Eusébio, aqui num jogo com o Montijo em 1973. FOTO A BOLA
Eusébio, num jogo com o (já extinto) Montijo em 1973. O clube da margem sul esteve três temporadas na Liga - Foto: A BOLA

«Em Setúbal, tudo se foi destruindo como um baralho de cartas»

Historicamente imponente em termos desportivos, Setúbal vive hoje uma crise sem precedentes. Chegou a ter quatro equipas ao mesmo tempo na Liga, mas agora tem apenas três… no Campeonato de Portugal: Vitória de Setúbal, Amora e Alcochetense

Portugal tem grandes, além dos denominados três grandes. O Vitória de Setúbal é um deles. A formação do Sado é a sexta com mais participações na Liga (72). Além disso, tendo em conta as competições nacionais vigentes - campeonato, Taça de Portugal, Taça da Liga e Supertaça -, é também a sexta com mais troféus conquistadas (em igualdade com o Belenenses): são quatro (três Taças de Portugal e uma Taça da Liga), estando apenas atrás de Benfica (82), FC Porto (76), Sporting (52), Boavista (nove), SC Braga (seis).

O Barreiro, por seu turno, durante muito tempo, foi palco de uma das rivalidades primodivisionárias mais emblemáticas do futebol português: Barreirense versus Fabril (antiga CUF). O primeiro clube referido conta com 24 participações (a última em 1978/79) no principal escalão do futebol português, enquanto o segundo soma 23 (de onde está arredado desde 1975/76). Por aquelas bandas, há ainda mais dois conjuntos que já se bateram na primeira divisão: Montijo (nas temporadas 1972/73, 1973/74 e 1976/77) e Seixal (1963/64 e 1964/65).

«Quando estava no Montijo, cheguei a jogar o campeonato com quatro equipas do distrito de Setúbal [1972/73 e 1973/74, em campeonatos de 16 equipas que contaram com Vitória, Barreirense, Fabril, Montijo], com os campos completamente lotados e uma grande rivalidade entre os clubes aqui do distrito», lembra, ao nosso jornal, José Rachão, que vê com preocupação como, «ano após ano, tudo se foi degradando» na região.

Além das épocas supramencionadas, houve ainda uma terceira em que o distrito setubalense teve quatro emblemas na Liga: em 1963/64 Vitória de Setúbal, Barreirense, Fabril, e Seixal, numa contenda de 14 equipas. 

«Neste momento, lamento e é uma pena ter de estar a falar sobre isto, mas o que é certo é que o distrito de Setúbal não consegue ter uma equipa na Liga, nem na Liga 2, nem sequer na Liga 3 e tem só três equipas no Campeonato de Portugal, que são o Vitória de Setúbal, o Amora e o Alcochetense», lembra o ex-jogador, apelando a «que se estude o fenómeno» de degradação de um «distrito que sempre respirou futebol».

Apesar de ter nascido em Peniche (a 15 de setembro de 1952), o antigo jogador de futebol tem muito mais ligação à Extremadura: «Peniche é a minha terra natal, uma terra que amo muito. Mas cedo, com 20 anos, depois de sair do Benfica, onde fiz toda a formação, fui jogar para o Montijo. Foi lá que conheci a minha esposa e, independentemente de ter viajado pelo mundo inteiro como jogador e treinador, assentei os arraiais. Tenho lá as minhas filhas e os meus netinhos.»

José Rachão jogou no Montijo (1972 a 1976) e Vitória de Setúbal (1977/78). Treinou, depois, os mesmos emblemas, respetivamente, em 2019/20 (embora tenha sido na nova Era do herdeiro Olímpico do Montijo) e 2004/05, tendo vencido, nesse ano, a Taça de Portugal contra o Benfica (2-1). O técnico orientou ainda, no mesmo distrito, o Amora (1994/95), o Barreirense (1996 a 2000 e 2002/03) e o Seixal (2001/02). 

José Rachão, após levar o Vitória de Setúbal à conquista da Taça de Portugal, diante do Benfica, a 29 de maio de 2005 - Foto: A BOLA

José Rachão admite que «teria de perder muito tempo» para falar do estado atual do futebol na região que o adotou, «há mais de 50 anos», mas reconhece-se capacitado para tal: «Para falar disto e bem, só quem conseguiu viver o passado e consegue perspetivar o futuro. Só esses estão habilitados a falar sobre isso, porque há muitas pessoas que opinam e não estão minimamente informadas sobre o que foi o distrito de Setúbal em termos de futebol e desporto.»

«Têm de se criar condições para que voltem os valores que perdemos, como, por exemplo, dos grandes jogadores, que foram campeões europeus nascidos no Barreiro, no Montijo, em Setúbal, e que passearam o seu futebol pelo mundo», analisa. O atual vice-presidente da Associação Nacional de Treinadores de Futebol recorda, então, os tempos em que «os clubes grandes abasteciam as suas primeiras equipas ao distrito de Setúbal, em que havia cinco ou seis árbitros de nível nacional e internacional, em que havia treinadores de referência, entretanto perdidas, em que havia dirigentes com muita capacidade». Havia «gente com muito valor, homens que eram autênticos líderes, aqui no distrito. De repente, tudo isto se foi desfazendo como um baralho de cartas», acrescenta, com lamento.

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