Selecionador nacional de sub-21 falou abertamente sobre o presente e o futuro das jovens esperanças - Foto: Mariana Tenório
Selecionador nacional de sub-21 falou abertamente sobre o presente e o futuro das jovens esperanças - Foto: Mariana Tenório

Luís Freire imbatível nos sub-21: «Objetivo é ganhar jogos, qualificação e campeonato»

Selecionador das jovens esperanças lusas está consciente da responsabilidade, mas também muito motivado para o presente e para o futuro. Europeu de 2027 na ementa

Após um vasto percurso em diversos clubes e em todas as realidades competitivas nacionais, com várias subidas de divisão e títulos no currículo, Luís Freire abraçou o desafio de comandar a Seleção Nacional de sub-21. Nesta grande entrevista a A BOLA, a primeira desde que assumiu o cargo, o homem do leme das esperanças lusas orgulha-se da imensidão de talento que existe no nosso futebol, mas não esquece que a humildade e o trabalho são dois fatores absolutamente decisivos para o sucesso que se pretende. No próximo ano há Europeu, a fase de qualificação tem sido de excelência, pelo que é preciso concluir este percurso para que 2027 possa trazer um feito histórico para Portugal: o título de campeão da Europa do escalão. Freire acredita... o País também.

— Depois de uma década e meia a trabalhar em clubes, passou a ser selecionador nacional. Qual a diferença entre ser treinador de um clube e de uma seleção?

— Antes de mais, quero agradecer o convite para esta entrevista, é um prazer estar aqui. As diferenças existem, claro. Ser treinador de clubes como eu fui durante muitos anos e tenho sido desde 2007, exige um trabalho diário, a curto prazo, muito focado naquilo que é o próximo dia de treino, no próximo jogo, no próximo adversário. O imediatismo dos resultados. Viver muito o que é o dia a dia da resolução de desafios e problemas, a liderança diária dos jogadores de estar só num clube com uma estrutura. Ser selecionador é um papel diferente e com uma responsabilidade também diferente. Acabamos por ter esse papel técnico também, mas um papel técnico num curto período de tempo, com jogadores também vindos de vários clubes, de vários contextos, com várias metodologias de treino de outros treinadores que se juntam durante um período reduzido. Tempo de dez dias, onde nós, em termos técnicos, temos de dar uma resposta também diferente e rápida para conseguir construir o grupo, passar as ideias em três, quatro dias. Portanto, há um trabalho mais concentrado num curto período de tempo em termos técnicos no clube, todos os dias, a toda a hora. As ambições são máximas e em curto tempo temos que conseguir ter resultados. E, para isso, os jogadores também precisam de estar a top. Nós precisamos de estar completamente preparados para os receber e fazer em pouco tempo uma equipa que renda e que ganhe. Depois, o selecionador tem outras responsabilidades, uma parte também de prospeção, de scout, de análise...

— Que é aquela parte que o cidadão comum não vê e que poderá levá-lo a pensar que um selecionador passa bastante tempo sem fazer nada...

— Nós temos a responsabilidade de olhar de forma diferente do que num clube como treinador. O selecionador tem esse papel também de observação, tanto in loco , como em vídeo, como também através de análise de dados em gabinete. Aqui na Federação Portuguesa de Futebol temos o Gabinete de Inteligência e Scout que também nos permite perceber em termos de dados, explorar muitos dados. Eles estão a reforçar muito esses patamares de observação. A Direção Técnica tem apostado também nisso. Portanto, além dessa análise, procuramos ir aos clubes ver jogos, tanto na Liga, como na Liga 2 e na Liga 3, bem como na Liga Revelação. Há um acompanhamento e nós fazemos questão de estar perto dos clubes e perto de onde se passam os jogos. Depois, há um trabalho também... vamos chamar de política institucional na relação com os clubes, na relação como gerimos. Porque eu acho que isso é extremamente interessante e importante.

— Ser selecionador nesta altura estava no seu horizonte? Ou foi um projeto que apareceu de repente?

