Rodrigo Mora vive momentos difíceis no Dragão e a saída parece ser a única solução que dá continuidade a uma evolução interrompida — Foto: IMAGO
Rodrigo Mora vive momentos difíceis no Dragão e a saída parece ser a única solução que dá continuidade a uma evolução interrompida — Foto: IMAGO

Rodrigo Mora: até génio já desperdiçamos

Com 1,68 metros de pura inteligência e sem espaço no modelo de Farioli, Rodrigo Mora virou problema onde deveria ser solução. Perde o FC Porto, a Liga, Portugal e o... futebol

O que está a acontecer com Rodrigo Mora, talvez o maior talento em bruto da formação do FC Porto em muitos anos, tem o seu quê de criminoso. E, não, não me esqueci no top azul e branco de Vitinha, que se tornou estratosférico, sim, mas sobretudo a partir do momento em que Luis Enrique pressentiu nele em Paris o que Guardiola viu em Xavi em Barcelona.

Também entendo que a cultura de exigência que existe no Dragão não abra exceções nem a um belo guitarrista no meio da sua orquestra, simplesmente porque não toca nenhum dos instrumentos clássicos. Todavia, ainda que nunca vá conseguir aprender ao ponto de ser tão bom como os outros, assim que se liga à corrente saem-lhe acordes únicos de puro do mais puro génio. Nada a fazer, será um Dragão performativo, sempre rígido no plano seguido, aquele que maestro Francesco Farioli monta mais uma vez. Terá, em tese, como teve antes, poucos momentos de rasgo.

A rota de colisão estava, há muito, bem desenhada e à vista. O FC Porto não guardou espaço para que o seu mais que tudo ganhasse raízes ou sequer criasse momentum para uma transferência multimilionária. Contratou por cima. Trouxe titulares para a mesma posição e, quando foi altura de escolher a equipa-sombra, colocou-o a medir-se perante a referência errada.

Rodrigo Mora dificilmente conseguirá vingar como terceiro médio, como aquele 8,5 um pouco mais criativo como é Gabri Veiga. Talvez o consiga, sobretudo com outra qualidade, ao ser um dos avançados, eventualmente o da esquerda, já que o triângulo criado privilegia quem faz diagonais para dentro e não quem parta do corredor interior para outros locais. Não estou a dizer que o seu caminho deveria ter sido mais fácil, embora acredite que pudesse ter sido mais justo. Mesmo não sendo um extremo, tem mais alelos em comum com quem pisa perto da baliza do que com um médio.

Era inevitável o que aconteceu depois. O rendimento de quem parecia prestes a explodir baixou de forma considerável e progressiva à medida que se deixou descair uns metros, se afastou das entre linhas e a confiança também o abandonou. Mesmo quem estava habituado a fazer as coisas quase sempre bem, quer na escolha do momento certo, quer do gesto mais adequado, perdeu o chão que lhe sustentava a evolução de forma gradual. Perante o tal desfecho previsível, os portistas procuraram agora, um ano depois, uma outra solução no mercado e o cenário piorou. Mora já não se pode medir com Gabri Veiga. A referência para o jovem é já o suplente mais direto do espanhol, o sul-coreano Inbeom.

André Villas-Boas sempre soube que isto ia acontecer e, como tal, Mora está à venda desde que Farioli entrou em campo para devolver títulos aos azuis e brancos. Ainda só tem 19 anos e a idade continua a ser apetecível, ainda mais porque não terá perdido a sua capacidade, mas a montra tornou-se mais pequena. E ainda apertará se não sair neste verão.

O que é que o miúdo não tem que os outros tenham? A resposta é sempre a mesma: físico. Não tem agressividade para duelos? É mentira. Não pressiona? Falso. Pode não fazê-lo como os outros, mas tenta. O problema é que tem apenas 1,68 de altura e menos de 60 quilos. E o futebol, apesar de tantos exemplos de que maior não é melhor, continua a torcer o nariz a gente de palmo e meio.

É precisamente a fisionomia que o afasta de um Pablo Rosario, por exemplo, aquela que lhe permite acrescentar o que mais ninguém consegue, em todo o grupo de trabalho: capacidade de pisar qualquer metro quadrado no último terço, ler os espaços no meio de uma confusão de pernas e testosterona, driblar em velocidade e finalizar com critério. A isso junta uma inteligência que, convenhamos, pode ser muito mais bem aproveitada em situações ofensivas do que a tapar buracos na defesa. Hoje, diz-se e escreve-se que, quando está em campo, a equipa fica mais vulnerável na proteção da sua baliza. Ainda que seja normal que o moral em baixo o deixe mais exposto, não passarão de desculpas para manter tudo na mesma. E, sobretudo, para apagar de imediato qualquer discussão. Ao ponto de se apontar para Mora e se dizer já que é «o dispensável do grupo». Algo que nos deveria revolver a todos as entranhas.

Farioli deixa-me triste com a comunicação que adotou como causa própria, que pode servir para muitos como prova de adaptação e de integração para o tal um de nós, mas também parece superficial e muito pouco natural, e alinha com o discurso de guerrilha e de nós contra o mundo, mais do que ultrapassado, em pleno século XXI, com o desaparecimento de certos atores. Sempre o tive, no entanto, em boa conta. Exceto neste caso, em que o italiano nunca quis tentar. Protegido por Villas-Boas, pelas propostas ou rumores que alimentavam a ideia de saída e depois pela consistência dos resultados, o técnico nunca quis dar a Rodrigo Mora um estatuto especial. A isso tem direito. Mas depois fez pior, ao metê-lo numa luta errada, que nunca lhe deu hipótese de vingar.

Olhamos para o futebol moderno e temos selecionadores e treinadores a queixarem-se de que está tudo demasiado formatado, pensado, testado e definido. Que, com a insegurança e a evolução da tecnologia, se perdeu a rua, as dificuldades do alcatrão, as irregularidades das calçadas, os dramáticos lancis e os buracos nos potreros, que libertavam a técnica e a imaginação, e empurravam para uma solução. E a rua dificilmente se replica, apesar das tentativas que têm surgido aqui e ali, com espaços especiais ou simplesmente na anulação das regras nos treinos com os mais pequenos. Vimos o Escrete mirrar, o campeonato argentino cimentar-se no duelo, os uruguaios a deixarem fugir a sua melhor geração entre os dedos, e por cá também perdemos a ginga. O truque. Mesmo que tenhamos dos melhores do planeta.

Enquanto uns se queixam, outros desperdiçam o que têm. E esse desaproveitamento nunca é isolado ao clube que detém o talento. É também um verdadeiro desperdício para todos nós, os que o queríamos ter em campo, a brilhar e a valorizar a Liga portuguesa. E para o futebol.

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