«Quando era jovem disse para mim que um dia queria ser como José Mourinho»

Francisco Zuela nasceu em Angola e aos quatro anos mudou-se com a família para a região de Leiria. Fez a formação na União de Leiria e trabalhou com... José Mourinho. O impacto dura até hoje. Emigrou, andou por Rússia, Chipre e, essencialmente, Grécia. Foi internacional angolano. Aos 32 anos deixou de jogar para se dedicar à gestão. Em já uma grande empresa, a Stars OF The Future, e muitos planos na cabeça... Nada acontece por acaso... 

- O que é a Stars of The Future? 

- Uma empresa que tem cerca de seis dezenas de colaboradores e funciona há dez anos... Hoje sou gestor, promotor de projetos de desenvolvimento, projetos de educação e projeção de talentos. Ajudo clubes a crescerem a nível internacional, assumindo-me como consultor. Ajudo também na expansão da marca e na área comercial. E estamos a gerir academias em Portugal, Grécia e Chipre. Ajudamos também na prospeção de jovens talentos e damos formação e acompanhamento aos atletas e famílias.

- Que tipo de acompanhamento? 

- Acompanhar na gestão de um sonho. Indicando caminhos, alertando para a realidade, esclarecendo como será o caminho. E ajudando em todas essas etapas, sabendo que nem todos cegarão onde querem. Aos pais falamos da gestão de expetativas e emoções. E em tudo o que está por trás.  

- A transição da carreira de jogador para a de gestor aconteceu cedo (32 anos) e foi planeada. Por que razão? 

- Tocaste no ponto. Passei anos a preparar-me, ainda como jogador. Estudei muito. Fiz muitas perguntas sobre tudo o que envolve a carreira de jogador e, agora, gestor.  E juntei a experiência de anos como profissional em diversos países. Por isso, o Sporting quis que levasse as academias para a Grécia, já que, por falar grego e ter lá jogado muitos anos, falou grego com os gregos. O contrato foram 3 anos, entendi seguir outro rumo, o Sporting não deu seguimento porque só o queria fazer comigo. Entretanto surgiu o Benfica e a internacionalização das escolas de formação. E tenho clientes e diversas partes do mundo. A nossa missão é ajudar cada cliente a encontrar o seu caminho porque não só não somos todos iguais como não vivemos as mesmas coisas. O que é bom para um pode não ser bom para outro. 

 

Aprender com o 'Special One'

- Como jogador fizeste a formação no União de Leiria. No último ano de júnior foste muitas vezes chamado para treinar com os seniores de... José Mourinho. Como foi ser treinado pelo que viria a ser o special one? 

- Tenho um carinho, um respeito e uma admiração enorme por José Mourinho. Considero que ele foi o meu mentor em tudo o que acabou por ser a gestão de carreira e até de vida. Era jovem, olhei para ele e disse para mim mesmo: tenho de ser como o José Mourinho. Tenho de ser instruído, educado, saber comunicar, saber fazer, ter qualidade e critério em tudo o que faço. Queria mesmo ser como ele. Mais tarde, voltei a estar com José Mourinho quando ele me abriu as portas do Chelsea para eu aprender como se gere um clube daquela dimensão e nível de profissionalismo. Voltado aos tempos de Leiria, os mais velhos brincavam e diziam que eu era protegido de Mourinho. Percebo, ele acarinhava-me muito e via em mim inteligência e maturidade.  às vezes levava-me à escola ou a almoçar para falar comigo. E sempre me explicou muito bem porque não podia ser ainda titular e o que tinha de fazer para lá chegar... 

- Mas Mourinho nem acaba a época, vai para o FC Porto... 

- E deixou em Leiria a semente e foi um deleite ver o percurso e trabalho que fez no FC Porto, com dois títulos europeus. Nada foi feito por acaso. Tudo foi preparado. Ele preparou uma estrutura e preparou os jogadores. E criou um percurso. É como na escola. É um treinador diferente. Não que os outros não sejam bons, não que Mourinho seja mais inteligente do que todos, mas ele vê coisas que os outros não veem. Tem uma experiência de vida e de clubes que outros não têm. Ele conhece bem a natureza das pessoas e isso é vital. Se ele tiver tempo, é o que vai acontecer no Benfica. Ele tem o projeto toda na cabeça. Precisa só que o seguiam e acreditem no processo. 

Dizer sim a Angola e não a Roberto Martínez
Há outro treinador português que marcou a carreira de Francisco Zuela: Manuel José. Em 2010, estava na Rússia e recebeu uma chamada do então selecionador de Angola. «Manuel José queria que eu aceitasse jogar por Angola. O CAN de 2010 estava à porta e Angola era o organizador. Mas eu nem tinha feito jogos de preparação, era novo, porque me queria? Disse-me que pela minha experiência e o que soube da personalidade. Que Angola precisava de mim». Zuela estava na Rússia a negociar uma transferência para o Wolverhampton de Roberto Martínez... «Se fosse ao CAN, em janeiro, já sabia que cairiam as negociações com os ingleses... Mas Manuel José falou ao coração, que Angola precisava de mim, como dizer não? Nunca perdi as minhas raízes», comenta Zuela. Que não mais esquece a estreia, no CAN. Angola ganhava a um grande Mali por 4-0 ao minuto 82 e... empatou 4-4 aos 90! «Esse é o jogo que melhor me lembro. E um início de percurso que muito me honrou nos Palancas», concluiu.

Apostar no talento angolano

- Ajudar Angola, onde nasceste, faz parte do teu projeto de vida? 

- Faz e já está a acontecer. Via Federação e ministério dos Desportos de Angola. Fui companheiro na seleção e no Santa Clara de Kali, vice-da federação para aas seleções, espero ajudar também Alves Simões, o presidente.

- O que está por fazer em Angola? 

-  Um enorme trabalho de base. Que seja bem feito. E que faça sentido para Angola, não uma mera cópia de outros modelos. De que vale a pena ir ao Barcelona contratar um treinador? Mas ele conhece Angola? Conhece a noss amaneira de ser e pensar? Em Angola até há capacidade financeira, tem é de haver critério e uso eficaz desses recursos. Estamos a começar na raiz, a ajudar a reestruturar os clubes. E estamos também a ajudar na internacionalização, a ajudar os talentos angolanos a serem apetecíveis em mercados mais competitivos, naturalmente europeus. O talento está em todo lado, mas poucos estão treinados para potenciar o talento que têm. Nada na vida é sorte. É trabalho. Mas um trabalho direcionado e eficaz. Com esse trabalho, Portugal é o palco ideal para grandes talentos angolanos iniciarem uma carreira internacional de sucesso.