Mundial
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«O Ronaldo tem de comer esta tarte... se quer correr mais depressa!»
PALM BEACH - A azáfama de um Campeonato do Mundo foca-se, quase sempre, nos relvados impecáveis, nas dinâmicas táticas desenhadas ao pormenor por Roberto Martínez e no silêncio absoluto que passou a imperar no Four Seasons Resort Palm Beach, o quartel-general de Portugal em solo norte-americano. No entanto, a meros dez minutos de distância, embalado pelas águas calmas da Florida e pelo vaivém constante de barcos e hidroaviões, ergue-se um monumento vivo da restauração que reclama a sua quota-parte de protagonismo nesta rota mundialista.
O convite está feito, o sotaque é tipicamente local e o desafio lançado à comitiva portuguesa tem tanto de histórico como de saboroso. Falamos do mítico Old Key Lime House, um espaço único cuja alma resiste à passagem do tempo desde 1889.
É, oficialmente, o estabelecimento à beira da água mais antigo do estado da Florida e guarda nas suas paredes de madeira pintada de verde-alface e na sua envolvência tropical as histórias de várias gerações. Fomos ao encontro de Ryan Cordero, o atual rosto e herdeiro deste império familiar, que nos recebeu com a simpatia e a descontração de quem sabe perfeitamente ter em mãos um tesouro cultural e gastronómico sem preço.
«A minha família faz isto, na verdade, desde 1840, muito antes de a própria Florida ter sido incorporada como um estado norte-americano, o que só aconteceu em 1845», começa por nos contar Ryan Cordero, visivelmente orgulhoso, tendo o mar e as esplanadas de madeira azul como pano de fundo. O espaço mantém intacto aquele magnetismo que faz qualquer visitante sentir-se imediatamente em ambiente de férias — onde o reggae e a música ao vivo ecoam perto do cais —, mas a verdade é que nem sempre teve a vida facilitada ao longo do último século.
Ao apontar para uma enorme e vistosa cabana de colmo que domina uma das alas do restaurante, o proprietário recorda uma das maiores provações da história recente do estabelecimento: «Onde hoje vê aquela grande cabana ali atrás, costumava ser uma sala de jantar fechada, equipada com ar condicionado. Mas o furacão Wilma entrou por aqui e destruiu completamente essa estrutura. Para a reconstrução, decidimos trazer os índios Seminoles, que vieram e ergueram o que é hoje a maior cabana Chikee de toda a Florida.»
O resultado dessa reviravolta é um ambiente incrivelmente descontraído, onde os chinelos de enfiar no dedo e os fatos de banho são aceites como o traje oficial do dia a dia.
Contudo, se a envolvência tropical salta à vista, há um segredo bem guardado que atrai multidões de todos os cantos do planeta ao Old Key Lime House: a mítica Key Lime Pie, considerada por muitos a melhor tarte de lima do mundo. E a receita, segundo Ryan, está no sangue da sua linhagem: «Foi a minha família que inventou a tarte de lima original lá atrás, em Key West, em 1840. É uma autêntica tradição da Florida. As limas do tipo Key só crescem aqui, na nossa região, e nós criámos esta tarte maravilhosa com um merengue muito específico e personalizado no topo. É simplesmente fantástica, divinal».
Ciente de que a comitiva portuguesa se encontra mesmo ali ao lado, a uma curta viagem de carro que não ultrapassa os dez minutos, o empresário norte-americano solta um sorriso rasgado e confessa o desejo de ver as estrelas da equipa das quinas sentadas à sua mesa.
A receita para o sucesso na competição, garante, pode muito bem passar por uma doce batota permitida pela gastronomia da Florida.
«Sei perfeitamente que o Mundial está a acontecer e que a Seleção de Portugal está hospedada mesmo aqui na nossa rua. Se algum dos rapazes quiser vir cá provar a nossa tarte de lima, estamos mais do que prontos e de braços abertos para os receber!», atira Ryan em tom de desafio.
E quando questionado diretamente sobre se conhece as figuras da nossa equipa, o nome do capitão surge de imediato na ponta da língua, acompanhado de uma peculiar garantia de rendimento desportivo que promete agitar os bastidores.
«Claro que sim, o Ronaldo primeiro de tudo! E olhem que a nossa tarte de lima na verdade faz-te correr ainda mais depressa, por isso seria uma grande vantagem competitiva para eles comerem isto antes dos jogos!», remata o proprietário entre risos, deixando uma mensagem de apoio bem audível antes de nos despedirmos: «Obrigado, e força Portugal!».
Após o empate frustrante diante da RD Congo e a consequente ordem de recato absoluto imposta pela FPF para evitar distrações excessivas nas redes sociais em Palm Beach, resta saber se Roberto Martínez e a equipa de nutricionistas vão abrir uma rara exceção na dieta ultra-rigorosa dos atletas.
A tentação da mais famosa iguaria da Florida está mesmo ao virar da esquina. Quem sabe se o segredo para a velocidade e a inspiração de Cristiano Ronaldo para o próximo duelo com o Uzbequistão não se esconde, afinal, numa generosa fatia de história, merengue e lima.