«Ainda tenho feridas no joelho»: Trubin recorda golo épico ao Real e não só
Anatoliy Trubin marcou um golo decisivo aos 98 minutos no último jogo da fase de liga da UEFA Champions League contra o Real Madrid (4-2), o que permitiu ao Benfica passar à próxima fase no último lugar, um momento que, mesmo com o passar do tempo, ainda lhe parece surreal. «Desde que comecei a jogar futebol, aos seis anos, trabalhei arduamente e fiz de tudo para evitar golos. Agora, depois de um momento, muitas pessoas conhecem-me porque marquei um golo», confessou o guardião ucraniano em entrevista ao The Athletic.
«Ainda é uma loucura para mim», admite Trubin. «Às vezes, ainda não consigo acreditar que aconteceu. Hoje, depois do treino, um adepto parou-me para uma fotografia e disse: 'Bom golo'. Isso nunca me tinha acontecido antes. É uma loucura. Aquele momento estará sempre comigo», garantiu, explicando o momento anterior em que estava a perder tempo. «Estávamos a ganhar, por isso não precisava de ter pressa. Não percebi de todo porque é que os adeptos começaram a gritar, porque é que alguns dos meus colegas de equipa me apontavam e diziam 'um, um, um'. Não entendi. Mas quando tivemos o livre, Mourinho apontou para eu subir, e então perguntei a alguém: 'Precisamos de mais um golo?'»
Durante os breves segundos em que se preparava para o cruzamento, Trubin deixou de ser guarda-redes. «Quando se joga, não se pensa. Apenas se faz. Aquele momento aconteceu tão depressa. Talvez por o cruzamento ter sido tão perfeito, talvez por ter de acontecer, para mim foi natural, algo que surgiu facilmente», explicou. «Neste momento, é preciso arriscar. É preciso apostar tudo. Se preciso de marcar, tenho de ir lá para dentro, para fazer os nossos adeptos felizes, para tornar o Benfica melhor. Apenas corri, e depois o movimento da minha cabeça, foi como se fosse um avançado. Foi uma loucura», concluiu o herói improvável daquela noite.
O golo de Trubin contra o Real Madrid não só salvou a época do Benfica, como também o catapultou para um momento de pura emoção, culminando num festejo de joelhos no relvado. O guarda-redes ucraniano recorda o momento em que se libertou dos colegas para celebrar sozinho, um ato invulgar para alguém que se considera pouco emotivo. «Ainda tenho algumas feridas no joelho», confessa. «Depois, todos os meus colegas de equipa saltaram para cima de mim». Ao descrever o momento, admite: «É algo... não sei. Primeiro, comecei a correr. Tenho de verificar o meu GPS. Normalmente não sou uma pessoa emotiva, mas naquele momento deixei sair todas as minhas emoções. O meu treinador de guarda-redes disse-me para me manter focado, porque não sabíamos se o jogo tinha acabado», revelou.
O apito final soou logo a seguir, e o momento foi selado por um gesto de desportivismo de Thibaut Courtois, que se aproximou de Trubin com um sorriso para o felicitar. Este ato marcou profundamente o guardião do Benfica. «Respeito muito todos os guarda-redes, especialmente o Courtois, mas depois daquele momento, para mim ele tornou-se ainda mais especial. Depois de uma derrota difícil, ele veio ter comigo com um sorriso para me dar os parabéns. Mostrou-me que não é apenas um dos melhores dentro de campo, mas também fora dele. É um bom exemplo para a geração mais jovem», atirou.
«Mourinho não mudou nada com a idade»
Agora, nos play-offs, o destino ditou um reencontro com o Real Madrid. «Era o Inter ou o Real. Para mim, é indiferente quem defrontamos, mas por ser o Real, será mais emotivo por causa daquele último jogo. Mais tenso, mais interessante para todos. Temos de acreditar em nós, sem dúvida. Sem crença, podemos ficar em casa sem fazer nada», afirmou Trubin.
Sobre José Mourinho, que chegou em setembro, Trubin só tem elogios, apesar das dificuldades iniciais. «Quando se olha para ele, ele é assim, sempre. É a sua postura natural. Nada mudou com a idade. Apenas ganhou mais experiência. É único trabalhar com um treinador tão incrível. O que aprendi com ele foi sobre os seus pensamentos positivos: se tivermos uma oportunidade, não está acabado. Se é possível, é possível», explicou.
Trubin chegou ao Benfica em 2023, vindo do Shakhtar Donetsk, e desde então não pôde regressar à Ucrânia. O guarda-redes dedicou o seu golo ao país, invadido pela Rússia há quase quatro anos, mas a sua dor pessoal começou muito antes. Nascido e criado em Donetsk, juntou-se ao Shakhtar aos 13 anos, em 2014, ano em que separatistas pró-russos tomaram controlo de partes da região de Donbas, forçando o clube a mudar-se para Lviv. Trubin nunca jogou uma partida oficial na sua cidade natal, mas mantém a esperança.
«É o meu sonho. Espero que sim. Tenho pensamentos positivos. Mas, como vemos agora, é muito difícil. Espero que durante a minha vida, na minha carreira de futebolista, possa jogar, ou talvez assistir a um jogo em Donetsk». Na sua casa em Lisboa, um poster da Donbas Arena, o estádio agora abandonado do Shakhtar, serve de lembrança: «É para recordar que Donetsk foi, é e será para sempre Ucrânia.»
A situação da sua família na Ucrânia é uma preocupação constante. «Estou sempre em contacto com a minha família. Ficam 17, 18 horas sem eletricidade. Por vezes há bombas, drones, mas nunca sabemos. Às vezes está tudo bem, outras não. Não sei o que dizer sobre estarem seguros.» Trubin sente a responsabilidade de manter a atenção do mundo sobre o conflito. «Compreendo que as pessoas não possam falar o tempo todo sobre a Ucrânia. Têm os seus próprios problemas. Mas, claro, como ucraniano, tenho de lembrar ao mundo que a guerra não acabou», disse.
Em março, o futebol volta a ser um foco de esperança com o play-off de apuramento para o Mundial, em que a Ucrânia terá de vencer a Suécia e depois o vencedor do jogo entre a Polónia e a Albânia. A qualificação, a primeira desde 2006, teria um significado imenso para o país. «É um momento único para nós, também por causa da guerra. É um momento enorme não só para o futebol na Ucrânia, mas para todo o país», finalizou.