Duarte Gomes: «Cada um fixa os limites da consciência onde entende. Eu fixei os meus»
— Há pouco mais de um ano falámos, noutra entrevista, de objetivos e métricas para um trabalho a 12 anos. Imagino que não se imaginasse aqui hoje, passe a redundância...
— É óbvio. O trabalho, de facto, foi pensado a 12 anos, que correspondem a três ciclos de quatro anos eleitorais. Embora eu não fosse eleito, o meu cargo na FPF era de acompanhamento técnico ao mandato do Conselho de Arbitragem, logo foi pensado nessa ótica, nessa visão de médio ou longo prazo. Um trabalho que teria um ano zero e posterior desenvolvimento o que, aliás, iria obedecer ao Plano Nacional de Arbitragem, um dos eixos estratégicos da Direção da Federação.
— Como resume as razões que o levaram a tomar a decisão de demitir-se?
— Resumindo, eu diria que a decisão foi tomada com base numa quebra de confiança absolutamente irreparável. Cada um fixa os limites da sua consciência onde entende que deve fixá los, em função daquilo que o caracteriza enquanto pessoa, ser humano e profissional. Eu fixei os meus. Tive muita flexibilidade para tentar perceber algumas questões que aparentavam gravidade e não fiquei esclarecido em relação a elas. Aliás, aprofundando até o receio em relação a muitas delas, e depois de esgotar, durante cerca de um mês, todas as vias possíveis para obter um resultado que me deixasse tranquilo, entendi que a minha saída era a única solução possível.
— Estamos a falar de mensagens para um árbitro que soube antecipadamente da sua nomeação, e da de outro árbitro, para jogos Estrela da Amadora. Depois estamos a falar também de um elemento que trabalharia alegadamente junto do Estrela da Amadora e soube das diligências que o Duarte foi tomando ao longo do tal mês. Isso corresponde às denúncias que fez na demissão e que levaram Pedro Proença e o Conselho de Arbitragem a enviar o respetivo email para o Ministério Público?
— Grosso modo, corresponde. Há uma separação muito importante. A primeira é aquilo de que eu tenho conhecimento em termos factuais, e isso é que motivou a minha decisão, baseada na tal quebra de confiança. Depois há o que entra no campo especulativo, que vem de relato de terceiros e, esse, compete apenas às autoridades fazerem as respetivas diligências para perceberem se estamos ou não perante eventuais ilícitos criminais. Sobre isso, obviamente, não faço qualquer acusação ou juízos de valor, até porque não tenho essa competência. Vou tentar descrever-lhe factos, evitar abordar nomes em concreto porque, como compreenderá, estamos perante um processo judicial que se encontra em segredo de justiça, o qual quero respeitar sem prescindir do meu direito à opinião.
— Vamos então a factos...
— Houve um árbitro, cuja história e narrativa é pública, que me contou ter sido abordado por um ex-colega nosso, um ex-árbitro assistente internacional retirado há vários anos. No final da jornada 30, esse antigo colega telefonou a um árbitro [ndr: Hélder Malheiro] através de uma videochamada para um grupo que tinham em conjunto com outros colegas, e diz-lhe algo como: ‘Era só para saberes que não é na próxima jornada 31, mas na 32, foste indicado pelo meu presidente [ndr: Paulo Lopo, então na SAD do Estrela] para arbitrares o Moreirense-Estrela da Amadora. E quem vai fazer o nosso jogo seguinte, o da jornada 33 — Amadora/Famalicão —, é o árbitro X [ndr: Fábio Veríssimo]. Opto por me reservar ao direito de não indicar os nomes das pessoas em questão, por razões de segredo de justiça. Mas não foi um palpite ao ar. Ao que me relataram, aquilo terá sido dito de uma forma muito clara e taxativa. Eram aqueles jogos em concreto.
