Roberto Martínez afirmou que o mais importante é melhorar a equipa a tempo do Mundial 2026 e não o resultado final

Estatísticas, humidade, humildade e o sonho dos oito jogos: tudo o que disse Roberto Martínez

Roberto Martínez falou, em conferência de imprensa, do jogo desta sábado com o Chile e já começou a abordar a fase final do Mundial

-O senhor deu várias entrevistas após a convocatória em que explicava as suas decisões. Houve vários termos que usou muitas vezes, tais como recolha de informação, avaliação de dados, estatísticas, perfis e números. Não é um bocadinho de frieza a mais?

- As estatísticas e tudo aquilo que fizemos juntos e que podemos medir são aspetos muito objetivos. Hoje, no futebol, podemos medir tudo, e isso ajuda muito a tomar decisões. Também há aspetos subjetivos, que são opiniões, e que também são muito importantes. A decisão final é uma mistura disso tudo, o que permite preparar as coisas de uma forma mais profissional e mais sábia.

- Portugal tem agora dois jogos de preparação, mas depois tem os três jogos da fase de grupos, que são os jogos a sério. Como selecionador, como é que se faz esta preparação? Já se está a olhar para as seleções do Mundial ou está a olhar-se para os adversários de agora?

- Há dois blocos muito importantes. No bloco que temos agora, já vamos com cinco treinos e o foco é individual: tentar levar todos os jogadores ao mesmo nível para poderem executar os conceitos como equipa e estarem no Mundial ao melhor nível. Eu diria que este bloco já é uma continuação do trabalho feito em março, porque já experimentámos muitos aspetos importantes daquilo que vamos fazer durante o Mundial. Os treinos têm tido intensidade e a dinâmica de grupo é muito, muito boa. Além disso, os adversários de agora já têm aspetos semelhantes aos adversários do Mundial. Jogar contra o Chile deve-se a ser uma equipa forte nos duelos, tal como a Colômbia; é uma equipa sul-americana. Depois há os aspetos nossos, os conceitos de tudo aquilo que precisamos de fazer com e sem bola. Este bloco é muito mais individual, focado em levar todos os jogadores ao melhor nível fisicamente e dar-lhes clareza sobre o que precisam de fazer. O outro bloco, o do Mundial, são os três jogos da fase de grupos, e esse é um trabalho totalmente diferente e diferenciado. Agora estamos também à espera dos quatro jogadores campeões da Europa, que chegam amanhã, e continuamos com a nossa preparação desde o ponto de vista individual até terminar este período. Quero também dizer que para nós é muito importante poder jogar perante os nossos adeptos. O significado de vestir a camisola e de representar Portugal no Mundial passa por jogar um jogo no Jamor, diante do nosso público. Jogar no Dia de Portugal, frente à Nigéria, também faz parte da nossa preparação e do aspeto psicológico dos jogadores da nossa Seleção.

–O selecionador do campeão do mundo, Lionel Scaloni, disse: «Todas as decisões que tomamos, falamos com o Messi. É inútil estar aqui a dizer que eu é que mando, vou sempre falar com ele». Tem uma relação idêntica na Seleção Portuguesa com o Cristiano Ronaldo? 

-Respeito todas as seleções do mundo e todos os treinadores do mundo, mas nós trabalhamos de forma diferente.

- A seleção espanhola e a francesa jogaram ontem e não venceram. Sendo essas duas seleções, a par de Portugal, das favoritas a conquistar este Mundial, perguntava-lhe se estes resultados um pouco estranhos podem dar algum indicador à Seleção Portuguesa.

