Mark Tatum, o n.º 2 da Liga a quem foi entregue a missão de erguer a NBA Europa      Fotografia Imago
Mark Tatum, o n.º 2 da Liga a quem foi entregue a missão de erguer a NBA Europa Fotografia Imago

Clubes de futebol desejados na NBA Europa: Benfica pode ser um deles

PARTE 2 - As últimas novidades sobre o projeto que divide o basquetebol europeu, mas pode revolucionar o negócio: poderá haver um reatar de negociações com a Euroliga com a nomeação de Chus Bueno? Como vai ser a estrutura do negócio e lucros só surgirão a médio/longo prazo? Os desejados clubes de futebol com equipas de basquete, onde também se situa o Benfica, se essa ambição não foi apenas promessa de campanha eleitoral. Que tipo de pavilhão terá de existir mais tarde... para os fãs?

Antes do arranque do All-Star Weekend da NBA, que terminará domingo com a disputa do 75,º Jogo das Estrelas, com novo formato de quatro embates de 12 minutos cada e em que haverá duas equipas constituídas por jogadores americanos e outra por basquetebolistas do resto do mundo que actuam na Liga, A BOLA teve o privilégio de participar numa mesa redonda, de cerca de meia-hora, para a qual foram convidados oito órgãos de comunicação social europeus.

O objetivo foi poder conversar com o vice-comissário da Liga e diretor de operações Mark Tatum e com o diretor-geral da NBA Europa e Médio Oriente George Aivazoglou sobre a atualidade do projeto da criação da liga NBA Europa.

- Qual é a vossa posição relativamente às equipas sérvias? Entendo que não estão previstas para esta primeira fase mas, a médio/longo prazo, existe a opção de a Sérvia ter uma equipa e quais seriam as condições para participarem na NBA Europa?
GEORGE AIVAZOGLOU: Sou do norte da Grécia, não muito longe da Sérvia. Sei, em primeira mão, o quanto o povo sérvio ama o basquetebol, quantos grandes jogadores sérvios vimos ao longo das décadas, tanto na NBA como na Europa. Tenho estado envolvido em contactos com o Estrela Vermelha e outras partes, e sei que se trata de uma atmosfera sem paralelo.
Portanto, a resposta curta é sim. Como referi, existe um caminho desde o primeiro dia para as equipas se qualificarem e jogarem na nossa liga. Nenhuma equipa está excluída. Uma das coisas mais bonitas do nosso conceito e do ecossistema é que é verdadeiramente aberto às equipas que ganham o seu lugar no campo.

Começaremos com 12 franquias e, com o tempo, esse número irá expandir. Acreditamos que existem muitas cidades na Europa e muitas equipas que reúnem os requisitos necessários para se tornarem uma dessas franquias. Estamos a falar de marcas fortes, história sólida, bases de adeptos apaixonadas, arenas.

Depois, ao longo do tempo, como disse, começaremos com 12 franquias e, com o tempo, esse número irá expandir. Acreditamos que existem muitas cidades na Europa e muitas equipas que reúnem os requisitos necessários para se tornarem uma dessas franquias. Estamos a falar de marcas fortes, história sólida, bases de adeptos apaixonadas, arenas. Acredito que isso representa uma enorme oportunidade para o panorama desportivo europeu elevar verdadeiramente a experiência dos adeptos. Portanto, iremos analisar todos esses atributos. Mas, com toda a certeza, queremos equipas sérvias envolvidas no ecossistema que estamos a desenhar.

Há três categorias [para potenciais proprietários]. Uma são clubes de basquetebol já existentes, como o Real, como o Barça, como o Bayern, só para dar exemplos — clubes com equipas de basquetebol que têm tradições e histórias longas.

- Muitas das principais equipas de basquetebol na Europa pertencem a clubes de futebol. Até que ponto é importante manter esse sistema, dado que esses clubes já têm adeptos, marca e tudo o resto? E há alguns meses, em Lisboa, quando houve a eleição para presidente do Benfica, um dos temas foi entrar na NBA, que é algo aberto a todos. Qual é a capacidade que querem para um pavilhão e como desejam que seja uma arena da NBA Europa?
MARK TATUM: Quando pensamos nos potenciais proprietários de equipas, acredito que há três categorias. Uma são clubes de basquetebol já existentes, como o Real, como o Barça, como o Bayern, só para dar exemplos — clubes com equipas de basquetebol que têm tradições e histórias longas.

