Chamada de Mourinho, morte de Jota e conselho de Ronaldo: Dalot abre o coração
Numa longa peça escrita pelo próprio no The Players Tribune, Diogo Dalot recordou a forma como se deu a sua transferência do FC Porto para o Manchester United em 2018, um processo marcado por uma chamada inesperada de José Mourinho e um enorme susto devido a uma lesão grave no joelho. Com apenas 19 anos e recém-chegado à equipa principal do FC Porto, Dalot foi surpreendido por um telefonema do treinador português.
«Até então, tínhamos falado com presidentes de outros clubes, mas nunca diretamente com um treinador. Pouco depois, o telemóvel toca. Pego nele e corro para o outro lado da estrada. Quando atendo, é mesmo ele. José Mourinho. E está a dizer exatamente tudo aquilo que eu queria ouvir. Que tenho talento. Que sou forte. 'Só precisava de um teste', diz ele. Tinha estado a analisar-me quando o FC Porto jogou com o Liverpool em Anfield algumas semanas antes, porque eu estava a marcar o Sadio Mané. 'Paraste o melhor extremo do mundo. Agora vem jogar para mim.'», contou.
Contudo, o sonho esteve perto de ruir poucos dias depois. Uma lesão no menisco lateral do joelho direito, sofrida durante um treino, obrigou Dalot a uma cirurgia com uma paragem prevista de cinco meses. O jogador temeu o pior, acreditando que a lesão deitaria por terra o negócio. Após uma viagem angustiante de regresso a casa, Dalot enviou uma mensagem a Mourinho a explicar a situação. A resposta do treinador não tardou e foi decisiva.
«'Diogo, não me importo com a lesão. Vais estar parado cinco meses. Estou a contratar-te para os próximos dez anos.' Não conseguem imaginar as lágrimas que me saíram do corpo. A minha mãe estava a chorar. O meu pai desfez-se em lágrimas como eu nunca o tinha visto. Até o meu agente estava emocionado. Dez segundos antes, estava a viver o pior dia da minha vida.E depois o Mourinho viu em mim algo que nem eu próprio conseguia ver». A mensagem de Mourinho dissipou todas as dúvidas e emocionou profundamente o jogador e a sua família, selando a transferência para o Manchester United.
Estreia
Já em Inglaterra, Dalot recordou também um episódio curioso antes da sua estreia na Champions, frente ao Young Boys. Mourinho confidenciou-lhe que a equipa técnica, onde se incluía Michael Carrick, não o considerava ainda preparado para jogar. «Os meus adjuntos dizem-me que não estás pronto», afirmou o treinador, acrescentando de seguida: «Eu sei [que estás]. É por isso que vais ser titular. Mas toda a equipa técnica acha que ainda não estás preparado para jogar.»
A tática de Mourinho surtiu efeito, motivando Dalot a realizar uma grande exibição na vitória por 3-0. No final do jogo, o técnico português sussurrou-lhe: «Eu sabia que estavas pronto». A ligação entre os dois seria, no entanto, curta. Mourinho foi despedido em dezembro de 2018, um momento que Dalot descreveu como triste. Nas épocas seguintes, com um novo treinador e a chegada de outro lateral-direito, o internacional português enfrentou um período de menor utilização, marcado por lesões e ausências das convocatórias. «Eu jogava no FC Porto. Eu era considerado um dos grandes talentos. Agora nem sequer estou no banco. Estou a desperdiçar os meus anos.Estou a perder tempo.O que é que estou aqui a fazer?», questionou-se, mas acabando por dar tudo certo, após um empréstimo ao Milan.
Treinos no Benfica
Curiosamente, antes de ingressar nos dragões, Dalot esteve perto de assinar pelo Benfica, o que deixou o seu pai «fisicamente doente» ao vê-lo de vermelho. No entanto, uma chamada do FC Porto acabou por concretizar o sonho de ambos. Apesar de ter passado uma década na formação do FC Porto, Dalot revela que nunca foi selecionado para o programa de jovens de elite do clube, sentindo sempre a necessidade de trabalhar mais do que os outros. O apoio incondicional do pai era uma constante, viajando para o ver jogar por toda a Europa e defendendo-o mesmo perante os erros. «Filho, estiveste muito bem. Estes treinadores não percebem nada disto», dizia-lhe o progenitor.
Chamada à Seleção
Após a época cedido pelo Man. United ao Milan e a final perdida no Europeu de sub-21, na Hungria e Eslovénia, Dalot encontrava-se de férias no Dubai com a sua namorada, Cláudia. Foi então que recebeu uma chamada de um número português desconhecido.
