«Ficámos todos a olhar para Mourinho e a pensar: ‘o que é isto?'»
Já lá vão mais de 25 anos, mas Sérgio Nunes, hoje com 51, lembra-se bem de tudo. Passou duas temporadas no Benfica, foi treinado por Jupp Heynckes, José Mourinho e Toni, num período de instabilidade do clube, conheceu dois presidentes, João Vale e Azevedo e Manuel Vilarinho, também vários craques. Do Benfica saiu para o Santa Clara — como na sexta-feira os dois clubes se enfrentam para o campeonato, o pretexto para falar com Sérgio Nunes não poderia ser melhor. A conversa, para lá de testemunho individual rico, é também a descoberta de vários tesouros da história dos encarnados e do futebol português.
Agora comercial de uma empresa imobiliária, mas sempre atento ao mundo do futebol, Sérgio Nunes, natural de Matosinhos, recua no tempo para reviver o início de carreira de José Mourinho. O defesa-central tinha chegado ao Benfica um ano antes, depois de duas épocas muito positivas no UD Leiria.
«Em dezembro de 1998, tive um problema com o UD Leiria. Queriam que renovasse, mas eu não queria. As coisas chegaram a bom porto, mas ainda estive três ou quatro jogos de castigo sem jogar. Acabei por renovar e, nessa altura, já deveria haver negociações [entre os clubes]. O então presidente João Bartolomeu disse-me para estar tranquilo porque sairia no fim do ano», puxa o filme atrás.
João Vale e Azevedo: «É isto, vamos assinar»
No final da época 1998/1999, o presidente do UD Leiria informou-o, através de chamada telefónica, de que tinha acertado tudo com o Benfica. «E que só dependia de mim», acrescentou Sérgio Nunes.
Faltavam só as negociações com os encarnados, neste caso com João Vale e Azevedo, presidente do Benfica. Não foi tão fácil como seria de esperar. «Fui a Lisboa com o meu empresário, Jorge Manuel Mendes, reunir-me com Vale e Azevedo. Foi muito autoritário e disse-me: ‘É isto e isto, está aqui, vamos assinar.’ No primeiro dia, não fechámos o acordo. Voltei no dia seguinte e assinei», partilhou.
Um «bocadinho» de culpa de Heynckes
Sérgio Nunes foi, então, para o Benfica com «grande expectativa». Já conhecia alguns jogadores, como Nuno Gomes. «Tínhamos jogado um contra o outro quando éramos mais jovens, apesar de ele ser um ano mais novo», assinala, para acrescentar que as coisas «na primeira época até correram bem».
Poderiam, no entanto, correr melhor: «Se calhar não mostrei o que deveria, um bocadinho por culpa de Heynckes. Muitas vezes era chamado a jogar a lateral-esquerdo e aí tinha muitas dificuldades. Não consegui dar continuidade ao que tinha feito em Leiria.»
«Heynckes achava que, como tinha bom pé esquerdo, poderia jogar como lateral. Foi complicado, nunca me deixou afirmar-me como central. Quando joguei como central as coisas correram bem.»
Perceção do sucesso de Mourinho
Heynckes não durou muito na temporada seguinte, 1999/2000, e à Luz chegou um fenómeno — José Mourinho. «Foi a primeira vez dele como treinador principal. Em pouco tempo, ficámos todos a olhar para ele a pensar: ‘o que é isto?’ No primeiro treino, impôs logo os princípios que queria. Na altura, já estavam muito à frente do que estávamos habituados: exercícios curtos, rápidos, intensos, sempre com finalização. O treino estava montado, sabíamos os coletes que íamos vestir. Não estávamos habituados a essa mentalidade tão jovem», recorda, antes de sublinhar que Mourinho fez «muita diferença no treino e na atitude da equipa».
O special one ficaria pouco tempo na Luz, seguir-se-ia Toni, treinador de Manuel Vilarinho, que ganhara as eleições. «Foi um processo difícil para todos nós. Muita gente não gostou, outros concordaram. Foi o que foi. Foi pena o Mourinho não ter ficado, porque toda a gente tinha noção do valor dele e de que teria sucesso, mais dia menos dia», conta.
Nessa época, Sérgio Nunes sofreu um grave acidente de viação, ao quilómetro 246 da A1, na zona de Albergaria, por culpa da muita água no asfalto, justamente no dia de apresentação de Toni. Praticamente não jogou.
Despertou o clube
Vinte e cinco anos depois, Sérgio Nunes vê Mourinho «muito mais pragmático e mais experiente, com uma atitude mais ponderada».
«Se calhar esperavam que fosse mais explosivo, mas o Mourinho continua a ser um dos melhores do mundo, com a experiência, estratega, sabe como e quando agir. Continuo a admirá-lo, apesar de muita gente achar que não é o mesmo. Continuo a gostar do que faz e a defender que tem tudo. Como treinador, é fácil criticar da bancada — todos temos opiniões. É fácil dizer: ‘eu fazia isto ou aquilo’. Mas ele teve impacto. É o Mourinho. Era o que o Benfica precisava. O clube estava um bocadinho adormecido, parecia sempre mais do mesmo. Com ele houve impacto e vontade de fazer mais. Conseguiu isso. Como qualquer treinador, quer ter sucesso, apesar de não ser fácil», argumentou.
«Neste momento, além de estar com fome de ganhar, está a construir o Benfica do futuro. Quer alcançar algo grande este ano: o campeonato, a qualificação para a Liga dos Campeões. É importante para ele e para o clube. Já está a pensar adiante, a ligar peças e a preparar o futuro para ter um impacto tremendo», prosseguiu o antigo central.
Viragem com o Real Madrid
«Sinceramente, no início, preocupou-se mais com o aspeto defensivo, em dar estrutura e confiança à equipa, torná-la sólida, evitando golos sofridos com bolas nas costas. A viragem deu-se no jogo com o Real, quando percebeu que era o momento de chegar a equipa mais à frente. A equipa passou a pressionar mais alto. Nesta fase está diferente, continua com pressão alta e intensidade. E tem criado muitas oportunidades de golo. Nem sempre corre bem, mas o padrão está presente em vários jogos. Certamente, com a experiência que tem, vai ajustar uma ou outra posição. O Benfica tem um leque de jogadores tremendo, uma equipa fantástica. Agora é trabalhar os pormenores. A época é longa e há seleções pelo meio, nunca é fácil», analisou.
«Que seja um grande jogo»
Sérgio Nunes ainda fez a pré-época 2001/2002 no Benfica, mas mudou-se, por empréstimo, para o Santa Clara. Fez uma primeira época «fantástica», rescindiu com os encarnados e assinou pelos açorianos. «O clube ofereceu-me condições irrecusáveis. Mas depois surgiram as dificuldades financeiras.»
Com ligação emocional aos dois clubes, Sérgio Nunes espera que o duelo de sexta-feira, nos Açores, seja «um grande jogo e que ganhe o melhor». Vê o Benfica «supermotivado pelo encurtamento da distância» para FC Porto e Sporting e «com capacidade de chegar a São Miguel e ganhar». Acredita, também, que os jogadores do Santa Clara estarão mais motivados por jogar com o Benfica, mas entende que as ameaças de mudança da SAD para o continente e as sete derrotas e dois empates nos últimos jogos «mexem com a cabeça dos jogadores».