O dia em que Jesus pôs fim ao Cristianismo
Antes de tudo, uma palavra: Obrigado, Cristiano! Obrigado por tudo.
Cristiano Ronaldo foi o melhor jogador da história do futebol português. Foi um dos melhores jogadores de sempre do futebol mundial. Foi um dos maiores atletas da história do desporto. Foi uma força competitiva extraordinária e uma das maiores histórias individuais de superação que Portugal alguma vez produziu.
E nós tivemos o privilégio de assistir a tudo isto.
Vimos nascer o rapaz magro e irrequieto da Madeira. Vimos o menino do Sporting transformar-se em jogador. Vimos Manchester, Madrid e Juventus. Vimos as Bolas de Ouro, os golos, os títulos, as lágrimas, as derrotas, as remontadas, os recordes e aquela capacidade quase absurda de fazer tantas vezes o impossível.
Vimos Cristiano Ronaldo tornar-se Cristiano Ronaldo. E vimos um português chegar ao topo do mundo num país onde, demasiadas vezes, a mediocridade parece ser apresentada como destino.
Nada do que está a acontecer agora pode apagar isso.
Mas há uma palavra que se tornou particularmente importante nos últimos dias: foi. Cristiano Ronaldo foi o melhor. Já não é. E a culpa não é dele, é da ditadura do tempo. Isto não é uma crítica. É a vida. É o futebol.
O problema começa quando se pretende que o passado continue a mandar no presente. Porque o passado é importante. É a memória, a identidade, a história. Mas não entra em campo.
Se Cristiano Ronaldo fosse norueguês, alguém imaginaria Haaland no banco apenas porque Ronaldo foi o melhor jogador do mundo? Se fosse francês, Mbappé teria de sair do onze porque Cristiano já esteve no topo? Se fosse inglês, Kane perderia a titularidade pelo mesmo motivo? Claro que não.
Então porque haveria de ser diferente por ser português?
A Seleção Nacional não é um museu. Não é um monumento a Cristiano Ronaldo. É uma equipa de futebol. E, numa equipa de futebol, joga quem o treinador entende que deve jogar. Foi isto que Jorge Jesus, e bem, decidiu lembrar a toda a gente, incluindo a Cristiano Ronaldo.
E é por isso que, neste momento, há que reconhecer a coragem do treinador.
Não porque todas as decisões de Jorge Jesus sejam, por definição, certas — isso só o campo pode demonstrar — mas porque há uma coisa essencial na sua postura: a tentativa de colocar sempre os interesses da equipa acima dos estatutos individuais.
O próprio Jesus explicou que deixou Cristiano Ronaldo aquecer "mais tempo do que devia" e que foi por isso que o jogador ficou zangado. Para quem conhece o treinador, isto parece uma tentativa pouco habitual de ser surpreendentemente humilde e de resolver o problema com o jogador a bem e com respeito.
Depois, em Copenhaga, veio a frase que incendiou o Cristianismo: «Na equipa mando eu.» E outra, igualmente óbvia: »As regras são iguais para todos.»
Ora aí está. Finalmente. Uma equipa onde manda o treinador. Que conceito revolucionário.
Jorge Jesus não acabou com Cristiano Ronaldo. Acabou com a ideia de que existe um jogador acima da equipa. Acabou com a ideia de que o passado pode garantir automaticamente o futuro. Acabou com a ideia de que o tamanho da lenda determina o tamanho do onze.
Não determina. E não deve determinar.
Cristiano Ronaldo foi demasiado grande para precisar disso. E é precisamente isto que mais me incomoda nesta história. Aquilo a que temos assistido nos últimos dias não é digno de uma lenda como Cristiano Ronaldo. Não é digno da sua carreira. Não é digno do capitão da Seleção Nacional. E, sobretudo, não é justo para ele próprio. Porque Cristiano Ronaldo construiu a sua carreira precisamente contra o privilégio. A sua grandeza nasceu do trabalho, da disciplina, da obsessão pela superação, da vontade de ser melhor e da recusa em aceitar limites. Aquele menino queria ganhar o lugar, não queria que lho dessem.
E talvez seja essa a ironia mais cruel de todas. A humildade de menino que foi transformada em força de trabalho, capacidade de superação e traço de caráter parece ter-se perdido pelo caminho, esmagada pela dimensão gigantesca da máquina CR7. A marca. O império. Os contratos. Os milhões. A exposição permanente. O personagem.
Tudo isso pode ter tornado mais difícil aceitar aquilo que todos os grandes atletas acabam por enfrentar: o tempo ganha sempre. Não há dinheiro que o compre, não há estatuto que o suspenda. não há Bola de Ouro que o atrase.
