Curioso pormenor que distingue Mourinho e o banco do Benfica
«A primeira parte foi tão má que, se pudesse, tinha substituído nove jogadores ao intervalo», disse José Mourinho no final do jogo da 4.ª eliminatória da Taça de Portugal, em novembro, resolvida pelas águias com um triunfo tardio por 2-0 diante do Atlético (Liga 3). Mas essa vontade manifestada pelo técnico de recorrer ao banco de suplentes, cheio de impulso justiceiro, não está de modo algum conforme com o comportamento do setubalense nesta sua segunda passagem pelo comando da equipa dos encarnados.
Analisando os números que, tal como o algodão, não enganam, verifica-se que o treinador do Benfica é de longe, entre os responsáveis pelas equipas dos quatro primeiros classificados da tabela da Liga, aquele que menos vezes mexe na sua formação a partir do banco.
Como se constata no quadro publicado nesta página, Francesco Farioli só não fez duas das 100 substituições possíveis na equipa do FC Porto (cinco em cada uma das 20 jornadas do campeonato até agora disputadas), enquanto Rui Borges e Carlos Vicens, respetivamente treinadores de Sporting e SC Braga, apenas abdicaram de sete cada um. Mourinho não recorreu a um total de 16 suplentes — já Bruno Lage (treinador que iniciou a temporada no comando do Benfica) esteve no banco em quatro jornadas e dispensou duas das 20 substituições a que tinha direito; e em 2024/25 só não utilizou um total de nove substituições na prova. Ou seja, José Mourinho renunciou a tantas alterações nesta Liga como os seus três principais rivais juntos.
O técnico encarnado esgotou as cinco opções saídas do banco apenas em seis jornadas (na 6, 7, 9, 10, 14 e 19), fez quatro substituições noutras cinco (na 1, 11, 15, 17 e 20), rodou três jogadores em quatro rondas (na 8, 12, 13 e 18) e na jornada 16 apenas fez entrar dois suplentes. O pouco impacto saído do banco encarnado é comprovado pelos apenas cinco golos apontados por suplentes — Prestianni (2), Ivanovic, João Rego e Anísio Cabral. Mas nenhum deles alterou o sentido do resultado final.
SUDAKOV É O MAIS SUBSTITUÍDO
Quanto aos atletas que mais vezes abandonaram o relvado antes do apito final, o Benfica tem o jogador da Liga que em mais ocasiões viu o seu número na placa para ser substituído: Sudakov, já rendido em 15 jogos — o médio criativo ucraniano só completou uma das 17 partidas em que participou, frente ao Nacional, na Choupana (2-1), tendo sido suplente utilizado noutra —; é seguido por Samu (FC Porto), Liziero (Nacional) e Mathias de Amorim (Famalicão), todos trocados em 14 encontros.
Já Leandro Barreiro foi a peça encarnada mais vezes chamada ao jogo saltando do banco (11 ocasiões, três delas ainda com Bruno Lage), seguindo-se Franjo Ivanovic e Gianluca Prestianni (ambos com 9 cada).
Ainda para comprovar as dificuldades sentidas por Mourinho para recorrer ao banco de suplentes, recorde-se o derradeiro jogo do Benfica no Estádio da Luz para a Champions, diante do Real Madrid (4-2), no qual os madrilenos já tinham feito as cinco substituições regulamentares quando o técnico encarnado mexeu finalmente no onze, colocando o primeiro suplente tão-só ao minuto 84.
Sabe-se que este não foi um plantel escolhido por José Mourinho e, convenhamos, alturas houve em que, ao olhar para o conjunto de alternativas sentadas ao seu lado no banco, o treinador terá pensado ser melhor uma postura conservadora. Chegou inclusivamente a dizer, após um jogo da Champions, que olhando para trás no avião «parecia estar a treinar o Benfica B», tal o peso do contingente jovem que convocara.
Mas com as chegadas de Rafa Silva e Sidny, o regresso de Bruma e iminente de Lukebakio, vindos de demoradas lesões, e o surgimento dos campeões do mundo sub-17 José Neto,Daniel Banjaqui e Anísio Cabral, o leque de opções das águias está agora bem mais alargado, o que poderá alterar a postura algo conservadora e até pouco arrojada de Mourinho, neste aspeto das substituições — para que a pergunta 'banco, para que te quero?' tenha uma resposta bem mais afirmativa.