Estrelas de Hollywood celebram 5 anos no Wrexham: «Ainda não entendemos o desporto a 100%»
9 de fevereiro de 2021. Passaram cinco anos desde que os atores Ryan Reynolds e Rob McElhenney assumiram o controlo do Wrexham, uma aquisição que transformou não só um clube de futebol, mas também uma cidade inteira. A dupla comprou a equipa, que militava no quinto escalão inglês, pela quantia simbólica de uma libra, com a promessa de investir mais dois milhões. Hoje, após três promoções consecutivas, o clube está a um passo da Premier League e foi recentemente avaliado em cerca de 400 milhões de euros.
A parceria, considerada uma das mais notáveis no desporto, começou de forma pouco convencional. Reynolds, o ator canadiano, admite que o primeiro contacto com McElhenney surgiu do nada. «O Rob e eu conhecemo-nos do nada, a sério. Não é a forma como se costuma conhecer alguém», explicou. O ator revelou que, depois de fazer 40 anos, decidiu expressar mais abertamente a sua admiração. «Não conhecia o Rob, mas reparei que nos seguíamos no Instagram. Enviei-lhe uma pequena mensagem. Acho que até lhe disse para não responder. Só queria dizer que tinha gostado de algo que ele fez», explicou em entrevista conjunta ao The Athletic.
Apesar de admitirem que ainda não compreendem «a 100% o desporto», o sucesso da sua gestão é inegável. A jornada foi documentada na série Welcome To Wrexham, que já conquistou oito prémios Emmy. Para McElhenney, a sensação é agridoce. «Há uma expressão sobre a qual nos avisaram quando tivemos o nosso primeiro bebé: dias longos, mas anos rápidos. É exatamente o que sinto. Parece que ainda agora começámos. E, no entanto, já passou meia década», afirmou a estrela de Hollywood.
A ideia de comprar um clube de futebol surgiu a McElhenney após assistir ao documentário da Netflix Sunderland 'Til I Die. Inspirado, quis filmar a sua própria experiência como proprietário e rapidamente conseguiu o apoio da Disney. Só depois contactou Reynolds, com quem nunca se tinha encontrado pessoalmente.
McElhenney recorda o email original que enviou a Reynolds, um documento que guardou e que demonstra a visão inicial do projeto. «É fascinante ver o quanto se concretizou e o que se desviou da conceção original. E quão semelhante e diferente é. Tal como a vida. Fazes um plano, dás o teu melhor, acordas todos os dias, vais trabalhar e vês o que acontece. Às vezes, devido à confluência de trabalho árduo, grande sorte, uma parceria incrível e um toque de magia e/ou dos deuses do futebol, algo se torna mágico».
A proposta inicial, tanto para a Disney como para Reynolds, não mencionava o Wrexham nem o País de Gales. A busca por um clube adequado passou pela Irlanda, Escócia e pelos escalões inferiores de Inglaterra. No entanto, o foco na comunidade sempre foi central. «Isto não é sobre restaurar um clube de futebol», lia-se na proposta à Disney. «É sobre restaurar uma cidade. Uma cidade que já estava em má forma antes da pandemia. Agora, absolutamente devastada». O email a Reynolds, igualmente focado na comunidade, terminava com um toque de humor: «Enfim... este é provavelmente o email mais longo que já enviei. Algum interesse? Queres falar ao telefone sobre isto? Ou deixaste de ler há uma hora?».
A abordagem funcionou. O Wrexham foi o clube escolhido e os dois atores foram recebidos de braços abertos pela comunidade. O envolvimento de Reynolds tornou-se tão profundo que as derrotas o afetam intensamente. «Sei que sou um adepto de futebol e um lifer do Wrexham porque fico inconsolável quando perdemos», confessa. «Nunca estive tão investido em ganhar e perder. Tenho de atravessar o Atlântico ainda acordado e sóbrio (depois de um jogo) e tentar processar a derrota. É um voo de sete horas que, por alguma razão, parece durar 29. Os meus filhos ficam frustrados com isso».
Ryan Reynolds e Rob McElhenney, os proprietários famosos do Wrexham, explicam a profunda ligação à cidade galesa e à sua comunidade, uma ligação que, para Reynolds, já ultrapassa a fama da sua personagem Deadpool. Apesar de um revés recente no Championship, o clube continua a ser o coração de uma comunidade renascida.
