Adam Silver: «A NBA Europa levará várias décadas a construir»

Commissioner falou, em Berlim, sobre a atual situação das negociações para o arranque da NBA Europa dentro de duas épocas, que há clubes, com e sem futebol, interessados, que tem falado com o Real Madrid, que será um crescimento a longo prazo e sem dar luco e até confirmou que a Euroliga ameaçou com um processo judicial.

BERLIM – Já se esperava que na habitual conferência de imprensa do commissioner Adam Silver antes dos jogos da NBA Europa fosse incidir essencialmente sobre a aguardada criação da NBA Europa, cujo arranque está planeado para o outono de 2027. Mas acabou por ir muito além disso. Praticamente todas as questões centraram-se na competição que a Liga pretende criar com a FIBA no continente, constituída por 16 clubes, 12 dos quais permanentes.

Nem mesmo o facto de Ja Morant, a estrela dos Grizzlies, não ir atuar uma hora mais tarde na Uber Arena, contra os Magic, porque existe o rumor que depois desta deslocação a Berlim estará de saída antes de fechar o período de transferências, trouxe muitas questões extra a Silver. Isto se o negócio de Morant não foi já fechado e o base de Memphis apenas acompanhou a equipa à Alemanha e a Inglaterra (próximo domingo) por questões comerciais, com a sua imagem em muitos anúncios e essa é que é a verdadeira razão pela qual não treina nem joga.

«Sei que ele tem muitos seguidores a nível global e gostava que pudesse jogar esta noite. Ainda mantenho a esperança que o possa fazer quando estivermos em Londres, no domingo. Estou desapontado por ele não ir estar em campo, mas compreendo que está lesionado», lamentou Silver antes da partida que se realizou na quinta-feira e que, para gaudio dos adeptos alemães, acabou com a vitória dos Magic por 118-111 (23-39, 35-28, 26-12, 34-32). Equipa onde atual os alemães Franz Wagner e Mo Warner, irmãos, e Tristan da Silva.

Na véspera, em conferência de imprensa antes do treino, Morant já evitara responder a quase todas as perguntas sobre a atual situação com os Grizzlies, e o seu futuro em Memphis, dando respostas curtas e evasivas, e depois pedindo para que passassem à questão seguinte.

Mas, Adam contou que, naturalmente, aproveitou a presença na Europa para conversar com alguns dos interessados, incluindo investidores, a entrarem na nova liga, que já efetuaram várias reuniões e isso voltará a acontecer nos próximos dias, quando Magic e Grizzlies se reencontrem na capital britânica em mais um embate da regular season.

«Continuamos bastante entusiasmados com isso. Temos estado reunidos com clubes interessados em participar na nossa liga. Em negociações com outros potenciais parceiros, incluindo empresas de media que gostariam de a cobrir, potenciais parceiros de transmissão e patrocinadores tradicionais que querem trabalhar connosco. Estamos a analisar a oportunidade de expandir a infraestrutura de pavilhões, não apenas aqui na Alemanha, mas por todo o continente», disse o commissioner.

E como irá a NBA Europa resistir se a liga nos Estados Unidos vive bastante das receitas (multimilionárias) oriundas dos contratos de transmissão. Quem vai pagar e de onde virá o dinheiro? «O financiamento virá potencialmente, pelo menos no inicio, dos clubes membros da Liga. À semelhança de qualquer projeto de startup, os participantes serão os investidores e, com o tempo, esperarão obter um retorno», começou por explicar.

«Na NBA, apesar das receitas muito elevadas, conseguimos gastar a maior parte desse dinheiro numa combinação entre jogadores e investimento em infraestrutura e marketing. Se lançarmos com sucesso esta nova liga, levará algum tempo até ser uma empresa comercial viável. Creio que todos os participantes reconhecem que isto não é para quem tem uma perspetiva de curto prazo», deixou o alerta quando se fala que a joia de entrada na NBA Europa poderá atingir os 500 milhões de euros ao longo de 10 anos.

«Mas, com o lançamento de ligas, especialmente se houver uma mistura de clubes já existentes e potencialmente novas equipas, e existindo necessidade de construir pavilhões em certos mercados, temos dito às partes interessadas é que precisam de ter uma perspetiva a muito longo prazo», voltou a reforçar. Isto quando se suspeita que o Real Madrid será um dos interessados que está mais comprometido nas negociações e irá mesmo virar costas à Euroliga.