Cristiano Ronaldo não consegue comprar o elixir da eterna juventude. E ainda bem. Porque é isso que torna o desporto humano e fez dele um exemplo.
Cristiano Ronaldo foi o melhor de sempre. Já não é. E, dizer isto, não diminui Cristiano Ronaldo. Diminui-o, isso sim, tentar negar o óbvio.
Por isso, o que mais me custa nesta história não é o banco, a substituição ou a discussão sobre quem joga. É ver uma lenda transformar aquilo que deveria ser o capítulo final de uma carreira extraordinária numa discussão sobre autoridade, estatuto e poder.
Cristiano Ronaldo merecia sair pela porta grande. Ainda merece. Mas, sair pela porta grande, não significa necessariamente sair quando queremos.
Às vezes significa saber quando chegou o momento. E isso também é grandeza.
Pelé não deixou de ser Pelé quando deixou de jogar. Maradona não deixou de ser Maradona. Eusébio não deixou de ser Eusébio. Federer não deixou de ser Federer. Carlos Lopes e Rosa Mota não deixaram de ser quem foram.
O tempo não lhes retirou a grandeza. Retirou-lhes apenas o presente. Cristiano Ronaldo também merece essa distinção.
Por isso, este é o momento de lhe dizer obrigado. Um obrigado enorme, daqueles que não cabem numa camisola, numa estátua ou numa cerimónia. Obrigado pelos golos. Obrigado pelos títulos. Obrigado pelas lágrimas. Obrigado pelas noites impossíveis. Obrigado por ter levado Portugal ao topo. Obrigado por ter mostrado a milhões de crianças que o talento sem trabalho não chega. Obrigado por ter provado que um rapaz da Madeira podia chegar onde quase ninguém imaginava. Obrigado por tudo aquilo que foi.
Quanto ao presente, é tempo de estar com Jorge Jesus, com a equipa e com o staff técnico da Federação. Não contra Cristiano Ronaldo. Mas a favor da Seleção Nacional. Porque a Seleção tem de poder existir para além de qualquer jogador. E Jorge Jesus tem de poder ser treinador.
Quem fala em »traição» parece esquecer quem é Jorge Jesus. O treinador tentou explicar, em Oslo, aquilo que tinha acontecido e reconheceu que deixara Cristiano Ronaldo a aquecer mais tempo do que devia. Isso não é uma declaração de guerra. É uma tentativa de resolver o problema. Depois, em Copenhaga, foi claro: na equipa manda o treinador e as regras são iguais para todos. É assim que funciona uma equipa.
Quem não aceita isto, por maior que seja o seu estatuto, não percebe o que é uma hierarquia. E, muito menos, o que significa ser capitão da Seleção Nacional.
Desportivamente, Portugal já mostrou, frente à Noruega, que consegue ganhar sem Cristiano Ronaldo no onze.
Mas ninguém se iluda. Daqui para a frente, os resultados vão contar mais do que nunca.
Cada vitória será usada para justificar Jesus. Cada derrota voltará a trazer Cristiano Ronaldo para o centro da discussão. Cada golo de um avançado será comparado com os golos de CR7. Cada jogo menos conseguido levantará a pergunta inevitável: «E se Cristiano estivesse em campo?»
É uma armadilha, tão injusta quanto seria responsabilizarmos Cristiano Ronaldo por, sob a sua liderança, Portugal nunca ter sido Campeão do Mundo. E é por isso que a equipa tem de jogar futebol e Cristiano Ronaldo tem de decidir, com serenidade, como quer escrever os últimos capítulos da sua história.
Porque ainda pode escolher. Pode sair como uma lenda. Pode permitir que o seu último grande legado seja também uma lição: até os melhores têm de aceitar que o tempo passa.
Cristiano Ronaldo foi o melhor de sempre. E isso ninguém lhe tira.
Foi um privilégio vê-lo nascer, crescer e conquistar o mundo. Foi um privilégio ser português enquanto ele vestia a camisola das quinas. Foi um privilégio testemunhar uma carreira que dificilmente voltaremos a ver.
Obrigado, Cristiano, mas agora deixa a Seleção jogar. Deixa Jorge Jesus ser treinador. Deixa os outros jogadores crescerem. E deixa que a tua vida seja aquilo que merece ser: uma história extraordinária, não uma guerra pelo direito a continuar a ser aquilo que já foste.
Porque o futebol não é uma cerimónia de homenagem. É um jogo. E o jogo seguinte nunca se joga ontem.
Talvez tenha sido o dia em que Jesus percebeu isto, que pôs fim ao Cristianismo.
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