Rui Pedro Braz entrevistado por A BOLA (foto: Andre Carvalho)
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«Benfica não podia estar em melhores mãos, com Rui Costa e Marco Silva»

A segunda parte da entrevista de Rui Pedro Braz a A BOLA

Depois da saída atribulada do Al Ahli, Rui Pedro Braz esteve à conversa com A BOLA, naquela que é a primeira entrevista concedida em cinco anos. Nesta segunda parte da entrevista fala dos quatro anos em que foi diretor desportivo do Benfica.

- Chegou ao Benfica em junho de 2021. Já tinha trabalhado antes no clube, mas levava muitos anos como comentador televisivo. Nos primeiros tempos sentiu resistências, mesmo a nível interno?

- Nem tive tempo para isso, para ser sincero. As pessoas esquecem-se de que eu entro e, três semanas depois, o Benfica entra na maior crise institucional da sua história, com aquilo que se passou com o Presidente Vieira. O clube entrou em modo sobrevivência e nós tivemos de meter o clube no caminho certo, com o apuramento imediato para a Liga dos Campeões, que foi muito sofrido. Nem houve tempo para sentir esses anticorpos, mas com certeza que existiam...

- Luís Filipe Vieira disse mais tarde que ninguém queria o Rui no Benfica...

- Estranho seria se não existissem esses anticorpos. Não só dentro do Benfica, até entre comentadores, analistas, jornalistas, porque é estranho alguém estar à minha frente em estúdio e, de repente, ver-me como diretor desportivo de um clube como o Benfica. Entendo isso perfeitamente e não posso levar a mal. Mas foi uma oportunidade que surgiu e eu agarrei. Acabei por estar quatro anos e meio no clube, orgulho-me de muitas das coisas que alcançámos durante esse período.

- Nesses primeiros dias, tão turbulentos, as horas de sono foram poucas?

- Não só nesses primeiros dias. Foram quatro anos e meio sempre com poucas horas de sono. Trabalhar no Benfica é muito isso: não ter folgas, não ter dias livres, não ter férias, é abdicar de muitas datas especiais, abdicar da família e da vida social. Quando se trabalha no Benfica, tudo o resto passa para segundo plano. E é por isso que eu peço aos adeptos que respeitem quem está à frente do clube. São pessoas que merecem muito respeito, porque abdicam de muito nas suas vidas pessoais para se dedicarem de corpo e alma ao Benfica. É uma missão de muito sacrifício, e eu agora estou a falar apenas e só como sócio e adepto do clube, porque é aquilo que eu sou e serei sempre, um entre muitos milhões. Peço apoio e paciência para estas pessoas, que estão a dar todos os dias o melhor de si.

- Rui Costa estava preparado para assumir a presidência do Benfica naquele momento?

- Estava e está. É óbvio que o próprio Presidente Vieira não era o mesmo no início e no fim. As pessoas aprendem. E Rui Costa, com toda a certeza, é hoje muito melhor presidente do que era naquele primeiro dia. Ele não pensou duas vezes, deu o peito às balas naquele momento, assumiu uma missão que poucos estariam dispostos a assumir, fê-lo de corpo e alma. Se há algo de que ninguém pode acusar este presidente é de falta de dedicação, falta de benfiquismo, de amor ao clube, seriedade, honestidade. Hoje é um presidente muito melhor, e vai continuar a melhorar. E é preciso que as pessoas se lembrem de que este presidente já foi legitimado nas urnas por duas vezes, com maioria absoluta. Isso tem de ser respeitado. É nas urnas que os sócios têm a oportunidade de decidir o futuro do clube.

Rui Pedro Braz com Rui Costa (foto: André Alves/Grafislab)
Rui Pedro Braz com Rui Costa (foto: André Alves/Grafislab)

- O que sentiu ao ouvir Vieira, o presidente que o contratou, dizer que Rui Pedro Braz andou a fazer trabalho contra Jorge Jesus e que vendeu Nuno Tavares sem autorização do presidente?