«Ainda não estou pronto para confirmar informações específicas. Confirmo que tivemos discussões com o Real Madrid e também com outros clubes espanhóis. Mas, como referi, parte desta ronda inicial de discussões, que já decorre há algum tempo, é para mais para ser colocada na categoria de recolha de informação. Para certificar-me de que compreendo totalmente o que estaremos a assumir em termos de um investimento a longo prazo, um investimento adicional no basquetebol europeu. Portanto, seria prematuro, neste momento, falar de conversas mais específicas com quaisquer clubes», afirmou Adam Silver, sem esconder que também se reuniu com o presidente do Alba de Berlim, Marco Baldi. Projeto que elogiou bastante mas, tal como no caso do Real Madrid, optou por não contar como estão as negociações. Revelado foi também que tem reunido com vários clubes de futebol alemães, alguns possuem equipa de basquete, mas muitos não.

Adam Silver assegurou, no entanto, que com a criação da NBA Europa o interesse não é tentar substituir ou entrar em concorrência com o futebol. «Vemo-nos como complementares a outras ligas desportivas... Sou um grande fã do que está a acontecer no futebol europeu [até tem um clube preferido na Europa, mas não quis revelar qual], que continua a crescer. O que tudo isso faz é aumentar o mercado. Portanto, não nos vemos como um substituto. E os adeptos têm uma capacidade enorme de apoiarem múltiplas equipas. Em muitos casos, seria um fã sob a mesma denominação que a sua equipa de futebol favorita», deixou sair, confirmando a presença de várias equipas de futebol e basquete nas conversações.

Foi então que o homem que lidera a NBA há quase 12 anos voltou a apontar uma ideia que referira há meses: considerando que o basquetebol é a segunda modalidade na Europa, como é que comercialmente apenas «representa cerca de um por cento do mercado desportivo comercial». Uma das críticas que têm sido apresentadas como falhanço da Euroliga depois de várias décadas de existência. «Isso, para mim, fala da oportunidade que existe para construir um negócio viável em torno da modalidade», justificou.

Pouco antes, o commissioner já contara que, com a criação da NBA Europa, haverá a necessidade de contratar muita gente para que as coisas funcionem. «Se avançarmos, vamos precisar de fazer uma quantidade enorme de contratações. Muitas pessoas já nos contactaram interessadas na oportunidade».

O que não existe é prazo para que o enorme investimento a ser feito resulte comercialmente. «Como disse às pessoas que estão a considerar investir nesta liga, isto não é para quem procura retornos a curto prazo. É algo que levará várias décadas a construir». E deu como exemplo a WNBA.

À ajudar no modelo de construção da NBA Europa estão antigos jogadores europeus, e até americanos cujas carreiras passaram pelo continente antes de ingressarem na NBA. «Existe um grupo de trabalho de antigos jogadores da NBA que estão envolvidos em dar-nos orientação. Tony Parker é um deles. Não existe um grupo de trabalho específico em termos de jogadores atuais, mas muitos desses estão a contactar-nos e a dar-nos conselhos, alguns dos quais formados nos escalão de júnior. O Luka [Doncic] é um exemplo perfeito, obviamente jogou no Real Madrid e está muito familiarizado com o sistema».

«Como disse, estamos a aceitar conselhos venham de onde vierem. Há também alguns jogadores americanos que passaram algum tempo a jogar na Europa antes de entrarem na NBA. Tenho recebido bastantes chamadas recentemente de pessoas a dizer: ‘esta é a minha opinião, é aqui que vejo a oportunidade’».

Sobre a novidade da Euroliga ter enviado uma carta à NBA a ameaçar com uma ação judicial caso esta continue a aliciar equipas que têm contrato com a Euroliga, Adam Silver confirmou a missiva. «Envio as cartas de coisas legais aos meus advogados e deixo que sejam eles a tratar disso. Não acho que seja inevitável que haja um conflito. Penso que aqui há uma oportunidade para fazer crescer o basquetebol europeu e, sinceramente, estou muito mais focado no panorama competitivo, não só com outros desportos na Europa, mas também com outras opções de entretenimento. É assim que vemos a NBA.»