Mundial
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Trump e a FIFA: quando a política joga futebol
ODireito ao Golo vai para a Seleção Espanhola, vencedora do Mundial. Jogou um futebol bonito, venceu e convenceu. O Mundial na América foi um sucesso: estádios cheios, adeptos contentes, um espetáculo fantástico. Foi mesmo a grande festa do futebol. A FIFA venceu a aposta de ter 48 seleções no Mundial. Não gostei de todas as inovações: o jogo devia ter duas partes e não quatro, não se pode ceder aos interesses comerciais em tudo! Mas no geral foi uma festa enorme.
Como em Mundiais anteriores a política esteve presente. Trump vangloriou-se de conseguir, com um telefonema ao presidente da FIFA, que esta suspendesse parcialmente a sanção aplicada a Folarin Balogun, jogador da seleção dos EUA. Na minha perspetiva, Trump não devia ter intervindo. Mas Gianni Infantino também não devia ter acedido. Certo que não deve ser fácil dizer não ao Presidente dos EUA, ainda para mais quando os Estados Unidos são o país anfitrião de um Mundial, que é, provavelmente, o mais bem-sucedido de sempre. E muitos eleitores americanos terão apreciado a ação do Presidente a defender os interesses do seu país.
A FIFA decidiu bem? Ou decidiu mal? E podia «suspender a implementação da medida disciplinar»? Podia. O artigo 27 do Código Disciplinar da FIFA diz isso mesmo (na alínea 1: «O órgão judicial pode decidir suspender, total ou parcialmente, a implementação da medida disciplinar». A alínea 2 explica que «a suspensão (…) da sanção sujeita a pessoa a um período probatório (…)».) Do ponto de vista técnico isto é importante pois a FIFA não tirou o cartão vermelho ao jogador. Este foi expulso e o jogo continuou. Houve sanção; o que não houve foi o cumprimento integral da mesma. O mesmo se tinha passado com Ronaldo. Curiosamente, também lhe foi retirada parte da sanção depois da visita à Casa Branca.
A Federação Belga argumentou que o artigo 66 do mesmo Código dizia que «uma expulsão incorre automaticamente numa suspensão para o próximo jogo (…)». E que por isso a decisão da FIFA estava errada. Mas, como era de esperar, a FIFA manteve a sua decisão.
Viu-se, no entanto, obrigada a dar explicações. Além de proclamar a sua «independência» num comunicado oficial, a FIFA explicou que manteve a sanção de multa (40 mil dólares) e, como vimos acima, que apenas suspendeu parcialmente os efeitos da sanção. Insistiu ainda que a suspensão parcial da execução de uma sanção é uma decisão habitual nas federações de futebol e, por isso, nada tem de extraordinário.
Num ponto a FIFA tem razão. A decisão nada tem de invulgar e não teria dado escândalo não fosse Trump ser um tipo de pessoa que torna, para o bem e para o mal, o exercício do poder mais transparente. Outros presidentes, americanos e não só, procurariam exercer as mesmas influências, mas não assumiriam o crédito publicamente. Trump é diferente: divulga imediatamente nas redes sociais as suas intervenções. Isso, claro, torna a vida difícil àqueles que, com vontade ou sem ela, se veem obrigados a fazer o que pede o Presidente americano.
A Lei Prestiani, a norma introduzida pela FIFA que prevê a expulsão de um jogador por tapar a boca durante uma conversa em campo, levou mais uma machadada. Como se escreveu nesta coluna, a regra era um disparate: os jogadores têm direito à sua privacidade. E por isso, quer a UEFA quer a Conmebol (a UEFA da América do Sul) decidiram pela sua não aplicação nas competições que organizam. Aposto que é uma regra que vai ter uma morte discreta.