10 de julho de 2016, uma data inesquecível para milhões de portugueses e para três jornalistas de A BOLA que marcaram presença no Stade de France

Foi a 10 de julho de 2016 que Portugal deixou de ser o país do «quase» e conquistou o título europeu de futebol. Uma década depois da mágica noite de verão no Stade de France, ainda todos lembramos o épico remate de Éder, as lágrimas de Cristiano Ronaldo e a promessa cumprida de Fernando Santos. Mas a glória forja-se nas sombras. O maior feito do futebol português construiu-se nos corredores isolados de Marcoussis, na cumplicidade do balneário e na união de uma equipa blindada contra o ceticismo.

Para assinalar este 10.º aniversário decidimos afastar a cortina do palco principal. Reunimos 10 segedos dos bastidores do Euro 2016. Prepare-se para reviver a conquista de Paris, mas desta vez a partir do interior da comitiva.

SEXTA-FEIRA, 13: AZAR DE UM...

Fernando Santos anunciou a convocatória para o Euro 2016 no dia 17 de maio, e a lista já estava na cabeça do selecionador há muito tempo. Danny, Tiago e Fábio Coentrão, que vinham de lesões prolongadas, ficavam fora da equação.

Fernando Santos também estava preparado para ignorar a pressão mediática que exigia a chamada de Renato Sanches, que tinha sido a figura da segunda volta da temporada do campeão Benfica.

O dia 13 de maio foi, porém, de azar para Bernardo Silva, que sofreu uma lesão na coxa direita, num treino do Mónaco. Perante o diagnóstico, três semanas de paragem, Fernando Santos decidiu incluir Renato Sanches na lista divulgada quatro dias depois, e o médio, então com apenas 18 anos, deu importante contributo para o título.

Renato Sanches foi a novidade da lista de convocados para o Euro 2016 (foto: Miguel Nunes)

AMBIÇÃO NA BALANÇA

«Só vou dia 11 [de julho] para Portugal, e vou ser recebido em festa». A premonição lançada por Fernando Santos a 19 de junho de 2016, após dois empates (Islândia e Áustria), marcou a caminhada da Seleção, mas a ambição do selecionador já tinha entrado na cabeça dos jogadores muito antes disso.

A estreia até foi no Stade de France (derrota em particular com a seleção gaulesa, por 2-1), e o selecionador aproveitou o palco para traçar a ambição de ali voltar para jogar e vencer a final do Campeonato da Europa.

Fernando Santos também tinha o hábito de desenhar uma balança no quadro. De um lado o talento individual e coletivo da equipa das quinas, do outro organização, capacidade de trabalho e sacrifício para igualar a vontade do adversário. Sem abdicar da ambição, o discurso do selecionador também apontava constantemente para a necessidade de equilíbrio.

Fernando Santos prometeu que só voltava a casa a 11 de julho e cumpriu (foto: Miguel Nunes)

NÃO É MAU FEITIO, É RITUAL

Portugal fez dois jogos em Lyon (Hungria e País de Gales), e no segundo deles, a meia-final, a polícia francesa decidiu, à última hora, alterar o trajeto entre o hotel e o estádio. Fernando Santos apercebeu-se e decidiu dirigir a irritação (em voz alta) ao motorista, que era português. O atraso acabou por ser de apenas 10 minutos.

Quando está bem disposto, o técnico até reconhece que tem mau feitio. Se a irritação surgir logo de manhã e interferir com as superstições, então pior ainda. Durante o Euro 2016 bebia o café sempre à mesma hora, na mesma chávena, e tinha de ser o próprio a colocar o filtro na máquina. A 22 de junho, dia do jogo com a Hungria, Fernando Santos falhou o ritual por causa de uma reunião de última hora. Portugal somou depois o terceiro empate na fase de grupos (3-3), apurando-se apenas no terceiro lugar do grupo, e o selecionador decidiu tomar medidas: a partir desse dia ninguém mais podia tocar na máquina do café.

Superstições, rotinas, rituais: seja qual for o nome, Fernando Santos leva-as muito a sério. Para afastar qualquer negatividade, o técnico chegou a mandar tapar a palavra «Não» em algumas frases espalhadas pelo centro de treinos. O lema «Não somos 11, somos 11 milhões» ficou «Somos 11, somos 11 milhões». O slogan «Não é uma questão de talento, é uma questão de trabalho» também perdeu a palavra inicial.

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ESPECIARIAS NO PASTEL DE NATA

As especiarias deram um condimento especial à conquista portuguesa. Bruno Alves foi o principal responsável por levar diferentes aromas e sabores (como cúrcuma ou pimenta-caiena) para o estágio da equipa das quinas em Marcoussis, mas outros jogadores, como José Fonte, aderiram rapidamente. Ao início houve quem brincasse com tal hábito, mas às tantas já poucos resistiam.

Com ou sem canela, o pastel de nata acompanhou também o vitorioso estágio da Seleção Nacional. Não é fácil manter 23 jogadores fechados durante mais de um mês, e por isso a equipa técnica decidiu dar um docinho ao plantel. Sem boicotar a dieta nem enfurecer os nutricionistas, foi estabelecido um pacto (mais ou menos) secreto: sempre que Portugal passava uma eliminatória, ou quando os jogadores mereciam um incentivo pelo compromisso nos treinos, era dada autorização para servir pastéis de nata ao lanche, fornecidos por uma pastelaria portuguesa de Paris.

