Sandro Cruz reflete sobre o peso do bem-estar físico e psicológico no rendimento dos jogadores

«As pessoas esquecem-se do nosso lado humano devido ao dinheiro que ganhamos»

Sandro Cruz conquistou o primeiro título da carreira há parcas semanas, mas não esquece momentos em que a glória parecia inalcançável. Das viagens longas à Champions, lateral detalha aventura no Slovan Bratislava

Sandro Cruz recuperou a alegria a jogar futebol. A primeira temporada fora de portas, ao serviço do Slovan Bratislava, na Eslováquia, culminou na conquista do campeonato e nos primeiros minutos da carreira nas competições europeias.

A tranquilidade domina o dia a dia em Bratislava, mas Sandro Cruz detalhou as dificuldades que enfrentou dentro e fora de campo, em entrevista A BOLA.

—   Como avalia a primeira temporada fora de portas?

—  Está a correr muito bem, também devido ao trabalho coletivo que tem sido feito e à maneira como o grupo me recebeu. O clube deu-me as ferramentas necessárias para ter mais projeção e mais oportunidades de fazer a diferença. A jogar com os jogadores de qualidade que temos aqui é sempre mais fácil ter os resultados que tive esta época. O clube está à procura de espaço para poder criar uma academia, mas tem todas as condições para se poder trabalhar. As burocracias e as ideias aqui são completamente diferentes de Portugal, mas o clube está em crescimento. A liga é muito diferente da portuguesa. Aqui o jogo é mais rápido, muito partido. Por vezes, não tão intenso, mas tem espaço para melhorar. A liga portuguesa é mais tática, um jogo de xadrez.

—   Porque é que decidiu rumar a outras latitudes?

  Nós, portugueses, gostamos sempre de casa e de estar em Portugal. Temos sempre aquele pequeno receio de poder sair e de correr mal. Tentei seguir um caminho diferente e sinto-me bem, apesar de ter sido um pouco repentino. Tinha acabado de mudar-me para o Gil Vicente e esperava ficar lá mais uma época. Vim para aqui e foi tudo um bocado confuso no início, mas correu bem. Quando nos sentimos confortáveis, como se estivéssemos em casa, o trabalho fala por si e deixamo-nos levar. As coisas acontecem naturalmente e com muita consistência. 

—  Que aspeto é que mais o surpreendeu na Eslováquia?

 Em Portugal, os treinadores têm o hábito de fazer estágios antes dos jogos. Aqui não, viajamos no dia. Algumas vezes, quando é uma distância grande, de seis horas, vamos de avião, mas quando são distâncias de três/quatro, vamos de autocarro. Pesa um bocado nas pernas, mas é a política daqui. Estamos sempre com a família antes dos jogos, o que também é importante.

Sandro Cruz ao serviço do Slovan Brastislava - Foto: IMAGO
Sandro Cruz ao serviço do Slovan Brastislava - Foto: IMAGO

—  Pela primeira vez na carreira teve de se adaptar a uma pausa competitiva de inverno...

Quando o campeonato é muito corrido existe sempre aquela quebra e o risco de lesões. Esta pausa dá-nos o tempo de poder desligar um pouco do futebol, recuperar o nosso corpo e voltar com outra energia. Dá-nos a hipótese de sermos consistentes ao longo da época e de evitarmos lesões ao máximo. Mas, ao mesmo tempo, começamos a época muito cedo e temos muitos jogos durante a época, com play-off’s e fases de liga de competições europeias. Jogamos de três em três dias. Essa paragem em dezembro é boa. É má para quem gosta de futebol porque pára, mas é boa para restaurar o corpo e a mente.

— Como é que viveu a transição de Barcelos para Bratislava?

Para mim o mais importante era a segurança da minha família e ver que se sentiam bem na cidade. Foi uma transição segura. A cidade é boa, muito parecida a Lisboa, proporciona as condições para  estar tranquilo e feliz.

— O que é que sentiu ao jogar competições europeias pela primeira vez?

