George Aivazoglou e Mark Tatum à conversa com a imprensa europeia em Los Angeles         Fotografia A BOLA
George Aivazoglou e Mark Tatum à conversa com a imprensa europeia em Los Angeles Fotografia A BOLA

«A NBA Europa é para começar em 2027 com 12 equipas»

PARTE 1 - As últimas novidades sobre o projecto que divide o basquetebol europeu, mas pode revolucionar o negócio: poderá haver um reatar de negociações com a Euroliga com a nomeação de Chus Bueno? Como vai ser a estrutura do negócio e lucros só surgirão a médio/longo prazo? Os desejados clubes de futebol com equipas de basquete, onde também se situa o Benfica, se essa ambição não foi apenas promessa de campanha eleitoral. Que tipo de pavilhão terá de existir mais tarde... para os fãs?

Antes do arranque do All-Star Weekend da NBA, que terminará domingo com a disputa do 75,º Jogo das Estrelas, com novo formato de quatro embates de 12 minutos cada e em que haverá duas equipas constituídas por jogadores americanos e outra por basquetebolistas do resto do mundo que actuam na Liga, A BOLA teve o privilégio de participar numa mesa redonda, de cerca de meia-hora, para a qual foram convidados oito órgãos de comunicação social europeus.

O objetivo foi poder conversar com o vice-comissário da Liga e diretor de operações Mark Tatum e com o diretor-geral da NBA Europa e Médio Oriente George Aivazoglou sobre a atualidade do projeto da criação da liga NBA Europa.

A intenção mantém-se em arrancar em 2026/27, mas das inicialmente desejadas 16 equipas, agora parecer existir a intenção de tudo começar com 12, que serão as fixas na prova.

Houve também questões de natureza económica,  particularmente sobre investimentos e lucros e outros assuntos, como é o desejo de integrar ou não clubes de basquetebol tradicionais que também têm equipas de futebol, como é o caso do Real Madrid, Barcelona, Bayern de Munique, PSG..., mas também o Benfica, que durante as eleições a candidatura de Rui Costa chegou a falar da ambição de um dia entrar para a NBA Europa.

«Desde a última vez que estivemos na Europa com os Global Games, em Berlim e Londres, foram feitos muitos progressos relativamente à liga europeia, e estamos entusiasmados por partilhar convosco e falar sobre o que tem sido desenvolvido. Acredito que existe uma enorme oportunidade, juntamente com os nossos parceiros da FIBA, para realmente transformar o panorama do basquetebol europeu, e é isso que esperamos fazer», começou por declarar Tatum, principal responsável pela implementação da NBA Europa.

«Quero deixar muito claro que tem havido muita discussão em torno do formato, das finanças, da estrutura e de todos esses aspetos. O que pretendemos é tornar o basquetebol europeu tão bom quanto possível, tão forte quanto possível, tanto do ponto de vista do produto e da competitividade como comercial. Queremos que seja benéfico para todo o ecossistema: jogadores, adeptos e equipas. Esse é o principal objetivo, e estamos muito entusiasmados com estes planos e com o caminho a seguir».

Acreditamos que esta nova liga, ao criar oportunidades comerciais para que estes clubes aumentem as suas receitas, eles reinvestirão no basquetebol, no desenvolvimento de infraestruturas e no desenvolvimento de base… Aquilo que estamos a tentar fazer na Europa incentivará um maior investimento no desenvolvimento de base

«Acreditamos que esta nova liga, ao criar oportunidades comerciais para que estes clubes aumentem as suas receitas, eles reinvestirão no basquetebol, no desenvolvimento de infraestruturas e no desenvolvimento de base… Aquilo que estamos a tentar fazer na Europa incentivará um maior investimento no desenvolvimento de base, permitindo que ainda mais jogadores europeus passem por esse programa e continuem a investir no desenvolvimento das suas competências ao longo do tempo», referiu ainda o deputy commissioner Mark Tatum.

Já o grego Aivazoglou confirmou que «temos estado a trabalhar neste projeto ao longo do último ano. No último mês, em particular, partilhámos o nosso pensamento, planos de negócio e modelos operacionais com muitas partes interessadas».

- Pode ser mais específico quanto aos desenvolvimentos que ocorreram desde o mês passado, em Londres? Se já existem dez equipas, oito equipas? Qual foi a dificuldade em avançar na Europa que não estavam à espera ao criar a NBA Europa?
MARK TATUM: Sim, posso dizer-lhe onde estamos. Nas últimas semanas, desde os jogos em Londres, temos estado em contacto com dezenas de potenciais investidores em franquias na Europa. Isso significa que lhes demos acesso ao nosso modelo de negócio proposto, estrutura proposta e regras de jogo propostas.

Ainda há alguns aspetos que precisam de ser afinados, mas estamos a realizar reuniões. Tivemos várias com potenciais investidores para lhes apresentar a nossa visão, plano de negócios e a forma como tudo irá funcionar. Essas conversas têm sido muito, muito positivas.