Pastel de nata (IMAGO)

UNIDOS NO QUENTE E NO FRIO

A união da equipa não se notava só em campo. Também à mesa, como já vimos, assim como no trabalho menos visível, fora do relvado. Impulsionados por Cristiano Ronaldo, os jogadores tinham enorme preocupação com a condição física. Na sauna ou no gelo, levavam a recuperação muito a sério. Um dos quartos foi mesmo transformado em ginásio/sala de recuperação, e o capitão era quase sempre o último a sair, por vezes já perto da meia-noite.

De referir ainda que os responsáveis da FPF começaram a estudar a possibilidade de montar o quartel-general em Marcoussis ainda em 2014, quando as contas do apuramento estavam complicadas. Só depois de garantida a qualificação e realizado o sorteio é que foi possível concretizar esse desejo, mas a federação francesa de rugby não facilitou nada na negociação, tendo em conta as obras que eram pedidas. Acabou por ficar uma boa relação entre as duas federações, e Marcoussis entrou para a história do futebol português.

Cristiano Ronaldo a cuidar do físico em 2016 (instagram)

SNOOKER, SETAS E... PAGODE

Também existiam consolas no estágio da Seleção, mas o grupo dava prioridade a outros jogos nos tempos livres. 10 anos depois, Eliseu é referenciado como um crónico favorito nos torneios de snooker, enquanto João Mário, Danilo e Cristiano Ronaldo foram apontados como campeões nas setas.

A música também ajudou a animar o grupo, claro está. Quaresma, Eliseu e Bruno Alves eram os membros do «Grupo do Pagode». Levavam colunas de som gigantescas para todo o lado, e não poupavam os pulmões a cantar. Na manhã seguinte à vitória sobre a Croácia, nos oitavos de final, apareceram na sala do pequeno-almoço às 8h da manhã, ainda a festejar o apuramento. Fernando Santos, que estava a tomar o tal café da praxe, levantou-se furioso e deu um murro na mesa. «Isto não é o Carnaval do Rio, é a Seleção Nacional. Vão cantar para o autocarro!», terá dito. Seguiu-se um silêncio sepulcral, mas a partir daí o foco esteve na Polónia.

FINAL DESEJADA

Portugal foi a primeira equipa a garantir a presença na final do Euro 2016. No dia 6 de junho, em Lyon, a equipa das quinas venceu o País de Gales na primeira meia-final do torneio, por 2-0, com golos de Cristiano Ronaldo e Nani.

24 horas depois, já de regresso ao quartel-general de Marcoussis, a equipa lusa assistiu ao duelo de Marselha entre França e Alemanha. Ao contrário do que talvez fosse de esperar, o desejo era encontrar a seleção gaulesa na final do dia 10 de julho. Não por entenderem que a formação orientada por Didier Deschamps fosse mais fraca. Au contraire: a seleção portuguesa queria provar que conseguia ganhar o Europeu mesmo defrontando a equipa da casa na final.

A defesa de Rui Patrício que inspirou a estátua em Leiria (IMAGO)

CRENÇA DO CAPITÃO MAGOADO

A conquista portuguesa revelou-se tão épica que foi consumada sem o capitão, lesionado ainda na primeira parte da final. Mesmo assoberbado pela tristeza e inundado em lágrimas, Cristiano Ronaldo honrou o papel de capitão ao intervalo, com palavras que ficaram guardadas na memória de todos aqueles que assistiram. Após a palestra de Fernando Santos, focada nos aspetos técnico-táticos, Cristiano pediu a palavra para dar ânimo aos colegas e dizer que mantinha crença total na vitória. Uma mensagem positiva e animadora que inspirou os colegas.

Depois ficam para a história as imagens do craque português a assumir o papel de adjunto de Fernando Santos, em pé, junto ao banco, antes da consagração. Lesionado mas realizado.

«AUX CHAMPS-ÉLYSÉES»

Nos dias anteriores à final do Euro 2016 foi preciso decidir qual seria o plano de regresso a Portugal. Ou a 10 de julho, logo após a decisão no Stade de France, ou então no dia seguinte. Fernando Santos rejeitou prontamente a primeira opção, pois isso implicaria que toda a gente fizesse as malas antes do jogo. «Vamos ganhar, voltamos com a taça, agradecemos a toda a gente no centro de treinos, aos portugueses que estão sempre aqui, e vamos no dia seguinte», determinou então.

A equipa regressou então a Marcoussis de madrugada, com a taça, em ambiente de enorme euforia. Cristiano Ronaldo, Nani e Bruno Alves foram os principais impulsionadores da festa, e no avião de regresso a Lisboa até se ouviu Joe Dassin. «Aux Champs-Élysées»!

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HERÓI ANTES DO MEDIATISMO

Éder chegou ao Euro 2016 como uma espécie de «patinho feio» da equipa, tendo em conta a controvérsia associada à convocatória do avançado, que em 2015/16, entre Swansea e Lille, tinha marcado apenas seis golos (todos na equipa francesa). Éder sabia bem que era visto com desconfiança, e por isso ficou desconfortável quando soube que a 11 de junho seria ele a marcar presença na conferência de imprensa diária.

«Desde criança que ultrapasso adversidades e isso tem sido muito importante na minha vida. Vou continuar a trabalhar e a dar o meu melhor. Não procuro calar ninguém», disse então. Os jornalistas ficaram sensibilizados pela simplicidade de Éder, que falou da infância difícil que teve, e diz quem fazia parte da comitiva que o avançado soltou-se depois da conferência. Mais confiante, até disse a Fernando Santos que ia marcar, quando o selecionador o lançou na final. Um dia depois estava em Lisboa como herói nacional, a decretar um feriado que ficou por aprovar.

Éder e a luva branca (Miguel Nunes)

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