Não há uma regra que diga que temos de ter clubes de futebol ou não. Depende realmente do mercado e de quem é o parceiro certo, o investidor certo, nesse mercado

Depois, achamos que há outra categoria composta por alguns clubes de futebol que não têm equipas de basquetebol, mas que estão interessados em criar uma.
E a terceira categoria são pessoas que têm interesse em criar uma equipa de basquetebol que não esteja necessariamente afiliada a um clube de futebol.
Penso que essas são as três opções e caminhos potenciais. Estamos abertos a cada uma delas em cada mercado. Não há uma regra que diga que temos de ter clubes de futebol ou não. Depende realmente do mercado e de quem é o parceiro certo, o investidor certo, nesse mercado.

Os pavilhões, achamos que isso é uma parte importante do projeto. Esperamos que as pessoas que vão investir nessas franquias também invistam em um recinto de classe mundial. Estamos numa das melhores arenas [Intuit Dome, pavilhão dos LA Clippers], se não a melhor arena do mundo.

Relativamente à questão sobre os pavilhões, achamos que isso é uma parte importante do projeto. Esperamos que as pessoas que vão investir nessas franquias também invistam em um recinto de classe mundial. Estamos numa das melhores arenas [Intuit Dome, pavilhão dos LA Clippers], se não a melhor arena do mundo. Se ainda não tiveram a oportunidade de explorar este espaço, não há dúvida de que a Europa deveria ter arenas como esta, e não tem. Há basicamente duas ou três, em toda a Europa, que poderiam ser consideradas de classe mundial.

A nossa expectativa é que quem investir nesta liga também faça o investimento numa arena de classe mundial. E porquê? Pelos adeptos. A experiência do adepto é totalmente diferente quando se entra em arenas como esta, com camarotes e áreas de hospitalidade. Isso, acreditamos, alarga o público existente para o basquetebol.

Estamos a trabalhar para começar em outubro de 2027. Somos pragmáticos e realistas. A construção de pavilhões leva tempo. Vamos recorrer a instalações existentes para começar, mas, em algum momento no início da vida da nova liga, faremos a transição para estas novas infraestruturas

GEORGE AIVAZOGLOU: Se puder acrescentar dois pontos, acho que o impacto será tremendo para os adeptos, como o Mark disse, mas também para as comunidades. Estamos a falar de milhares, dezenas de milhares de novos empregos criados, de milhões — se não dezenas de milhões — de valor gerado para a comunidade. Portanto, o impacto é enorme em toda a linha.
Por outro lado, diria que estamos a trabalhar para começar em outubro de 2027. Somos pragmáticos e realistas. A construção de pavilhões leva tempo. Vamos recorrer a instalações existentes para começar, mas, em algum momento no início da vida da nova liga, faremos a transição para estas novas infraestruturas.

-Disseram que estão a falar com stakeholders e investidores, mas os clubes europeus têm, tradicionalmente, apresentado prejuízos, sendo que a falta de sustentabilidade financeira tem sido um problema persistente no basquetebol europeu. Como é que vão tornar isto rentável para os clubes e investidores?
GEORGE AIVAZOGLOU: Diria que existem dois principais princípios, e o Mark pode acrescentar. Por um lado, a NBA sabe muito bem como comercializar uma liga, como demonstram os números que conhecem. Como disse no início, estamos a pensar nisto como um produto para o mundo inteiro.
Quando pensamos nas receitas de media que podemos gerar, por exemplo, será algo que abrangerá o mundo inteiro. Tal como a NBA tem adeptos por todo o mundo, muitos dos clubes — como o Barcelona e o Real Madrid — também têm fãs em todo o mundo. Seria um erro enorme não disponibilizar o nosso conteúdo a pessoas de todo o mundo.

As novas arenas terão um papel crucial. Observamos, a partir da realidade das equipas da NBA, que se trata de um negócio imobiliário e que conseguem monetizar os seus edifícios não só durante os jogos, mas também — esperamos — 250 ou 300 noites por ano

Creio que isso representa uma mudança radical em relação à realidade atual do basquete europeu, do ponto de vista da monetização. Para além disso, existe a marca NBA, uma das mais valiosas não só no desporto, mas em toda a indústria do entretenimento. Há uma enorme quantidade de parceiros que querem fazer parte disso, o que será uma segunda fonte de receitas.
Depois, em termos de economia das equipas especificamente, porque é isso que faz circular dinheiro para os clubes, as novas arenas terão um papel crucial. Observamos, a partir da realidade das equipas da NBA, que se trata de um negócio imobiliário e que conseguem monetizar os seus edifícios não só durante os jogos, mas também — esperamos — 250 ou 300 noites por ano. Isso é uma mudança significativa.