— Não estava no horizonte, não estava programado, nem planeado. Mas quando saí do meu último projeto [Vitória de Guimarães], queria alguma coisa que me desafiasse, que me motivasse e que fosse ambiciosa. E quando o presidente Pedro Proença me endereçou o convite, eu disse que estava interessado em representar Portugal nos sub-21 com o objetivo de termos sucesso. Destaco a ambição do presidente, a forma como ele tem muita crença na vitória, muita crença que as coisas vão correr bem. Portanto, é alguém que transmitiu logo muita ambição, que está disposto a querer ajudar a que isto se concretize, que mostrou que confiava muito em mim e em nós como equipa técnica. E essa confiança que ele nos passou, essa vontade que também demonstrou, fez-me abraçar este projeto de corpo e alma. Tudo aquilo que falámos e o desafio de fazermos uma coisa que ainda não conseguimos fazer até hoje. Este desafio motivou-me para abraçar este projeto, repito, e foi muito por aí. Foi inesperado, mas talvez a melhor altura possível para, enquanto equipa técnica, abraçarmos o desafio.

— Os portugueses podem estar convictos de que dentro deste balneário só se fala no título europeu?

— Neste balneário, o que prometemos é claramente muito trabalho, levar isto com muita seriedade, com muita paixão à causa, amor à causa, com muita responsabilidade de incutir isso nos jogadores. E depois, dentro do campo, ver-se uma equipa extremamente comprometida, alegre, que gosta de jogar futebol. Estes miúdos têm muita, muita alegria, muita energia, e nós queremos aproveitar isso ao máximo. Nós somos responsáveis por indicar-lhes o caminho e eles por percorrê-lo também dentro do campo. Mas estamos muito unidos. É um percurso inteiro para se fazer até 2027. O objetivo é ganhar. Ganhar jogos, ganhar qualificação, ganhar campeonato. Mas há um percurso grande, portanto, favoritos há vários. Não podemos olhar para o cume da montanha sem perceber que estamos ainda cá em baixo e que temos de fazer o percurso todo até chegarmos lá acima.

— Tanto pelas suas palavras, como pelos resultados até agora obtidos, deduz-se que está tudo a correr sobre rodas nestes meses.

— Sim. Fui muito bem recebido. Já havia muita gente a trabalhar na Federação, como é lógico. Existe a preocupação de reforçar muito as estruturas, tanto o staff como o Gabinete de Inteligência, as condições das equipas técnicas... Portanto, há uma preocupação em melhorar aquilo que já estava bem, trabalhando com todas as condições que nos proporcionam. E há esse esforço da Federação. Também neste sentido, é importante profissionalizar ao máximo as equipas. E depois, além das questões profissionais que são comuns a toda a equipa, permita-me destacar o Óscar Tojo, enquanto Diretor Técnico Nacional, bem como o Ricardo Duarte, que é o nosso coordenador. O Óscar Tojo é a pessoa que pensa em todo o projeto à volta das seleções, o Ricardo Duarte é a pessoa que está ligada a todos os selecionadores.

— Desafio relativamente fácil: 16 de julho de 2025. Que dia foi este?

—[risos]. Foi, provavelmente, o dia em que fui apresentado aqui.

— Confere. Que balanço faz destes cerca de seis meses?

— Na minha visão, é um balanço muito, muito positivo. Como eu disse, temos feito um trabalho também em várias áreas e mesmo assim temos uma ambição grande, para crescer metodologicamente e acompanhar os melhores. Temos trocado muitas ideias com treinadores de topo da Premier League, da Bundesliga, incluindo alguns estágios que temos realizado. Temos trocado algumas experiências, falado em muitas reuniões técnicas com outros treinadores também. Portanto, isto tem-nos levado a um percurso, que, como eu disse, tem que terminar em 2027 [Campeonato da Europa]. Mas nestes seis meses temos sentido principalmente que o trabalho está a ser planeado e está a andar para a frente. Queremos sempre mais rápido, mas está a andar para a frente. E depois, dentro do campo, temos tido grandes respostas dos jogadores.

