continuou a ser navio-almirante, com direito a tudo: no Mundial de 2026 só não jogou dez dos 450 minutos realizados por Portugal!
A ERA JESUS
Quando Jesus, vindo do Al-Nassr, onde tinha sido campeão da Arábia Saudita com Cristiano Ronaldo como capitão de equipa, sucedeu a Roberto Martínez na Cidade do Futebol, houve quem pensasse que a Seleção Nacional continuaria a ser CR7 mais dez. As primeiras declarações de ambos apontaram nesse sentido, Jesus a reconhecer o estatuto de Cristiano e a evidenciar a importância que ele tinha no grupo e CR7 a dizer que estava disponível para tudo pela Seleção: jogar, ser suplente ou entrar quando o treinador entendesse.Porém, estou certo de que há muito Jorge Jesus tinha percebido que nenhuma Seleção levantaria taças a jogar apenas com nove jogadores de campo, exatamente o que sucedia quando Cristiano Ronaldo não se envolvia no trabalho defensivo, obrigando a equipa a recuar e marcar à zona, nem tinha produtividade atacante, por falta de velocidade, destreza técnica e reflexos.
No primeiro jogo de Jesus, Ronaldo foi titular, e jogou ao nível que pode, pouco; no segundo, ficou no banco, Gonçalo Ramos marcou o golo da vitória, e o caldo entornou-se muito rapidamente.Haverá quem perca tempo em busca de explicações para este facto, se foi o que Jesus fez, se foi o que Jesus disse, ou se foi o ego insuflado de Cristiano Ronaldo a tramá-lo. Não é relevante.
A única coisa verdadeiramente importante é que o tempo de Ronaldo passou e, manifestamente, o capitão do Al-Nassr não joga o suficiente para ser titular de Portugal, e só se deveria admitir a sua inclusão no grupo alargado se estivesse disposto a somar, juntando carisma e experiência, e não a subtrair, como sucedeu no momento em que virou as costas à equipa e aos adeptos em Oslo.Hoje há jogo em Copenhaga, e embora o impacto do dia mais louco do futebol português - 30 de setembro de 2026 - tenha sido grande, caberá aos jogadores escalados por Jesus começarem a provar uma verdade universal do futebol: ninguém ganha nada sozinho, chame-se como se chamar. Sempre grato pelo que Ronaldo fez, ciente de que (para lá do marketing) era já um peso que puxava Portugal, desportivamente, para o fundo, lamento esta saída pela porta dos fundos. Mas a sensação com que fico é a de que Ronaldo e a bolha onde vive pensam que se trata do mesmo jogador que um dia, a 19 de novembro de 2013, na Friends Arena de Solna, ganhou lugar no panteão dos melhores de sempre…