-Os resultados nos jogos amigáveis não são o resultado final. Os resultados são todos os aspetos que a equipa trabalha durante os cinco ou seis dias antes do jogo para poder ajustar aspetos coletivos. No caso da França, ganhar ou não deve-se, a meu ver, à gestão do número de jogadores que têm. Vimos uma França com muitos atacantes, com quase cinco atacantes. São momentos em que os treinadores e os selecionadores tentam experimentar e ajustar detalhes para melhorar a equipa. O foco amanhã, para nós, não é ganhar ao Chile. O foco é melhorar como equipa e, por consequência, tentar ganhar, porque vestir a camisola de Portugal é sempre para tentar ganhar o jogo. Mas não é a prioridade; não se trata de fazer tudo apenas para ganhar o jogo. Pelo contrário, o objetivo é fazer tudo para melhorar a equipa a nível individual. Vamos utilizar as 11 substituições para gerir os minutos de que os nossos jogadores precisam. Não é o mesmo terminar a época no dia 16 de maio ou terminar a época no dia 24 de maio. Não é o mesmo jogar mais de 4 mil minutos ou jogar 2 mil minutos. É um jogo onde o aspeto individual é mais importante do que o resultado final. Há muitos resultados pelos quais vamos lutar e trabalhar, mas o foco é melhorar a equipa para o Mundial. O resultado da Espanha deveu-se à utilização de jogadores que não estão na lista do Mundial. O resultado final nestes contextos não reflete o trabalho feito nos jogos amigáveis, o resultado reside em tudo aquilo que se está a trabalhar para acrescentar e melhorar a equipa. 

-A Seleção Nacional não viaja demasiado tão tarde para os Estados Unidos. Não pode ter consequências no período de adaptação? 

-Nós estivemos lá em março. Em março trabalhámos a altitude, a mudança de fuso horário e a humidade. Trabalhámos muitos aspetos que são muito importantes. Agora, os dois jogos da fase de grupos são em Houston, num estádio fechado onde já trabalhámos em março. Para nós, o ideal é chegar o mais tarde possível, porque o trabalho que precisávamos de fazer em Portugal era muito focado no jogador. Podemos fazer isso na Cidade do Futebol, mas não o conseguiríamos fazer nos Estados Unidos. Temos quatro jogadores que tiveram sete dias para poder recomeçar a época. Para nós, trata-se de utilizar o meu terceiro Mundial e a experiência que tive nos outros Mundiais para perceber o que o balneário de Portugal precisa na preparação dos jogos.

- Em 2016 dizia-se que pouco importava se Portugal jogava bem ou mal, porque o que mais interessava no fim era vencer o Euro. Assinava já por um Portugal a não jogar assim tão bem mas a ganhar o Mundial?

- É uma pergunta difícil. O que é importante é ganhar, mas a nossa equipa, com o talento que tem, se jogar bem terá mais opções de ganhar. Portanto, ganhar é ganhar. Há um adversário e há decisões durante o jogo. Os aspetos que nós podemos controlar resumem-se a jogar bem. Então, o foco é jogar bem. Como consequência, acho que temos mais opções de ganhar se jogarmos bem e se formos a melhor equipa durante o jogo. É mais fácil focarmo-nos nisso. Querer ganhar é uma expressão muito geral. Querer ganhar é o quê? Nós queremos ganhar bem. E o que é ganhar bem? Manter a posse, reagir rápido, defender mais acima, controlar o jogo e marcar golos. Tudo isso ajuda a ganhar o Mundial.

- Matheus Nunes e João Félix não se treinaram esta quinta-feira. Como está a situação deles e de que forma isso prejudicou a preparação do jogo com o Chile?

- No futebol não há nada certo, por isso trabalhamos sempre preparados para esperar o inesperado. Infelizmente, o Matheus Nunes ainda não está em condições de treinar, pelo que fica fora da lista para amanhã. Não é o momento de arriscar. Esperamos que o Matheus esteja bem para o segundo jogo, contra a Nigéria. O João Félix vai treinar e tomaremos uma decisão a seguir ao treino, mas acho que é uma situação diferente. Sinto que é positivo e que ele vai estar apto para jogar amanhã.

- Dos jogos de preparação para este Campeonato do Mundo que já viu — e certamente já foram muitos —, há alguma seleção que o tenha surpreendido pela negativa ou pela positiva?