Do outro lado da linha, a notícia era inesperada: «Diogo, vais ter de voltar para a Hungria. Tivemos uma lesão e o selecionador quer-te cá para o Europeu». Tratava-se da convocatória para a Seleção principal, uma estreia absoluta para o jogador, que admitiu sentir-se ansioso e, pela primeira vez, «não preparado». A chamada obrigou-o a correr para o aeroporto com a namorada para realizar um teste à COVID-19 e juntar-se à equipa das quinas.
Cristiano Ronaldo
Dalot partilhou ainda detalhes sobre a sua relação com Cristiano Ronaldo, descrevendo-o como «uma das melhores pessoas» que já conheceu e uma figura central no seu desenvolvimento profissional e pessoal. O primeiro encontro com o seu ídolo aconteceu na Seleção Nacional, num momento descrito como «incrível», onde também estavam presentes Bruno Fernandes e João Félix. A admiração rapidamente deu lugar a uma forte ligação. «Falávamos durante horas. No hotel. No ginásio. À mesa das refeições», recorda o atleta.
Numa altura em que ponderava uma transferência para o Milan, que mostrava grande interesse na sua contratação, e com reuniões agendadas com outros clubes, uma mensagem de Cristiano Ronaldo mudou o rumo dos acontecimentos. O avançado português, que estava de regresso a Old Trafford, aconselhou-o a permanecer no clube. «Miúdo, fica. Eu vou voltar para Manchester», escreveu Ronaldo, acrescentando que o United era «o melhor clube do mundo» e que, juntos, poderiam levar a equipa de volta ao topo.
Esta intervenção, juntamente com o desejo de José Mourinho de o manter no clube por uma década, foi decisiva para a sua permanência. Foi a partir desse período ao lado de Ronaldo que o jogador sentiu um crescimento significativo, tanto dentro como fora de campo. A mentalidade competitiva de Ronaldo é destacada através de vários episódios. O jogador recorda a capacidade de previsão do capitão da Seleção, que uma vez comentou sobre um avançado que, apesar de uma excelente primeira época, não se iria afirmar no clube. «Sim, mas não tinha a fome necessária para procurar o terceiro [golo]», justificou Ronaldo.
Morte de Diogo Jota
A notícia da morte de Diogo Jota foi um choque profundo para o grupo e para Dalot. «Quando perdemos o Diogo Jota no verão passado, recusei-me a acreditar. Estava a treinar sozinho em Portugal quando peguei no telemóvel e vi umas dez mensagens da Cláudia. Liguei ao Bruno. Enviei mensagens a toda a gente que pudesse saber alguma coisa. Mesmo quando a morte dele foi confirmada, parecia-me demasiado cruel para ser verdade. Poucas semanas antes tínhamos celebrado juntos a conquista da Liga das Nações. Ainda conseguia vê-lo ao meu lado. A levantar o troféu. A dançar debaixo da chuva de confetes. Tinha acabado de casar. Tinha três filhos maravilhosos. Aos 28 anos ainda tinha tanto para dar. Ter sido companheiro de equipa dele foi uma honra», contou.
«Quando o caixão saiu da igreja e vi o sofrimento da mulher dele, o meu coração partiu-se em mil pedaços. No autocarro da Seleção, o Diogo sentava-se sempre ao lado do Rúben Neves, o melhor amigo dele na equipa. Mas na fase seguinte, aquele lugar estava vazio. O Rúben estava sentado sozinho, e via-se que não sabia como lidar com aquilo. Nenhum de nós sabia. Acho que tudo o que podemos fazer é perseguir o sonho dele. Ele queria desesperadamente ver Portugal tornar-se campeão do mundo. Não vamos lutar apenas pelo nosso país. Vamos lutar pelo Diogo», prometeu, deixando uma nota final.
«Nas semanas que se seguiram à sua morte, apercebi-me da sorte que tenho. A sorte de estar vivo. De representar um clube tão grande. De representar o meu país. De ainda ter as pessoas que amo ao meu lado. No ano passado casei-me com a Cláudia, o amor da minha vida. Ela está ao meu lado desde a primeira vez que a vi numa discoteca em Braga, quando tinha 18 anos. Temos uma filha, a Clara, que tem dois anos e, em março, demos as boas-vindas ao Tomás. Claro que nada é perfeito, mas...», concluiu.
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