Gosto da 'sexy' Jutta Leerdam
A polémica não é nova, mas ganha sempre novas protagonistas. Desta vez chama-se Jutta Leerdam, a nova campeã olímpica, obviamente uma das melhores patinadoras de velocidade do mundo. Qual é, então, o problema? É bonita, tem milhões de seguidores nas redes sociais e assume, sem pedir licença, o estatuto de influencer. Para alguns, isso basta para lançar a suspeita: será possível conciliar alto rendimento com exposição mediática?
Há quem diga que não. Que o desporto de elite exige clausura, foco absoluto, sacrifício total. Que o corpo, no alto rendimento, deve ser apenas ferramenta de performance e não objeto de consumo visual. Que o tempo dedicado a sessões fotográficas, parcerias comerciais ou conteúdos para redes sociais é tempo roubado ao treino, à recuperação, à concentração. No fundo, que a excelência desportiva é incompatível com a construção de uma imagem pública fora da pista.
Este argumento, apresentado muitas vezes em defesa da pureza do desporto, parece sólido à primeira vista. O alto rendimento, de facto, não perdoa distrações. Milésimos de segundo fazem a diferença entre o ouro e o anonimato. A margem de erro é mínima e a pressão constante. Exigir compromisso total não é, em si, um absurdo.
A questão, porém, levanta-se quando essa exigência não é aplicada de forma igual.
Porque Jutta Leerdam não é menos atleta por ser influencer, conforme provou nos Jogos Olímpicos de inverno esta semana. Os seus títulos e consistência competitiva existem independentemente do número de seguidores. É uma atleta que ganha. Que responde em pista. Que sustenta a sua imagem com resultados, e não o contrário.
Quantos atletas masculinos, mediaticamente apelativos, viram a sua dedicação questionada? Quantos desportistas usam a imagem, a publicidade e o carisma como extensão natural da carreira — sem que isso seja lido como distração ou falta de seriedade? No caso das mulheres, a equação muda. A visibilidade estética transforma-se rapidamente em suspeita moral ou profissional.
Há também outro dado que o discurso conservador gosta de ignorar: o desporto já não vive apenas do cronómetro. Vive de audiências, narrativas, patrocínios e alcance global. Atletas como Leerdam trazem algo que muitas federações passam anos a tentar construir: atenção. Interesse. Público novo. Jovens que talvez nunca tenham visto uma prova de patinagem de velocidade, mas que chegam lá através de uma história, de um rosto, de uma presença digital.
Reduzir isso a futilidade é miopia estratégica.
Claro que existe um risco real — o de a imagem engolir a performance. Da lógica do algoritmo passar à frente da lógica do treino. Mas existe em qualquer carreira exposta e não pode ser presumido antecipadamente e, muito menos, usado como arma seletiva. Avalia-se no gelo, na pista, na competição. E aí Jutta Leerdam continua a responder.
Talvez o incómodo maior não seja a alegada incompatibilidade entre beleza e alto rendimento, mas o facto de uma atleta controlar a própria narrativa. De não depender apenas de federações, marcas ou media tradicionais para existir. De transformar o corpo — historicamente explorado pelo desporto — num ativo gerido por ela própria.
Queremos atletas que rendam apenas quando competem ou também quando comunicam? Queremos mulheres no desporto ou mulheres discretas no desporto?
Eu não gosto de bolachas de água e sal e gosto de Jutta Leerdam cujo talento também se mede na capacidade de existir fora da pista sem pedir desculpa por isso.