Bandeira dos Estados Unidos da América (foto: Miguel Nunes)
Bandeira dos Estados Unidos da América (foto: Miguel Nunes)

Os americanos estão-se nas tintas para o Mundial

Crónica diária sobre a vida de um jornalista na cobertura do Mundial 2026

PALM BEACH - Para quem chega da Europa com a cabeça cheia de futebol, convencido de que o Campeonato do Mundo é o centro de gravidade do planeta, a imensidão da Florida aplica uma cura de humildade instantânea.

Mal pusemos os pés no asfalto americano, percebemos que a nossa armada, as nossas ânsias e até o próprio Cristiano Ronaldo são pouco mais do que uma nota de rodapé invisível na rotina desta gente.

A verdade nua e crua é que os norte-americanos estão-se completamente nas tintas para isto tudo. Enquanto em Lisboa o país para para ver o Vitinha falar ou o Rafael Leão a coxear, aqui a vida corre em formato XL, impávida e serena, focada em desportos com nomes diferentes e em marcas que nós mal arranhamos.

A caminho de Palm Beach, a bordo da nossa viatura de reportagem, sintonizámos as rádios locais e, mais tarde, passámos pelos canais de desporto das televisões. O cenário é desconcertante. O soccer continua a ser um parente pobre, uma curiosidade exótica para preencher espaço enquanto não começam os debates sérios sobre o draft da NFL, as finais da NBA ou as estatísticas infindáveis do basebol.

Portugal instalou-se num resort de luxo, fechou um complexo desportivo com forte aparato policial e montou uma operação logística digna de uma cimeira de chefes de Estado. Mas basta sair do perímetro de segurança para perceber que, para o cidadão comum de Palm Beach Gardens, aquele aparato todo é só um incómodo no trânsito ou um mistério sobre que estrela pop estará hospedada na zona.

Não há cartazes nas ruas, não há febre nas esplanadas, não há camisolas das seleções a desfilar nos centros comerciais. A América consome-se a si própria e ao seu entretenimento doméstico. Este choque de realidades é o mais delicioso combustível para quem escreve.

Enquanto tentamos furar o bloqueio da FIFA para caçar uma história, o empregado do restaurante olha para as nossas acreditações com um encolher de ombros. No império do espetáculo, o desporto-rei do resto do mundo é apenas um figurante que veio passar férias.

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