‘Better Call Saul’ na vida real: o negócio milionário dos ‘Abogados’ que inunda as estradas de Miami

Crónicas da vida de um jornalista a fazer a cobertura do Mundial 2026

MIAMI — Quem se faz à estrada na mítica Route 66 — ou, no nosso caso atual, nas intermináveis intersates (sobretudo a 95) que ligam Miami a Palm Beach — é engolido por uma paisagem urbana que parece saída diretamente de um guião de Hollywood. 

Esqueçam os anúncios a hambúrgueres ou ao novo modelo da Ford. Aqui, o rei do asfalto americano veste fato, gravata e promete o paraíso financeiro após a desgraça. Bem-vindos ao festival dos billboards de advogados, a versão real, massificada e em esteróides de Better Call Saul.

Para quem cresceu a ver as peripécias de Saul Goodman, o carismático e trapalhão advogado da série de culto que recorria aos métodos mais bizarros para angariar clientes, o cenário na Florida não é ficção: é um negócio de milhões.

A cada quilómetro, painéis gigantescos competem pela atenção dos condutores com slogans agressivos. «Bateu? Ligue já!», «Não pague se não ganhar!», ou «Culpado? Nós resolvemos».

Nas zonas de Miami e Palm Beach, o fenómeno ganha uma cor muito própria. Dada a imensa densidade da comunidade latino-americana, o inglês cede espaço ao castelhano. O grande destaque das últimas milhas vai para um outdoor hilariante: um advogado de olhar penetrante, ostentando um colossal chapéu de cowboy, mesmo por cima da palavra «ABOGADOS» escrita em letras garrafais. É o marketing de guerrilha no seu esplendor, piscando o olho ao eleitorado hispânico.

Nesta selva jurídica, o filão de ouro são os acidentes de viação. Se há chapa batida, há uma apólice de seguro para espremer. Logo a seguir, surgem os incidentes em áreas comerciais — a típica rasteira no chão molhado do supermercado que, nos EUA, se transforma instantaneamente num processo por negligência e em indemnizações chorudas.

O ambiente em Palm Beach mantém-se de recato absoluto no quartel-general da Seleção, mas basta cruzar a barreira do resort para mergulhar neste ecossistema puramente capitalista. Onde o cidadão comum vê uma tragédia ou um azar na estrada, estes Sauls Goodmans modernos cheios de dentes brancos e poses triunfais veem a oportunidade de uma vida. Se a moda pega em Portugal, o IC19 nunca mais será o mesmo.

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