Alexis Guérin, o trepador «simples» que chegou ao topo da Volta a Portugal
Alexis Guérin é o vencedor da 87.ª Volta a Portugal, depois de uma corrida dominadora ao serviço da Anicolor-Campicarn, equipa que o francês, de 34 anos, fez questão de colocar no centro da conquista. A vitória foi construída com regularidade, disciplina e uma forte exibição nas montanhas. Depois de conquistar a camisola amarela na Torre, Guérin segurou-a de vez na Senhora da Graça, onde correu de camisola negra, em memória de Finlay Tarling, corredor britânico que morreu durante a oitava etapa, num acontecimento inédito na história da Volta a Portugal.
Guérin atribui, contudo, a vitória ao trabalho coletivo da Anicolor-Campicarn. O francês enalteceu o papel de Artem Nych, de Rúben Pereira, diretor desportivo, do trepador francês Louis Ferreira, que considera «o melhor trepador no ciclismo em Portugal», e dos restantes corredores e elementos do staff, que trabalharam «a 200%».
Um ano depois de ter sido segundo classificado na estreia na Volta, a 1.15 minutos do colega de equipa Artem Nych, vencedor das edições de 2024 e 2025, Guérin inverteu os papéis e terminou a prova com 1.02 minutos de vantagem sobre o russo, de 31 anos.
«Muitas pessoas julgavam que o Artem [Nych] ia correr para ele, mas o Artem também correu por mim. Os corredores e o staff trabalharam muito para mim. Não podemos ganhar quando uma equipa não trabalha como uma equipa. Não ganhei a Volta. A Anicolor-Campicarn ganhou a Volta», disse Alexis Guérin.
Antes de cada etapa, seguiu à risca um princípio simples: «comer bem e dormir bem». Nota negativa que identifica no desempenho individual aconteceu na etapa de Peso da Régua, onde perdeu tempo devido a um posicionamento atrasado: «o único erro» que cometeu, reconhece.
Do futebol ao ciclismo
«Sou uma pessoa simples. Gosto de passar tempo com a minha mulher, de comer bem, de me encontrar com amigos», apresentou-se o corredor que agora inscreve o nome na história da Volta a Portugal, citado pela Lusa.
Nascido em 6 de junho de 1992, em Libourne, a cerca de 35 quilómetros de Bordéus, Guérin sabe que aprendeu a andar de bicicleta entre os dois e os três anos, mas a porta de entrada para o ciclismo profissional só se abriu muitos anos depois, aos 17.
Até então, o futebol tinha sido o desporto que ocupava grande parte do tempo no clube da cidade natal. Como médio defensivo, distinguia-se pela resistência física, mas tinha a noção de que as capacidades lhe permitiriam, no máximo, disputar a quarta divisão francesa.
Uma lesão numa perna afastou-o temporariamente da bola e levou-o a utilizar a bicicleta como meio de recuperação. O contacto frequente com um amigo de infância que praticava ciclismo acabou por encaminhá-lo para uma modalidade na qual poderia explorar a resistência física.
Seis meses depois de começar a praticar ciclismo a sério, Guérin integrou a seleção francesa de juniores. Mais tarde, foi sub-23 na FDJ e na Etixx, formação que, em 2014, desenvolvia os jovens da Omega Pharma-Quick Step.
Chamada de Portugal
Sem conseguir vingar no WorldTour, conquistou a Volta à Alta Áustria, ao serviço da austríaca Vorarlberg, em 2021, e uma etapa na Semana Coppi e Bartali, em 2023, numa prestação em que impressionou. Foi depois de uma conversa telefónica com Rúben Pereira que Guérin decidiu rumar a Portugal. Encontrou no país «muito boas pessoas» e «um ambiente latino» de que gosta.
Guérin reside há nove anos em Pau, cidade francesa no sopé dos Pirenéus. Está habituado a treinar cerca de 20 horas por semana, mas faz questão de levar o filho à escola numa bicicleta equipada para dois lugares e aprecia especialmente o tempo passado com o filho e a filha, e a mulher, de nacionalidade portuguesa.
A escolha do ciclismo, explica, acabou por corresponder às características pessoais e desportivas: «O ciclismo era uma boa opção para as minhas características e para a minha cabeça. Tenho muito presente o sentido de equipa, mas também de trabalhar individualmente. O ciclismo precisa de uma equipa para ganhar, mas se não trabalhares e não estiveres forte não podes ganhar. Precisas de talento, mas também de uma equipa para poder ganhar».
Chocolate, vinho e descanso
Depois de uma Volta a Portugal em que terminou no topo, o plano imediato do francês passa pouco por bicicletas e muito por descanso, família e alguns prazeres que a competição normalmente limita. «Vou comer dois quilos de chocolate. Quero beber um bom vinho. Depois, espero descansar um pouco. Estarei com o meu filho e voltarei a Portugal na semana seguinte».
Questionado sobre se pretende continuar na Anicolor-Campicarn em 2027, responde sem rodeios: «Tem de falar com o Rúben [Pereira, diretor desportivo]».
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