Frigo fechou o pelotão em  Bordéus. IMAGO
Frigo fechou o pelotão em Bordéus. IMAGO

A lanterna vermelha: o herói esquecido do Tour

Poucos sabem quem é o último corredor a fechar a etapa, e, no caso da Volta a França, há 21 dias em que alguém fica esquecido no fim da lista. Porém, há quem defenda um certo charme no mais resiliente

BORDÉUS - Quando Marco Frigo cortou a meta em Bordéus, já quase ninguém estava por perto, para aplaudir ou apoiar o ciclista da NSN Cycling Team. Passavam já mais de cinco minutos desde que Tim Merlier tinha cortado a meta na cidade francesa que acolheu a sétima etapa do Tour2026 que se estendeu ao longo de 175,1 km.

O italiano chegou discreto, escoltado pelo carro vassoura e terminou o dia com o estatuto de lanterna vermelha, o mesmo equivale a dizer o último do pelotão.

Ninguém espera para ouvir o último, ninguém sabe quem perdeu no dia seguinte, ainda que ele tenha passado 3h49 em cima da bicicleta a dar o melhor.

Todos conhecem o camisola amarela. Poucos sabem que, no Tour de France, há outro símbolo quase tão antigo quanto a própria corrida: o lanterna vermelha, o último homem a chegar a Paris. Curiosamente, longe de ser motivo de vergonha, durante décadas foi um estatuto muito procurado, capaz de transformar um desconhecido numa das figuras mais populares do verão francês.

«Trata-se de apoiar o ciclista que dá tudo até ao fim»

Há centenas de marcas que desfilam diariamente na caravana no Tour, mas neste cortejo só há m lugar que nunca mexe: o último. «Queríamos algo significativo, que representasse valores de resiliência e superação, que são nossos também. Por isso, a parceria com La Lanterne Rouge é das mais marcantes que estabelecemos até agora com o Tour de France», explicou Benjamin Dondina , diretor de comunicação da Velux.

«Na verdade, trata-se de apoiar o ciclista para que dê tudo o que pode, tudo o que tem dentro de si, para fazer a corrida, para a fazer até ao fim. Ele é o último, mas conta com o apoio de todas as pessoas que se reuniram à sua volta durante a corrida para conseguir chegar ao fim. É fantástico poder destacar esta pessoa, que está a dar o seu melhor para que tudo corra bem e para terminar esta corrida difícil e intensa. O que queríamos salientar é que queremos ter a certeza de que destacamos não só os vencedores, mas também aqueles que estão, basicamente, a dar tudo o que podem para que as coisas aconteçam, aconteça o que acontecer. É também por isso que é importante destacar a La Lanterne Rouge ao longo de toda a volta»,

Agora, por razões diferentes mas talvez até mais nobres, ganhou novo destaque. Por causa desse esforço, o lanterna vermelha passou a ter direito a patrocinador. Ninguém quer saber dos últimos. Ou melhor, ninguém queria, até ao ano passado, quando a Velux decidiu contrariar a regra e passou a patrocinar o último classificado. Sob o lema, ‘Behind Every Rider’ -Atrás de cada ciclista -, e além da presença em todos os dorsais, a marca mostra-se orgulhosa da decisão. «Apoiamos com orgulho a Lanterne Rouge para celebrar a extraordinária resistência necessária para completar as 21 etapas».

Apita o comboio

A expressão lanterna vermelha nasceu em França, mas não teve origem no ciclismo, e sim nos caminhos de ferro.

No final do século XIX e início do século XX, o último vagão dos comboios transportava uma lanterna vermelha. A sua função era indicar aos chefes de estação e aos guardas de circulação que aquele era efetivamente o último veículo da composição. Se a lanterna não aparecesse, significava que o comboio poderia ter perdido vagões durante o percurso.

Benjamin Dondina -  VELUX Head Of PR, Influence & SoMe & Events & Core & Partnership da Região Sudoeste
Benjamin Dondina - VELUX Head Of PR, Influence & SoMe & Events & Core & Partnership da Região Sudoeste

Quando o Tour de France nasceu, em 1903, os franceses apropriaram-se dessa imagem para designar o último classificado da geral: tal como o último vagão fechava o comboio, também o último ciclista fechava a corrida. Foi assim que nasceu a expressão que rapidamente entrou na cultura popular.

Regresso às raízes

A relação entre Bordéus e o Tour de France é uma das mais antigas, ricas e lendárias da história do ciclismo mundial. Excluindo a meta final em Paris, Bordéus é a cidade francesa que mais vezes acolheu a prova, somando 82 edições no seu histórico.

Aliás, Bordéus faz parte do ADN do Tour de France, pois na primeira edição da prova, em 1903, a corrida tinha apenas 6 etapas gigantescas, e Bordéus foi a penúltima paragem (a etapa ligava Toulouse a Bordéus ao longo de 268 km) antes do regresso triunfal do pelotão a Paris.

A cidade conhecida como a capital mundial do vinho, ganhou o estatuto de santuário do sprint devido à geografia plana e às retas finais longas e largas, historicamente posicionadas ao longo das margens do Rio Garona ou na icónica Place des Quinconces.

Este ano, Bordéus regressou ao Tour, como meta da 7.ª etapa, com uma reta final de 3 km junto ao rio para reatar a tradição e coroar o homem mais rápido da atualidade.

Para a história ficará a vitória de Tim Merlier, da Soudal Quick Step, debaixo de um calor abrasador. Mais de cinco minutos depois, guardado pelo carro vassoura, chegou o italiano Marco Frigo. Mas, nesta altura, na segunda semana do Tour, é o francês Matis Louvel quem carrega a lanterna vermelha desta 113.ª edição da maior prova de ciclismo de Mundo.

O primeiro último classificado da história do Tour foi Arsène Millocheau, na edição inaugural de 1903 e terminou mais de 64 horas depois do vencedor, Maurice Garin, mas sem qualquer segunda intenção.

Ao contrário do que acontece noutros desportos, no ciclismo a lanterna vermelha acabou por adquirir um significado quase heroico. Porque o último classificado sobreviveu às montanhas; terminou as três semanas; resistiu às quedas, ao calor e ao desgaste e chegou a Paris quando muitos favoritos já tinham abandonado.

É por isso que muitos defendem que a lanterna vermelha representa a perseverança, mais do que o fracasso.

Mas nem sempre foi assim.

A BOLA viajou a convite da Velux

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