Poder disputar jogos de qualificação para a Champions League e estar tão perto de disputar a fase de liga é algo único. O clube proporciona-nos isso. Espero que para o ano possamos chegar lá, vamos começar na segunda pré-eliminatória. Espero que possamos ouvir o hino da Champions.

— Não seguiram em frente na Champions, mas na fase de liga da Conference League venceram o Rayo Vallecano, eventual finalista, por 2-1. O Crystal Palace já vos pediu dicas?

O Crystal Palace e o Rayo Vallecano eram os favoritos a chegar à final da Conference devido às ligas em que jogam e à qualidade que têm. O Rayo Vallecano com um plantel cheio de qualidade, o lateral direito [Ratiu], lo ateral esquerdo [Chavarría], o médio ofensivo [Palazón] . Nós também temos a nossa qualidade, não é fácil jogar aqui por causa do frio. Mas via-se potencial de uma equipa que podia chegar à final da Conference. Tinham as suas fragilidades como todas as equipas têm, mas tinham muita qualidade e muita profundidade no plantel.

— Marca o primeiro golo pelo Slovan logo num dérbi contra o Spartak Trnava...

O golo foi especial, fruto de um trabalho coletivo fantástico. Tive sorte, acreditei que a bola podia cair ali e apareci. O dérbi entre Slovan e Trnava é histórico aqui, fantástico, com pirotecnia, coreografia. Seja em Trnava ou aqui em Bratislava, o jogo começa fora de campo. Os dérbis aqui são muito engraçados.

— Quando assinalou a conquista do título eslovaco admitiu que há três anos pensou em desistir… 

Vinha de uma realidade completamente diferente, de academias grandes e na primeira época no Chaves [2022/23] fui quatro vezes titular. Temos sempre a expectativa de que vamos sair dali e jogar e isso não aconteceu comigo. Psicologicamente foi difícil ter de treinar e não jogar. O ano seguinte foi muito difícil ao nível de resultados, descemos de divisão. Muitas críticas. Foi difícil lidar com isso, também tive alguns problemas pessoais. Estive perto de pensar em desistir, mas a minha família esteve comigo e ajudou-me nesse aspeto. Os meus empresários também não me deixaram faltar nada. Não posso esquecer-me daquilo que passei, marca. Hoje estou feliz e espero continuar a seguir o meu caminho e não ter de passar por esses momentos outra vez. Sei que muita gente no futebol passa por isso. Hoje em dia fala-se muito no aspeto mental e é muito importante.

— Há poucas semanas o Sudakov admitiu dificuldades semelhantes e as reações foram mistas...

As pessoas às vezes esquecem-se do nosso lado humano devido à quantia de dinheiro que ganhamos. Não critico, mas para rendermos o nosso máximo é importante estarmos bem mentalmente e felizes. Cada mais vezes acontecem mais casos no futebol em que a saúde mental não está bem e os jogadores não renderem o que os clubes perspetivam. O Sudakov é um grande talento, senão o Benfica não teria investido o dinheiro que investiu nele. Mesmo na minha altura, quando me estreei na equipa A, o mister Veríssimo apostou em mim devido à época que estava a fazer. Não estava preparado mentalmente para aquilo, mas aceitei e quando estás lá tens de fazer render a aposta que fizeram em ti. Mesmo não estando bem mentalmente ou fisicamente, tens de dar o máximo. Só tenho gratidão.

— Tem contrato até 2029. O futuro é no Slovan ou já olha para outros voos?

— Isso deixo com os meus empresários. Tenho contrato com o Slovan, eles sabem aquilo que pretendo. Estou feliz aqui. Pela minha vontade irei ficar aqui até 2029. Não sei o que o futuro reserva, mas estive perto de um dos sonhos: a Champions League. Quem sabe chegar ao top-5 das ligas europeias. Estamos a trabalhar para isso, tanto eu dentro de campo como os meus empresários fora. Para chegar lá tenho de trabalhar no clube em que estou e concretizar os objetivos coletivos que são os mais importantes. Primeiro o clube, depois as minhas ambições.

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