— É mesmo para dentro do campo que vou agora. Portugal tem quatro vitórias e um empate na fase de qualificação para o Europeu de 2027. É um selecionador feliz?

— Sim, os resultados são os resultados. Além dos resultados, nós damos valor a esse processo que tem que levar a 2027 e depois de 2027, que tem de levar-nos a ganhar coisas. Dentro disto, temos construído, fora e dentro do campo, uma identidade que se baseou em paixão, energia e muita alegria em jogar por Portugal. Muito orgulho. E isso tem passado. Os jogadores têm tido o mérito de passar isso para dentro do campo, passar essa energia, jogar para ganhar, com muita intensidade, a serem pressionantes, a quererem a bola e a quererem mostrar a nossa qualidade como jogador português, como seleção portuguesa. Sabemos que a fase de qualificação tem as suas particularidades. Neste momento somos uma das quatro seleções que lidera. Como temos bons indicadores, estamos no caminho certo. Mas temos Inglaterra, Espanha e França que lideram connosco os grupos. Depois temos a Alemanha, Itália e Holanda, que não estão a liderar os grupos e que também favoritos Isto para dizer não é assim tão linear. Estamos a fazer o nosso trabalho bem feito, estamos a conseguir os objetivos, estamos em primeiro do grupo e temos esse registo muito bom também na diferença de golos.

— Vamos ser ainda mais claros: os objetivos para 2026 passam por fazer igual ou melhor na qualificação e em 2027 estar tudo pronto para um grande Europeu?

— Sim, em termos desportivos, esses são os objetivos. Nós temos de continuar a crescer no grupo. Portanto, há dois pilares também importantes este ano. Se eu falo em energia, paixão e alegria este ano, a parte também da disciplina e da humildade vai ser fundamental se queremos ser vencedores mais à frente, porque nós não vamos ter só jogos em que conseguimos marcar 21 golos e não sofrer nenhum, e ter só vitórias e empates. Vamos ter momentos em que é preciso essa humildade. É preciso essa disciplina e esse rigor de estarmos num determinado caminho e não abdicarmos dele. Então, vamos querer incutir isso cada vez mais no grupo e depois, mais à frente, a persistência e a coragem. Porque vai ser preciso para 2027 para ganharmos o campeonato. Em termos de ideia de jogo, vamos continuar nesta linha de querer uma equipa sempre muito ofensiva. Que orgulhe os portugueses. E aproveito também para agradecer aos portugueses por termos tido grandes assistências nos nossos jogos. Penso ser importante o facto de a Federação nos permitir jogar em várias latitudes, bem como possibilitar ao público o acesso gratuito aos nossos jogos. Então, queremos estar junto do povo português e queremos sentir o calor deles para os nossos jogos. É importante para os jogadores sentirem esse carinho.

Mundial 2030 será impactante

Parece que falta muito, mas, num esfregar de olhos estaremos em 2030. E nesse ano haverá (ainda mais) motivos de sobra para viver o futebol: Portugal será um dos organizadores do Campeonato do Mundo — em parceria com Espanha e Marrocos.

Portugal já demonstrou toda a sua qualidade organizativa e Luís Freire confia em novo sucesso. «Nunca tivemos um Mundial em solo nacional e acho que vai ser uma experiência única até para as novas gerações. Tivemos a oportunidade de ver o Euro-2004 e a loucura que foi. Imagine-se o que é que é ter aqui um jogo de Mundial, com a seleção portuguesa a jogar um Mundial em território nacional. Portanto, vamos ter esse privilégio, se Deus quiser», analisou.

Mas a visão é extensível ao... cidadão: «Temos de aproveitá-lo social e até economicamente. Estamos a falar do maior evento de futebol do mundo e que vai trazer muita gente a Portugal e também à Península Ibérica, claro. Trata-se de uma competição que também deverá comportar um impacto muito grande na economia portuguesa, algo que será sensacional.»