Jogo sem medo, Mora, Thiago Silva e o Nacional: tudo o que disse Farioli
— Que análise faz ao empate no final deste clássico entre o FC Porto e o Sporting?
— Penso que a análise do jogo é bastante clara. Pedi à equipa para ter uma prestação de pé no acelerador no ataque e creio que hoje isso foi muito evidente. Fomos pressionar desde o início, homem a homem em todo o campo, como é costume. Fizemos o nosso jogo com a bola, criámos boas situações e bons momentos contra uma equipa que, como sabemos, é muito forte. Mas acho que jogámos sem medo contra os campeões, fizemos o nosso jogo e penso que ficou muito claro quem assumiu as rédeas da partida. Depois, claro, nunca é bom sofrer um golo na última jogada do jogo, com um erro que, naturalmente, poderíamos ter evitado. Mas os erros fazem parte do futebol. Agora é virar a página e preparar um jogo muito difícil na Madeira. O nosso foco já tem de estar lá.
— Sai do jogo com frustração, sobretudo olhando para aquele lance do Francisco Moura no fim, que provocou o penálti favorável ao Sporting? E se esta corrida ao título envolve agora duas ou três equipas, se o Benfica também está nesta luta?
— Sobre essa parte, é claro: são três equipas que estão a competir pelo título. A tabela diz o que diz, por isso é muito claro. Quanto ao resto, não sei se o jogo foi aborrecido como diz; eu acho que o jogo foi muito bem jogado. Penso que uma equipa fez mais para vencer do que a outra, e essa equipa jogava com a camisola branca e azul. Porque, mais uma vez, vi uma equipa que entrou em campo para pressionar em todo o lado e outra que foi muito conservadora, que decidiu defender no seu próprio meio-campo. Fizeram-no bem, com atenção, e convencer jogadores deste nível a fazer esse tipo de trabalho não é fácil. Por isso, do meu lado, não há arrependimentos, porque fizemos tudo o que estava ao nosso alcance. Estou muito feliz com a exibição da equipa. O resultado, pela forma como o jogo correu, estivemos muito perto de vencer um jogo importante. Sabemos que eles são muito bons nos minutos finais — seis jogos seguidos a marcar no fim. Infelizmente não conseguimos manter a baliza a zeros. Levamos o ponto e seguimos em frente.
— O facto de o FC Porto ter estado tão perto da vitória pode criar algum tipo de frustração a nível mental para a equipa? Ou não haverá esse problema, tendo em conta que ainda mantém uma vantagem de quatro pontos?
— A realidade, mais uma vez, quanto aos resultados, é que nem tudo está sob o nosso controlo. O que podemos fazer é entregar uma exibição, e acho que o fizemos. A abordagem, para mim, foi fantástica. Zero medo de ir jogar contra os bicampeões de Portugal. O que mais poderia pedir à equipa? Ganhar? Sim, claro, mas isso faz parte do jogo. Temos de aceitar o nosso erro, aprender com ele e, como disse, estar já focados no próximo jogo. Não foi fácil aqui no Dragão e vai ser ainda mais difícil na Madeira. Vamos virar a página.
— Pede constantemente nas conferências de antevisão para os adeptos encherem o estádio. Os adeptos correspondem sempre. O que é que pediu esta semana aos jogadores para fazerem em campo frente ao Sporting, num jogo que não sendo decisivo era importante? Ficou satisfeito com o jogo?
— É todas as semanas, e às vezes duas vezes por semana, que os nossos adeptos são incríveis, em casa e fora. Acho que a ligação com os adeptos é inacreditável. Temos sorte em tê-los connosco, mas também acho que estamos a fazer o nosso melhor para lhes dar uma razão para virem e acreditarem. Se virem as imagens do primeiro golo que marcámos, parece que todo o Dragão empurrou a bola para dentro. Foi uma bola que ressaltou três ou quatro vezes, remate após remate, e a bola não saía da área porque todos estavam ali a empurrar. Não sei se acreditam em energias, mas a força do Dragão ajudou-nos muito a marcar aquele golo. A equipa representa muito o ADN deste clube. É por isso que, onde quer que vamos, os nossos adeptos estão connosco, a cantar durante 90 minutos — aliás, hoje foi desde o aquecimento. Só tenho de estar agradecido pela paixão e pelas vibrações que nos transmitem.
— Perde o Samu, o Kiwior e o Martim Fernandes também. Em que momento físico está a sua equipa? Parece também que no final da partida ficou com pouca energia?