Ainda há alguns aspetos que precisam de ser afinados, mas estamos a realizar reuniões. Tivemos várias com potenciais investidores para lhes apresentar a nossa visão, plano de negócios e a forma como tudo irá funcionar. Essas conversas têm sido muito, muito positivas. Naturalmente, ainda não foi tomada qualquer decisão. Continuamos a responder a perguntas e a trocar impressões. Mas também estamos a receber um bom feedback.
Estamos no mercado. A falar com adeptos, através de dados recolhidos junto dos fãs, a falar com muitos dos nossos jogadores que têm experiência na Europa, que jogaram no basquetebol europeu e cresceram nesse contexto. E estamos a trabalhar em parceria com a FIBA para garantir que o processo de qualificação está correto e que o produto em campo é o adequado.

Desde o início que afirmámos que queremos trabalhar em conjunto com a Euroliga, alinhar todas as partes e garantir que todo o ecossistema esteja alinhado. Esse sempre foi o objetivo, e continuará a sê-lo. Acredito que, com o Chus nessa posição — alguém que nos conhece bem e que conhece bem o basquetebol europeu — talvez possa servir de ponte entre nós, a FIBA e os clubes da Euroliga.

- Já tiveram alguma conversa com Chus Bueno [espanhol que é o novo presidente da Euroliga]? E, tendo em conta a mudança, têm fortes esperanças de que, com Chus Bueno, seja possível inverter a situação, trabalhar em conjunto e criar apenas uma competição europeia de topo?
MARK TATUM: Conhecemos bem o Chus. Trabalhou connosco durante cerca de doze anos. Sim, desejámos-lhe felicidades, felicitámo-lo e já falámos com ele. Penso que terá de falar com os clubes que agora representa, mas esperamos, juntamente com a FIBA, que todos possamos sentar-nos à mesma mesa e continuar a manter um diálogo positivo.
Desde o início que afirmámos que queremos trabalhar em conjunto com a Euroliga, alinhar todas as partes e garantir que todo o ecossistema esteja alinhado. Esse sempre foi o objetivo, e continuará a sê-lo. Acredito que, com o Chus nessa posição — alguém que nos conhece bem e que conhece bem o basquetebol europeu — talvez possa servir de ponte entre nós, a FIBA e os clubes da Euroliga.

- Presumo que isso seja uma grande prioridade, porque foi noticiado que Paulius Motiejunas [ex-presidente da Euroliga] não estaria realmente disposto a negociar com a NBA. O simples facto de o Chus ser o novo CEO já é um grande passo, certo?
MARK TATUM: Mais uma vez, o Chus compreende bem o contexto. Entende o basquetebol europeu. Naturalmente, jogou pela seleção nacional espanhola. Trabalhou para a federação. Trabalhou para a NBA. Creio que tem uma perspetiva única e conhece bem a FIBA. Conhece-nos bem a nós também. Estamos esperançosos de que, nessas conversas, possamos continuar a encontrar formas produtivas de trabalhar em conjunto.
GEORGE AIVAZOGLOU: E, como o Mark referiu, ele começou funções apenas esta semana, por isso é preciso dar-lhe algum tempo para falar com as equipas e com os seus acionistas. Mas esperamos poder sentar-nos com a Euroliga e com a FIBA e retomar o diálogo muito em breve.

A longo prazo, poderemos eventualmente ver os campeões da NBA Europe a participar na NBA Cup, como exemplo, e a existir mais competições desse género. Acredito que, à medida que a liga for crescendo, a qualidade da competição continuará a melhorar cada vez mais

- Para além da marca NBA Europe, como anteveem a integração entre a liga americana e a liga europeia?
MARK TATUM: Acreditamos que, para além de criar uma liga forte e atrativa na Europa, existe um potencial interessante de cruzamento entre a NBA e a liga europeia. Pensamos que, a curto prazo, poderemos ver equipas da NBA a deslocarem-se à Europa para defrontar equipas da NBA Europe, por exemplo num torneio de pré-época ou em iniciativas semelhantes.
A longo prazo, poderemos eventualmente ver os campeões da NBA Europe a participar na NBA Cup, como exemplo, e a existir mais competições desse género. Acredito que, à medida que a liga for crescendo, a qualidade da competição continuará a melhorar cada vez mais, e poderemos assistir a um maior intercâmbio competitivo entre os clubes da NBA e as equipas da liga europeia.

Compreendem que, para integrarem a NBA Europa, haverá uma taxa de franquia. Creio que o mercado acabará por determinar o valor dessas taxas. Essas são precisamente as conversas que estamos a ter neste momento e, mais uma vez, têm sido muito, muito produtivas.

George Aivazoglou e Mark Tatum Fotografia A BOLA

- Fala-se da existência de uma taxa de entrada substancial [€500 milhões] para a NBA Europa. Ao dialogarem com marcas já estabelecidas e com grande base de adeptos, talvez isso possa não ser bem recebido. Abordaram especificamente este ponto e avançaram na tentativa de encontrar um equilíbrio adequado?
MARK TATUM: Sim, não há dúvida de que existirá uma taxa de franquia que as equipas terão de pagar para participar. Mas isso dar-lhes-á também uma participação económica. Tornar-se-ão acionistas, o que alinhará os incentivos para fazer crescer a competição em conjunto.
Portanto, compreendem que, para integrarem a NBA Europa, haverá uma taxa de franquia. Creio que o mercado acabará por determinar o valor dessas taxas. Essas são precisamente as conversas que estamos a ter neste momento e, mais uma vez, têm sido muito, muito produtivas.