- Obviamente que nada disso é verdade, mas não lhe guardo qualquer rancor. Sou muito grato pela oportunidade que me deu. Já tivemos oportunidade de falar depois disso e esclarecer algumas coisas, meter os pontos nos ii. Eu disse aquilo que achava, ele disse aquilo que achava, está tudo bem. Ambos queríamos o melhor para o clube, com toda a certeza. É óbvio que ninguém vendeu jogador nenhum sem conhecimento do Presidente, isso não existe no Benfica. Toda e qualquer operação tem de ser validada pelo Presidente e pela Comissão Executiva, assinada por dois administradores da SAD, e o Diretor Desportivo nunca é uma das pessoas que assina. Tudo é também validado pelo Departamento Legal, CEO, CFO, Conselho de Administração, nada é deixado ao acaso. Independentemente do que possa ter sido dito mais tarde, num momento e contexto muito específicos, tenho e terei sempre uma gratidão muito grande ao Presidente Vieira por me ter convidado para o Benfica no final de 2020, e obviamente também ao Presidente Rui Costa pelos quatro anos e meio em que trabalhámos juntos.

- Há muitos adeptos do Benfica que ainda olham para aquele título com Roger Schmidt e questionam as razões pelas quais não houve continuidade nos resultados. O que falhou?

- Dou opinião sobre coisas diretamente relacionadas comigo. Quanto ao resto, acho que não me fica bem. Agora sou apenas um sócio e adepto, e vou ficar sempre muito feliz quando o Benfica ganhar. É importante dar tempo e espaço às pessoas. O Benfica está em boas mãos, está representado por excelentes profissionais a todos os níveis. O importante é que as pessoas acreditem no processo e sejam justas nas suas análises.

- Enzo foi uma figura desse título com Schmidt, embora tenha saído a meio da época para o Chelsea. Agora, curiosamente, protagonizou nova transferência acima dos €100M. É um jogador que marcará sempre a carreira do Rui Pedro Braz?

- Um dos melhores jogadores com quem já trabalhei, um jogador de nível mundial, talvez o melhor médio do mundo neste momento. Quando fizemos essa venda para o Chelsea diziam que o jogador não valia isso tudo, que tinha sido efeito do Mundial, e agora é transferido por valores ainda superiores…  

- Foi a sua melhor contratação?

- Isso não existe. Foi uma contratação do Benfica. Se foi a melhor contratação do Benfica durante o meu período? Uma delas. Eu acho que o Aursnes vai ter sempre um espaço muito especial no meu coração, por tudo aquilo que ele representa como pessoa e como jogador. Estou também muito feliz por ver jovens talentos como o Prestianni e o Schjelderup, que foram contratados ainda com 17 anos (chegaram com 18), e finalmente as pessoas estão a ver o seu verdadeiro potencial. É preciso dar tempo aos jogadores para eles aparecerem, e felizmente o Benfica está a dar-lhes esse tempo. Há muitas operações das quais temos de estar orgulhosos. O Carreras, que é contratado por 6 milhões de euros e 10 meses depois é vendido por 50 ao Real Madrid. O Marcos Leonardo, que é contratado em janeiro e ainda antes de o Benfica pagar 1 euro ao Santos, já estava vendido por 40 milhões de euros para a Arábia Saudita. Muitos negócios positivos, muitos jogadores de extraordinária qualidade neste período. Mas nenhum deles foi uma contratação minha. Nem minha, nem do Presidente, nem do treinador, nem do scouting. São contratações do Benfica, ponto. E nos bons e nos maus momentos toda a gente tem de ser responsável pelas decisões.

Rui Pedro Braz na chegada a Lisboa, com Enzo Fernández (foto: A BOLA)
Rui Pedro Braz na chegada a Lisboa, com Enzo Fernández (foto: A BOLA)

- Qual o jogador que se revelou melhor do que esperava? E aquele que gerou enorme expectativa e não correspondeu?