- Não. Adoro ver futebol e acompanhar muitas seleções, mas agora só estamos a acompanhar os nossos adversários direta ou indiretamente: o Congo, o Uzbequistão e a Colômbia. A Colômbia é uma equipa que tem muita clareza naquilo que faz e joga muito bem; é uma equipa de que gosto muito. O Congo também está a mostrar flexibilidade tática: utilizaram uma linha de cinco, algo que não tinham feito até ao último jogo. O Uzbequistão é uma equipa que está a trabalhar muito bem com o novo treinador, é muito competitiva no aspeto defensivo, e acho que o jogo de amanhã trará muitos aspetos importantes ao nível dos duelos individuais. Agora estamos a desfrutar do período de preparação e a querer jogar perante os nossos adeptos, o que faz parte do processo.

- Partindo do princípio de que, obviamente, gostaria que Portugal estivesse na final do Campeonato do Mundo, perguntava-lhe se preferia que a final fosse um Portugal-Espanha?

- [sorrisos] Agora, com toda a humildade do mundo, lembro que Portugal só tem três jogos garantidos no Mundial. Eu adorava chegar aos oito jogos, mas acho que a humildade passa por preparar bem os jogos, tentar o apuramento, tentar crescer e atingir o melhor nível possível. Depois disso, logo veremos tudo o resto.

- Os quatro campeões europeus estão a chegar. O que é que eles, além da sua própria qualidade individual, podem trazer para embalar ainda mais a equipa?

- Já o experimentámosisso no ano passado. Eles já foram campeões da Europa, chegaram e ajudaram muito com a sua confiança. Quando ganhas a Liga dos Campeões, acreditas que tudo é possível. O Nuno Mendes foi o homem do jogo na final contra a Espanha; o Vitinha fez uma final muito boa; o Gonçalo Ramos é, para mim, um exemplo com a sua atitude de estar sempre preparado para tudo o que seja ajudar a equipa; e o João Neves é um jogador que está, neste momento, ao melhor nível dos médios no futebol europeu. Agora precisam de desligar um pouco. Espero que a época deles tenha fechado bem, com uma boa celebração. Tiveram tempo com as famílias e agora a energia deles vai ser muito importante para nós a partir de amanhã. Estamos a falar de uma equipa que trabalha junta há 38 jogos, o que já é um período bom. O importante é a ideia de criar um balneário muito competitivo. No futebol moderno há 11 jogadores que começam o jogo, mas há cinco substituições. Portanto, o importante é tentar terminar os jogos com um nível ainda melhor do que aquele com que começámos. Acho que isso foi a chave nos jogos contra a Alemanha e contra a Espanha na Liga das Nações, e é isso que tentamos fazer agora. Todos os jogadores terão oportunidades durante os próximos dois jogos para mostrarem a sua forma e o seu nível, abrindo a competitividade pelo onze inicial a todos. Só assim seremos uma equipa mais forte. Não podemos trabalhar apenas com um onze inicial e esperar que tudo corra bem. Precisamos de utilizar toda a qualidade que temos. Temos muitas valências diferentes e jogadores diferentes, pelo que podemos criar estilos, planos e estratégias de jogo distintos. Para isso, todos os jogadores precisam de estar ao melhor nível. Estamos a fazer esse trabalho individualmente; não se trata apenas de escolher 11 jogadores para o jogo com o Chile ou 11 contra a Nigéria. Agora temos 18 jogadores de campo e quatro guarda-redes, e vamos tentar prepará-los a todos para o começo do Mundial.

- Que aspetos destaca no Chile para ser considerado um bom rival na preparação para o Mundial?

- É muito importante o facto de ser uma seleção renovada. Acho que o professor Nicolás Córdova está a fazer um trabalho muito interessante. Adoro as suas ideias de jogo posicional, o que estão a fazer, a utilização do Cepeda e do Gutiérrez. É uma equipa que tem muita flexibilidade e que nos vai exigir muito. Além disso, é uma seleção com o propósito de crescer. Este não é um jogo de preparação apenas para nós tendo em vista o Mundial; para o Chile, é uma partida para preparar o futuro da sua seleção. Isso faz com que seja um jogo muito competitivo, que nos vai aproximar bastante do nível de exigência individual que encontraremos contra a Colômbia, outra seleção sul-americana, servindo também para exercermos os conceitos que queremos trabalhar.

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