Nadador Michael Phelps, 41 anos, conquistou 28 medalhas em quatro edições de Jogos Olímpicos - Foto: IMAGO
Nadador Michael Phelps, 41 anos, conquistou 28 medalhas em quatro edições de Jogos Olímpicos - Foto: IMAGO

O desgaste da saúde mental na alta competição

Desportiva_MENTE é o espaço de opinião de Liliana Pitacho, Psicóloga e docente no Instituto Politécnico de Setúbal

Associamos frequentemente o sucesso desportivo à felicidade. Como pode alguém que acaba de conquistar uma medalha olímpica ou um título mundial sentir-se vazio ou deprimido? A resposta obriga-nos a olhar para aquilo que o resultado não mostra: o custo psicológico de chegar ao topo.

O consenso do Comité Olímpico Internacional, coordenado por Reardon e colaboradores, recorda-nos que os atletas de elite não estão protegidos das perturbações mentais. A condição física, a disciplina e o sucesso podem coexistir com depressão, ansiedade ou burnout. Por vezes, é precisamente depois de uma grande conquista que o sofrimento se torna visível.

Apesar de continuar a ser um tema marcado pelo silêncio e pelo estigma, os estudos mais recentes confirmam a presença significativa de problemas de saúde mental no desporto de alto rendimento. Um estudo sobre depressão pós-olímpica verificou que, um mês depois dos Jogos de Tóquio, 27 % dos atletas dinamarqueses avaliados apresentavam bem-estar abaixo da média ou sintomas depressivos moderados a graves.

Uma meta-análise publicada em 2024 concluiu ainda que antigos atletas de elite apresentavam uma prevalência de ansiedade 2,08 vezes superior e de depressão 2,58 vezes superior à da população geral. No futebol profissional, outro estudo de 2024 identificou sofrimento psicológico relacionado com o desporto em 53 % dos jogadores avaliados. Em 2025, uma investigação com 204 jogadores de um clube de elite alemão encontrou sintomas depressivos em 12,7 % e sintomas de ansiedade em 15,6 %, observando também um aumento da sintomatologia depressiva ao longo da época.

Estes dados não significam que vencer provoque depressão, nem que toda a tristeza depois de uma competição seja doença. Mostram, isso sim, que o sucesso não protege a saúde mental e que o fim de um ciclo de exigência extrema pode constituir um período de particular vulnerabilidade.

Durante meses ou anos, o atleta concentra energia, atenção, controlo emocional e identidade num único objetivo. A Teoria da Conservação dos Recursos, de Hobfoll, ajuda a explicar este processo: perante exigências prolongadas, mobilizamos recursos psicológicos que precisam de ser recuperados. Quando a recuperação é insuficiente, esses recursos começam a esgotar-se.

Enquanto existe uma meta, há uma missão e uma resposta à pergunta «o que tenho de fazer?». Depois da vitória, desaparecem a urgência, a estrutura e, muitas vezes, o propósito que organizou a vida. Os aplausos continuam, mas o atleta regressa ao silêncio. E é nesse silêncio que o cansaço acumulado pode finalmente fazer-se ouvir.

Michael Phelps falou das depressões que viveu depois dos Jogos Olímpicos, apesar de se ter tornado o atleta mais medalhado da história. As medalhas confirmavam quem era para o mundo, mas não resolviam quem era fora da piscina.

Também Andrés Iniesta atravessou uma depressão num dos períodos de maior sucesso da sua carreira. Depois de uma época histórica ao serviço do Barcelona, enfrentou lesões sucessivas e foi profundamente afetado pela morte súbita do amigo Dani Jarque. Um ano depois, marcou o golo que deu o primeiro título mundial a Espanha. O herói que todos viam continuava a ser um homem em recuperação.

Estes exemplos mostram que o rendimento não é um exame à saúde mental. Um atleta pode ganhar, marcar e bater recordes enquanto se sente emocionalmente destruído. Pode funcionar sem estar bem.

Preparar um atleta para vencer implica prepará-lo também para o depois. Recuperar não é apenas descansar músculos. É reconstruir recursos psicológicos, diversificar a identidade e encontrar novos sentidos para além do resultado. Tendemos a olhar para a vida dos atletas como sinónimo de talento, sucesso, glória e até glamour, raramente nos perguntando quanto lhes custou chegar e permanecer no topo. E não estou a falar de dinheiro.

Por vezes, é precisamente quando o atleta chega ao topo que mais precisa de alguém que lhe pergunte, sem olhar para a medalha: «Como estás?»

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