Cinco anos após a chegada do brilho de Hollywood, a cidade galesa vive um renovado sentimento de esperança, visível nos novos bares e restaurantes que servem os turistas. Para Reynolds, o clube é «o grande coração pulsante da comunidade», um local que une as pessoas. «Pessoas com ideologias completamente díspares entram por aqueles portões do estádio e estão juntas, a usar a camisola da mesma cor e a cantar os mesmos cânticos obscenos. E estão a ter um momento maravilhoso juntas, independentemente das circunstâncias da vida que sugerem que deveriam estar separadas. Isso é muito poderoso.»
Na luta pelo 'play-off' da Premier League
No entanto, o percurso desportivo sofreu um contratempo no passado sábado. A derrota em casa por 0-2 contra o Millwall impediu o Wrexham de subir ao quinto lugar do Championship. A equipa de Phil Parkinson mantém-se no sexto lugar, que dá acesso ao play-off, mas viu a concorrência aproximar-se, com apenas três pontos a separar o clube do Queens Park Rangers, em 12.º lugar.
Ainda assim, a atual posição na tabela — nove lugares acima da sua melhor classificação de sempre, um 15.º lugar na antiga Segunda Divisão em 1978/79 — demonstra o sucesso de um modelo de gestão em que os proprietários delegam as questões do futebol em especialistas como o treinador Phil Parkinson, o diretor executivo Michael Williamson e o diretor Shaun Harvey. Os proprietários do Wrexham, Ryan Reynolds e Rob McElhenney, estão focados em construir um modelo de negócio sustentável que garanta não só o sucesso desportivo do clube, mas também o desenvolvimento da própria cidade. A visão a longo prazo inclui investimentos em infraestruturas e parcerias estratégicas para o futuro.
Para acompanhar o rápido progresso da equipa, os donos trouxeram dois investidores minoritários nos últimos 16 meses. Primeiro, a família Allyn adquiriu uma participação de cerca de 15%, seguindo-se, em dezembro do ano passado, a empresa de investimento norte-americana Apollo Sports Capital, que comprou pouco menos de 10%, avaliando o clube em 400 milhões de euros. Estes investimentos destinam-se a apoiar as operações fora de campo, nomeadamente o cofinanciamento da nova bancada Kop, com capacidade para 7,5 mil pessoas. Esta obra faz parte de um plano diretor para o estádio que visa aumentar a lotação total para 28 mil lugares, um passo fundamental para a autossustentabilidade do clube.
McElhenney, conhecido como Mac, sublinha a importância de um crescimento equilibrado, rejeitando a ideia de um sucesso efémero baseado apenas em capital. «Vamos simular. Encontramos uma forma de injetar capital suficiente para contratar jogadores de Premier League e acabamos na Premier League. Diabos, até terminamos no topo da Premier League, [mas depois] tudo se desmorona porque é um modelo insustentável que não se pode manter por gerações», explicou, acrescentando: «Seríamos os vilões [se isso acontecesse], e com razão, porque não é assim que se prepara algo para o sucesso futuro. Por isso, grande parte do que falamos agora é, sim, sobre as infraestruturas do clube, mas também as da cidade».
Apesar da ambição de chegar à Premier League e à Liga dos Campeões, o sucesso da cidade continua a ser a prioridade máxima. «O que dissemos desde o primeiro dia é que queremos construir um modelo sustentável. Se olharmos para a economia do clube neste momento, pela forma como chegámos aqui, não é sustentável. Mas isso acontece apenas porque as infraestruturas não existiram durante gerações. O que estamos a tentar fazer é plantar as sementes para que, sim, possamos ter sucesso agora, mas para que daqui a 50 ou 100 anos essas sementes se tornem árvores e um modelo totalmente sustentável», concluiu Mac. «Se a cidade de Wrexham não tiver sucesso enquanto nós prosperamos, então falhámos».
Mantendo o espírito descontraído que os caracteriza, os proprietários planeiam transmitir em direto, já no próximo mês, o dérbi galês contra o Swansea, de Vítor Matos e Gonçalo Franco, com a intenção de participarem nos comentários do jogo. Para Mac, esta aventura é uma fonte de alegria, e não de pressão. «Penso nisto como um refúgio. É uma alegria. Adoro falar sobre o Wrexham e adoro vivê-lo», confessou.