MARK TATUM: Sim, acrescentaria tudo isso e reforçaria ainda o ponto de que, quando essas equipas se tornarem lucrativas, irão reinvestir no ecossistema: irão reinvestir no desenvolvimento de base, em infraestruturas e no crescimento do basquetebol, que é o objetivo final. Se se está a perder dinheiro, é difícil continuar a investir em programas de base. O nosso modelo mostra que é possível gerar lucro e, depois, continuar a reinvestir esse lucro.

Se olharmos para o que o futebol fez com sucesso, ele construiu uma pirâmide, e essa pirâmide é muito inclusiva. Em contraste, o basquetebol é relevante apenas para cerca de 10 ou 20 por cento das equipas e dos adeptos, algo nesse sentido. Estão a alienar uma parte significativa do seu público

-  Uma das maiores razões pelas quais o basquete europeu tem prejuízos é porque não existem grandes clubes em cidades como Londres ou Paris, até há poucos anos. Isso é uma das principais razões? E quão importante é ter — há especulação de que o Luka Doncic está a apoiar uma equipa em Roma. Quão importante é isso em termos de trazer esta nova liga para a Europa?
GEORGE AIVAZOGLOU: Quanto ao motivo pelo qual as equipas perdem dinheiro, acreditamos que o primeiro motivo é que a melhor liga da Europa hoje está completamente desligada do resto do ecossistema. Se olharmos para o que o futebol fez com sucesso, ele construiu uma pirâmide, e essa pirâmide é muito inclusiva. Em contraste, o basquetebol é relevante apenas para cerca de 10 ou 20 por cento das equipas e dos adeptos, algo nesse sentido. Estão a alienar uma parte significativa do seu público. Por design, isso afeta também os parceiros de media e de marketing. Esse é o problema número um.

Fotografia A BOLA

O problema número dois é aquilo que mencionou: estão a perder grandes cidades e mercados europeus. Londres tem 10 milhões de habitantes. Paris tem 10 milhões. Berlim está perto disso. Não existe uma marca forte que represente os adeptos nesses locais. É preciso incluí-los.
O terceiro ponto, voltando ao que disse sobre o público, é que hoje o basquetebol europeu está a captar um núcleo muito específico. É um segmento ótimo, mas continua a ser um segmento. A NBA é muito mais aberta e diversa e atrai pessoas que amam o basquetebol. Obviamente, captamos os melhores fãs ‘core’, mas também o que chamaríamos de fãs curiosos: gostam do estilo de vida, do elemento cultural, e isso representa um público muito mais diversificado. Se é um marketeer ou um anunciante, quer investir nesse tipo de público porque obtém muito mais variáveis. Estes são os aspetos em que estamos muito focados e interessados.

Queremos evitar cenários em que equipas se qualificam e depois decidem não participar por razões económicas. Sabemos que isso acontece no basquetebol europeu. Haverá formas e incentivos que remunerem e compensem tanto a qualificação como o desempenho durante a competição, o que será muito significativo para esses clubes. Vai ser, certamente, uma mudança substancial na sua economia, uma vez que se qualificam para jogar na NBA Europa

MARK TATUM: Quanto ao Luka, não vou comentar o seu envolvimento com qualquer clube específico. Digo, porém, que falámos com ele sobre este conceito e ele é muito, muito favorável à ideia da NBA envolver-se numa liga europeia.
Mas teria de falar com ele sobre o envolvimento específico com um determinado clube na Europa. Conversámos bastante sobre o conceito, e ele realmente acredita que chegou o momento de a Europa e a NBA fazerem algo na Europa.

- Fiquei curioso sobre ser um investimento para todos os clubes que serão franchisors ou stakeholders na nova liga, e que irão recuperar o investimento através de receitas comerciais, de adeptos…. Como estão a abordar a situação com as equipas que se qualificam para a liga. Essas equipas não têm, presumivelmente, a taxa inicial para pagar, então como participam nas receitas? Como gerem isso para que seja justo para quem pagou a taxa inicial, mas também atraente para quem está a entrar não só a nível competitivo, mas também financeiro?
GEORGE AIVAZOGLOU: Ainda estamos a analisar isso e não vou entrar em detalhes porque estamos a discutir o processo. Mas a ideia é que queremos evitar cenários em que equipas se qualificam e depois decidem não participar por razões económicas. Sabemos que isso acontece no basquetebol europeu. Haverá formas e incentivos que remunerem e compensem tanto a qualificação como o desempenho durante a competição, o que será muito significativo para esses clubes. Vai ser, certamente, uma mudança substancial na sua economia, uma vez que se qualificam para jogar na NBA Europa.
E não é preciso olhar muito longe, por exemplo na Europa, para competições como a Champions League, para ver alguns dos mecanismos que foram implementados e que têm sido muito bem-sucedidos. É isso que também estamos a tentar introduzir aqui.