Trata-se de um investimento a longo prazo. Não estamos a pensar numa oportunidade de curto prazo. Sabemos que, ao investirem hoje nessas taxas de franquia, tal como aconteceu na NBA e na WNBA, o valor dessas participações crescerá ao longo do tempo e valorizar-se-á de forma significativa. São essas as conversas que estamos a ter com os clubes

Sabemos — e os clubes também sabem — que, embora já possuam grandes marcas globais, nós sabemos como operar ligas. Sabemos gerir ligas de forma muito eficiente e rentável, e penso que eles reconhecem o valor que podemos acrescentar enquanto organizadores: trazemos os nossos dois mil milhões de seguidores nas redes sociais, sabemos como promover e comercializar a competição.
Para eles, trata-se de um investimento a longo prazo. Não estamos a pensar numa oportunidade de curto prazo. Sabemos que, ao investirem hoje nessas taxas de franquia, tal como aconteceu na NBA e na WNBA, o valor dessas participações crescerá ao longo do tempo e valorizar-se-á de forma significativa. São essas as conversas que estamos a ter com os clubes.

Isto não é apenas uma oportunidade única na vida. É uma oportunidade única para sempre de se tornar uma das franquias fundadoras da NBA Europa

GEORGE AIVAZOGLOU: Isto não é apenas uma oportunidade única na vida. É uma oportunidade única para sempre de se tornar uma das franquias fundadoras da NBA Europa. Todas as equipas e investidores com quem temos falado e que fazem parte deste processo encaram a situação da mesma forma, e isso tem sido o mais encorajador.

- Referiu os dados dos adeptos. O que indicam esses dados relativamente ao mercado britânico? Do ponto de vista económico pode fazer sentido, mas não parece existir uma base de adeptos tão grande como em Espanha, França ou Sérvia. Existe alguma preocupação quanto à possibilidade de levar uma equipa para Londres e não haver público suficiente para encher o pavilhão — conseguiram fazê-lo para um jogo, mas para uma época inteira?
GEORGE AIVAZOGLOU: Trata-se de uma perceção comum, mas incorreta. Diria que o basquetebol no Reino Unido está a evoluir muito bem. É o segundo desporto mais praticado por crianças até aos 14 anos. Sou responsável pelo nosso negócio em cerca de 70 mercados, na Europa e no Médio Oriente. O Reino Unido é um dos nossos maiores mercados, pelo que a NBA tem um desempenho muito forte nesse país.

Onde vejo a oportunidade é no que diz respeito ao basquetebol europeu no mercado britânico. Temos muitos adeptos de basquetebol que simplesmente não se sentem muito atraídos pelo basquetebol europeu ou britânico. Creio que, com a chegada da NBA Europa, com franquias em Londres e Manchester, e com as excelentes infraestruturas que existem em Inglaterra, teremos uma plataforma muito sólida para que esse amor pelo jogo evolua também para uma vertente mais europeia do que no passado. Mas existe, sem dúvida, uma base muito forte de adeptos.

Nas próximas seis ou sete semanas, acredito que iremos realmente arregaçar as mangas para perceber melhor onde estamos e qual é o nível de interesse e de procura... Para começar em 2027

- Com o progresso que também referem estar a decorrer nas últimas semanas, sentem-se confiantes quanto a um tempo de como tudo isto vai desenrolar-se e quando vão começar?
MARK TATUM: Sim. A informação que transmitimos aos potenciais investidores é que precisamos de saber o nível de interesse até ao final de março. Esse é o prazo em que esperamos que estas dezenas de investidores regressem e digam: sim, estamos interessados neste mercado, a este preço... A partir daí, começaremos a cristalizar quem poderão ser os investidores potenciais e quais os mercados que consideramos mais viáveis. Esse é o timeline geral.
Nas próximas seis ou sete semanas, acredito que iremos realmente arregaçar as mangas para perceber melhor onde estamos e qual é o nível de interesse e de procura.

- Isso permitiria começar já em 2027?
MARK TATUM: Esse continua a ser o objetivo. Absolutamente, esse é o objetivo.

- Quantos clubes são necessários para começar a liga na Europa?
GEORGE AIVAZOGLOU: O plano sempre foi ter entre 10 a 12 clubes. Estamos a apontar para 12, e quatro equipas qualificam-se através de diferentes vias: seja através da Champions League (BCL) da FIBA, que será a competição de segundo nível, ou diretamente através das suas ligas domésticas.
Acreditamos que isto representa uma melhoria significativa em relação ao estado atual, e também oferece a dezenas, talvez centenas, de equipas do ecossistema a oportunidade de sonhar: se jogarem bem e formarem uma equipa competitiva, têm a possibilidade de se qualificarem. Esse continua a ser o objetivo.