- Já falei no Aursnes, ninguém acreditava que, em tão pouco tempo, conquistasse um espaço tão especial naquilo que é a realidade do Benfica. O Leandro Barreiro, uma contratação a custo zero, na qual muito pouca gente depositava esperanças, e que está a mostrar que é um profissional extraordinário, mesmo não sendo um titular absoluto. Há uma contratação que me diz muito: o João Mário foi sempre um patinho feio no Benfica, não consigo entender porquê. Por vezes o Tribunal da Luz consegue ser muito cruel. Nunca vou esquecer aquela temporada em que o Benfica é campeão com o João Mário a fazer 23 golos e não sei quantas assistências, um dos capitães de equipa, um dos jogadores mais influentes. O Benfica nunca teria vencido aquele campeonato sem o João Mário. É óbvio que o Enzo foi importante até janeiro, o Aursnes foi importante, Gonçalo Ramos, Rafa, Otamendi… mas o João Mário foi o jogador superlativo dessa temporada. Como homem e como profissional foi um exemplo para todos. Jogadores que tenham defraudado as expectativas? Não seria elegante da minha parte estar aqui a apontar algum, porque a culpa nunca é só do jogador. Quando um jogador falha, toda a gente à sua volta tem de perceber o que poderia ter feito melhor.

- Falámos de Schmidt. Depois veio Bruno Lage. A ideia era ter alguém que tivesse uma adaptação rápida? Foi uma aposta que não correu bem, mas era esse o plano?

- Eu discordo quando diz que não correu bem. Ninguém fez mais pontos na Liga do que o mister Bruno Lage. Quando ele chegou já partia 5 pontos atrás do líder, e terminou a 2. Ganhou a Taça da Liga e a Supertaça, ambas contra o Sporting. Foi longe na Liga dos Campeões e no Mundial de Clubes. A final da Taça de Portugal nem é preciso recordar: com a expulsão do Matheus Reis aos 90+5 o troféu estava entregue. E ainda apurou novamente a equipa para a Champions, eliminando Nice e Fenerbahçe antes de sair no início da época seguinte. Pelo meio, ganhou em Turim e duas vezes no Mónaco, ganhou 4-0 ao Atlético Madrid, goleou duas vezes o FC Porto no campeonato… O Benfica de Bruno Lage teve imensos momentos de grande brilhantismo.

- Então o erro foi despedir Lage depois?

- Eu não estou a dizer isso. Eu acho que o trabalho do mister Bruno Lage, nesse ano, foi extraordinário, foi um trabalho de excelência. Depois, se foi um erro ou não demitir o mister Bruno Lage, isso já não me compete a mim dizer. A decisão foi tomada, e bem, pelo clube, porque só quem toma as decisões é que sabe as suas verdadeiras razões. Mas nunca vou concordar com as vozes que dizem que o trabalho do mister Lage não foi um trabalho bem conseguido. Pelo contrário, acho que foi um trabalho de eleição em todas as frentes e a todos os níveis.

- O Rui já não participa depois na troca de Lage por Mourinho?

- Não, aí eu já estava em negociações avançadas com o Al Ahli. Nunca fiz segredo disso. Comuniquei ao Presidente Rui Costa que iria sair, creio que ainda antes do Campeonato do Mundo de Clubes nos EUA.

- O Benfica está bem entregue a Marco Silva?

- Isso não é uma pergunta com rasteira, mas quase, porque a minha admiração pelo Marco é sobejamente conhecida, nunca a escondi. Somos amigos pessoais há muitos anos, ainda antes de andarmos nestas lides do futebol. Sou um admirador confesso. Eu acho que os portugueses são dos melhores treinadores do mundo e o Marco é um dos melhores treinadores portugueses, logo, isto faz do Marco um dos melhores treinadores do mundo. Acho que o Benfica não podia estar em melhores mãos, com o Presidente Rui Costa e com o treinador Marco Silva.

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Da primeira parte da entrevista:

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