— Com pouca energia no final? Ah, ok. Na parte final, mais do que energia, acho que foi um momento do jogo onde, naturalmente, eles vieram com tudo, sem nada a perder. Foi o único momento real onde tivemos de sofrer e defender baixo. Fisicamente, acho sinceramente que estamos num momento muito bom. Amanhã verei o relatório, mas acho que corremos mais do que eles; a sensação de ganhar duelos esteve lá. Sobre o Kiwior, que tanto se falou esta semana sobre o porquê de não jogar o primeiro jogo: o Kiwior vem de dois anos onde não jogou muito. Esta época já jogou quase o dobro dos minutos do ano passado. Numa época com tantos jogos, a gestão da energia física e mental é a chave. O historial do jogador fala alto e é importante respeitar isso. Ele vinha de uma série de 8 ou 9 jogos a jogar como central e lateral, com estímulos diferentes. Esperemos que não seja nada sério, pareceu positivo, ele estava bem e parou a tempo. Sobre o Samu, não sabemos, temos de ver o exame, mas espero que não seja nada grave. O Martim tem um problema no pé e será avaliado amanhã. O esforço do clube para reforçar a equipa — trazer o Moffi, o Fofana, o Óskar e o Tiago — foi muito evidente para estarmos prontos para ultrapassar estes problemas.
— Falando precisamente nos reforços, o Fofana estreou-se hoje com a camisola do FC Porto e logo com um golo. O que achou da exibição do Fofana e o que ele pode dar à equipa daqui para a frente?
— Sobre o Seko, não sou eu que vou descobrir o jogador que ele é. Foi o melhor jogador da Ligue 1 há uns anos. É um líder. É um jogador que combina uma condição física de topo com boas capacidades técnicas. É um jogador que, na sua carreira, sempre teve grandes números em termos de contribuição ofensiva. Por isso, com certeza que vai ser um jogador chave para nos ajudar na nossa progressão. Temos muitas competições e muitos jogos pela frente. O Seko, como os outros, está ao serviço da equipa e do clube. Todos estão muito comprometidos. Viram hoje o Rodrigo (Moura), entrou em campo numa posição diferente e deu uma contribuição importante. Estão todos muito mentalizados. Agora é recarregar baterias.
— Este foi o jogo 34 do Porto esta época e em 25 deles o míster fez substituições perto dos 60 minutos. Dessas, 13 foram entre o Gabri Veiga e o Mora. Com o jogo a decorrer, que espaço há para o improviso ou isto é tudo planeado?
— Se fores verificar os números nos clubes por onde eu passei antes verás que muitas vezes os médios ofensivos são substituídos. Pelo estilo de jogo que praticamos, precisamos de pernas, de frescura física e mental. É a minha estratégia e a forma como vejo as coisas. Não significa que o Gabri ou o Rodrigo não possam jogar 90 minutos, mas quando tens o luxo de ter dois jogadores deste nível, é importante geri-los e dar espaço a todos. Em 34 jogos, 32 vezes fiz cinco substituições. Acredito verdadeiramente nisto, faz parte da gestão dos recursos.
— Sobre o Thiago Silva, faz pouco mais de um mês que ele chegou. O que o tem surpreendido mais nele? E se o FC Porto pode ajudá-lo a voltar à seleção brasileira, que é o objetivo dele para o Mundial mesmo com a idade que tem?
— Esperamos mesmo que sim. Na nossa primeira conversa, ele disse-me que esse é o sonho dele e está a trabalhar muito para que aconteça. Esperemos conseguir dar-lhe a plataforma certa para convencer o míster Ancelotti a levar um jogador que ele conhece muito bem. O Thiago é um valor de topo dentro e fora do campo. Hoje pedi-lhe para falar antes do jogo; ele fez um discurso e saímos do balneário quase todos com lágrimas nos olhos. É um tipo fantástico, muito curioso. Tem 41 anos e nas reuniões continua a tirar notas sobre o que discutimos; se tem dúvidas, gosta de falar de futebol para entender melhor. É tremendamente humilde. Para mim, como treinador jovem, é um privilégio trabalhar com um ser humano deste nível. Oxalá consigamos atingir os nossos objetivos com o Thiago e que ele consiga estar no plantel do Brasil no Mundial. Ficaremos todos orgulhosos.
— Colocou o Rodrigo Moura a extremo esquerdo, mas com funções muito semelhantes aos extremos habituais, a dar largura. Poderemos ver o Rodrigo mais nessa posição ou o objetivo será privilegiar os movimentos interiores?
— Hoje a decisão de pedir ao Rodrigo para nos ajudar naquela posição teve a ver com a dinâmica do jogo e com o facto de que, a certa altura, talvez tivesse de o puxar para dentro novamente. Queria-o em campo o mais cedo possível e ter essa flexibilidade. O Rodrigo é um jogador muito inteligente, com grande talento, mas também com uma excelente compreensão do jogo e uma atitude de topo. Preparámos o jogo de uma forma específica e acho que gerimos muito bem durante 97 minutos. Infelizmente, no único momento em que cedemos um pouco, pagámos o preço de dois pontos.