— Com uma grande antecedência…
— Muito grande. Com 11 dias, no caso de um dos árbitros, e com 20 dias no caso de outro. E, repito, perentoriamente. A verdade é que essas nomeações vieram a confirmar-se na íntegra. Em termos estatísticos, a probabilidade de isso acontecer é de entre 0,1 e 0,2%. Estamos a falar de uma improbabilidade estatística. É lícito deduzir que aquela pessoa terá supostamente tido acesso a informação que não podia nem devia ter.
— Quando recebeu estas informações?
— Após o final do campeonato, na semana anterior à final da Taça de Portugal.
— Taça de Portugal que também entra neste eventual 'puzzle', porque foi referida como possível motivo de uma mensagem enviada. Também se falou de uma recompensa a Hélder Malheiro no formato de eventual prolongamento da carreira…
— Houve dois factos que me levaram a querer informar-me junto do sr. presidente do Conselho de Arbitragem. Tentei perceber se havia algum racional em tudo aquilo que estava a acontecer, sobre aquilo que o árbitro me contou a alegado conhecimento de nomeações antecipadas. Como calculará, em termos deontológicos e éticos — estamos a falar da reta final do campeonato, de uma equipa que está na luta pela manutenção com outras três ou quatro — essa seria uma informação absolutamente proibida, até porque o dever de nomear é sigiloso, independente e não é publicável, a não ser quando se torna público na própria semana dos jogos. Mas a acrescer a esta informação, o árbitro em questão também me contou ter sido abordado pelo tal ex-árbitro assistente, na véspera do jogo que iria dirigir, no sentido de lhe dizer que teria alegadamente sido acordada a sua continuidade na carreira desportiva se o Estrela vencesse o jogo e que o presidente do Conselho de Arbitragem da FPF avalizara essa ideia, através do alegado envio de uma mensagem para o árbitro em questão. O próprio enviou-me imagem, printscreen desse sms, cujo conteúdo é também público neste momento. A mensagem dizia 'sim é verdade' e tinha alguns emojis pedindo silêncio. Foi apagada pouco depois pelo remetente. Conheço o sr. presidente do Conselho de Arbitragem há muitos anos e sempre o tive como uma pessoa séria. Portanto, quis perceber o que é que me estava a escapar. Queria encontrar um racional qualquer que, de alguma forma, repusesse tranquilidade. Que me explicasse tudo aquilo de forma que fizesse sentido, embora à data os indícios fossem extremamente incómodos sob o ponto de vista deontológico e ético.
— Como reagiu Luciano Gonçalves ao ser confrontado com isto?
— Reagiu com alguma surpresa e atribuiu a nomeação antecipada pelo nosso ex-colega a uma mera coincidência, apesar de o ter alertado que esse seria quase impossível matematicamente. Disse que nunca poderia ter havido fuga de informação, porque não havia informação para haver fuga. Só pensava nas nomeações na própria semana dos jogos, nunca antes. Ou seja, excluímos logo a questão de poder ter escrito num computador, ou num documento qualquer, as nomeações futuras e alguém ter pegado nessa informação e distribuído a pessoas com contacto no referido clube. Focou a questão na forma como o árbitro geriu o tema, por exemplo no timing da denúncia e ao contar-me a mim, então Diretor Técnico e não a ele, seu presidente. Terá sentido isso como quebra de confiança por parte daquele.
— Luciano Gonçalves terá justificado a dada altura que a tal mensagem do ‘sim, é verdade’ teria a ver com a final da Taça de Portugal e não com o prolongamento de carreira. O que sabe disto?
— Confrontado com o facto de haver um printscreen, o presidente do Conselho de Arbitragem justificou num esclarecimento posterior que o envio dessa mensagem teria a ver com a possibilidade de o tal árbitro, em final de carreira, poder dirigir a final da Taça de Portugal. Mas do ponto de vista pessoal, devo dizer com sinceridade que essa justificação não me parece adequada. Houve um nexo causal forte, em sentido totalmente diferente e, segundo o que me foi relatado, não houve troca de mensagens nas semanas anteriores entre ambos sobre a Taça. Também não terá havido uma pergunta feita pelo árbitro ao sr. presidente do CA no sentido de saber se ele seria ou não hipótese para dirigir o jogo do Jamor.