'Djobi, djoba', na Guarda não há quem pare Camará: a história do guineense com mais golos que jogos
«Djobi, djoba, Jovane Camará». É ao ritmo dos Gypsy Kings que os adeptos do Guarda FC cantam pelo nome do seu melhor marcador esta época e é num ritmo igualmente acelerado que o avançado guineense tem feito golos em 2025/2026. São já 20 golos em 15 jogos para Jovane Camará, um registo que tem ajudado o conjunto egitaniense a manter a liderança da 1.ª Divisão Distrital da Guarda, com 44 pontos, mais dois que o Ginásio Figueirense, e a sonhar com um regresso ao Campeonato de Portugal.
Aos 22 anos, o avançado vive o momento mais prolífero da carreira. Depois de uma época condicionada por problemas físicos, o avançado do Guarda encontrou nesta temporada a melhor versão de si próprio, assumindo-se como a principal referência ofensiva da equipa. Mais focado, mais disciplinado e em plena forma física, o guineense transformou o trabalho invisível da pré-época num rendimento que salta à vista dentro das quatro linhas.
O próprio reconhece que esta explosão goleadora não surge por acaso. «O que mudou foi a minha mentalidade e o foco», admite, sublinhando também a importância do contexto em que se insere. O apoio da equipa técnica e dos companheiros tem sido determinante para um jogador que admite, sem rodeios, que, no início da temporada, não esperava atingir números tão expressivos. «Quando tudo isso está alinhado, o rendimento acaba por aparecer», resume.
Do 8 ao 80
A época passada ficou marcada por um cenário bem diferente. Uma lesão sofrida logo no início da temporada 2024/2025 nunca ficou totalmente resolvida e obrigou o avançado a competir limitado, entre dores constantes e tratamentos prolongados, castrando a melhor versão do jovem jogador. «Durante os treinos e os jogos sentia muita dor, mas tentava sempre dar o máximo», recorda o jogador guineense, admitindo que esse condicionamento acabou por travar a sua evolução na temporada em questão e impedir que explorasse todo o seu potencial. Um aspeto frustrante da ainda curta carreira do jogador, cuja frustração se adensou num ano em que o clube ainda disputava o Campeonato de Portugal.
Mas as dificuldades sentidas numa temporada foram a gasolina do bom rendimento na seguinte. O ponto de viragem começou ainda antes do arranque oficial da temporada. Determinado a deixar para trás os problemas físicos no passado, Jovane Camará apostou numa preparação mais rigorosa. «Este ano tentei melhorar bastante nesse aspeto, com mais foco na alimentação, nos treinos e nos tratamentos», explica.
Com tanto de determinado como de humilde, Jovane não esquece o acompanhamento do clube em todo o processo. Desde a pré-época, o trabalho individualizado com o fisioterapeuta e o enfermeiro permitiu-lhe recuperar confiança e estabilidade. «Sinto-me muito melhor fisicamente e sinto que consigo aproveitar ao máximo o meu potencial», assume. A disciplina pessoal fez o resto. Mais focado, mais criterioso fora das quatro linhas, o guineense transformou consistência física em eficácia dentro da área.
O crescimento individual acompanha também a estabilidade coletiva. A saúde do balneário guardense é apontada como uma das razões da campanha que mantém o clube na liderança da 1.ª Divisão Distrital da Guarda. «Temos um bom ambiente no grupo, bons companheiros e um bom balneário. Estou confiante de que vamos voltar ao Campeonato de Portugal», afirma, assumindo sem rodeios a ambição da subida.
Da Guiné à Guarda, com escala em Espanha
O percurso de Jovane até à Guarda começou bem longe das muralhas egitanienses. Natural da Guiné-Bissau, deu os primeiros passos no futebol na Academia Vitalaise, onde começou o caminho para a profissionalização. «Sempre foi o meu maior sonho», recorda, sublinhando que desde cedo apontou a Europa como objetivo.
A oportunidade surgiu através de um torneio de observação realizado no seu país, que lhe abriu as portas do futebol espanhol. «Fui escolhido num torneio de oportunidades que alguns empresários espanhóis realizaram na Guiné-Bissau. Foi aí que fui observado», explica. O destino inicial foi o Leganés, onde realizou a pré-época antes de ser cedido ao Cartagena, numa etapa curta, mas determinante no processo de adaptação ao futebol europeu.
Portugal surgiria pouco depois como novo desafio. A chegada à Guarda marcou a primeira experiência no país e também o início de uma ligação que se viria a tornar determinante na sua carreira. «A cidade, o clube e a massa associativa têm-me tratado muito bem. Só tenho de agradecer», afirma o avançado.
Apesar da diferença de temperaturas entre Bissau e o interior de Portugal, o apetite goleador não resfriou. Com 20 golos já apontados e uma média superior a um golo por jogo, a fasquia começa inevitavelmente a subir. A possibilidade de atingir a marca dos 40 paira como hipótese real, mas o discurso mantém-se alinhado com a postura adotada desde o início do percurso. «Estou confiante e vou continuar a trabalhar», garante, preferindo deixar que seja o campo — e talvez novamente a música — a falar por si.