As origens, os destinos e as idades: os números das transferências do futebol português
Bola Liga Portugal (IMAGO)

As origens, os destinos e as idades: os números das transferências do futebol português

NACIONAL29.12.202309:00

Estatísticas do Portugal Football Observatory revelam os dados das chegadas e saídas de jogadores no futebol nacional

Entre 2020 e 2023, o Portugal Football Observatory, organismo que analisa os dados do futebol nacional, olhou para todas as transferências dos clubes portugueses. O estudo utilizou também números da FIFA, que mostram que, em 2022, Portugal foi o país que mais jogadores profissionais recebeu. O maior fluxo de transferências nesse ano foi entre os clubes nacionais e o Brasil.

Os números demonstram que, ao longo destes três anos, os jogadores que entraram nas competições portuguesas são mais novos do que os que saíram. A média de idades das entradas ronda os 22 anos e a das saídas os 24, ou seja, Portugal continua a ser um país que desenvolve talentos. Destaca-se ainda, no mundo amador, uma grande quebra durante a época 2020/21, muito devido à pandemia de COVID-19, algo que não se verificou em contexto profissional.

Os números em análise

Ao todo, nestas últimas três épocas, houve 115.113 transferências de atletas, segundo o estudo «Que jogadores entram e saem do futebol nacional? - Caracterização do mercado de transferências em Portugal», divulgado esta sexta-feira.

A esmagadora maioria das trocas efetuadas neste espaço de tempo foi em Portugal e no futebol não profissional. 94% das transferências foram entre clubes portugueses, um valor que sobe em três pontos se se considerar apenas atletas maiores de 16 anos. Ainda assim, há que notar que, no que toca ao futebol profissional, apenas 36% das transações de jogadores são entre equipas nacionais. Estes números não influenciam muito o valor total porque as transferências profissionais representam 5% do valor global - apenas 6.269.

As transferências dentro do mercado português

As 2.268 transferências profissionais entre clubes portugueses estão divididas em dois grupos: 71% foram definitivas, 29% por empréstimo.

A distribuição de jogadores transferidos e emprestados ao longo das três épocas passadas

A diferença ao longo das três temporadas consideradas não é muita, algo que se revela totalmente diferente quando olhamos para o futebol amador. Em 2020/21, os valores são muito inferiores aos das épocas seguintes e a diferença acentua-se ainda mais quando se fala do futebol jovem: entre jovens com menos de 16 anos, houve 9.051 nessa época, 16.741 na seguinte e 17.128 em 2022/23. 

Estes valores têm uma «culpada»: a pandemia de COVID-19. Se, por um lado, as competições profissionais conseguiram construir estruturas para que a competição continuasse, o mesmo não pode ser dito das provas amadoras que, por várias ocasiões, chegaram até a ser até canceladas. 

Transferências entre clubes portugueses

Das 2.630 trocas de jogadores entre equipas que, nestas três épocas, participaram nos escalões nacionais, quase metade foram atletas que entraram no Campeonato de Portugal: os 1266 jogadores representam 48% do valor total. Fica também mais uma estatística: na primeira e segunda Ligas, saem mais jogadores que entram, na Liga 3 e no Campeonato de Portugal acontece o oposto.

De\ParaLiga Portugal BetclicLiga Portugal SABSEGLiga 3Campeonato de PortugalTotal de Saídas
Liga Portugal Betclic18819786131602
Liga Portugal SABSEG63150140163516
Liga 32468164267523
Campeonato de Portugal2742215705989
Total de Entradas3024576051.266Total: 2.630

As movimentações entre Portugal e lá fora

Transferiram-se 3.648 jogadores para Portugal e saíram 3.660 do país. A entrada de jogadores de forma definitiva tem vindo a aumentar, quer a nível profissional, quer a nível amador. Tal como notado anteriormente, é neste segundo que se nota uma diferença maior entre 2020/21 e os restantes anos: os 231 jogadores que vieram do estrangeiro durante essa época são menos de metade que os 521 do ano seguinte e quase um terço dos 607 de 2022/23. No futebol profissional, o valor também tem aumentado, de forma menos acentuada, mas significativa. 

Os números da entrada de jogadores, profissionais ou amadores, assim como os empréstimos

Este gráfico também permite entender que o número de empréstimos continua parecido, sobretudo quando comparado com os aumentos significativos de transferências no pós-COVID.

Segundo dados da FIFA, em 2022, Portugal não foi só o país que mais jogadores profissionais recebeu, mas o fluxo de transferências com o Brasil foi, também, o que teve mais movimento. 

Nas três épocas analisadas, o país sul-americano foi aquele que mais se destacou, quer na entrada, quer na saída de atletas profissionais. 39,3% das entradas permanentes em Portugal vieram diretamente de lá, bem como 43,3% dos emprestados. Estes valores contribuem muito para que quase metade dos futebolistas que chegaram às ligas nacionais profissionais venham da zona tutelada pela CONMEBOL, confederação da América do Sul. Também nas saídas se estima que 1 em cada 4 jogadores profissionais se dirija ao Brasil mas, aqui, os valores trocam: as ligas da UEFA representam 49% dos recetores de atletas transferidos. 

Os jogadores de nacionalidade brasileira são, de resto, os que fazem mexer mais estes números: 45% de todas as transferências definitivas e 43% dos atletas emprestados que chegam aos campeonatos nacionais são brasileiros. No futebol amador, esse número cai para 14%. Mais de metade dos jogadores que saíram do futebol português neste período eram portugueses ou brasileiros, diz o estudo.

Movimentação de futebolistas profissionais EntradasSaídas
UEFA32% - 72249% -  873
CONMEBOL49% - 1.12230% - 524

No que toca à entrada de profissionais, cerca de metade dos atletas vem da América do Sul e um terço chega da Europa. Quanto a saídas, os valores são, sensivelmente, inversos...

Idade dos atletas

As idades médias dos jogadores que entram nos campeonatos portugueses é inferior à dos que saem.

 Média de idade de entradaMédia de idade de saída
Transferência Profissional22,1 anos 24,4 anos
Transferência Amadora20,4 anos23 anos
Empréstimo21,5 anos23,8 anos

Neste caso, pode concluir-se que as competições portuguesas continuam a ser uma base de desenvolvimento para campeonatos exteriores. 

Que competições contratam e vendem mais?

Das quatro competições analisadas, a Liga Portugal Betclic é, destacadamente, a que mais se movimenta no mercado. Metade dos atletas contratados por empréstimo vão para equipas da primeira divisão, um valor que alcança os 53% quando se fala de saídas. Nas transferências em definitivo, os valores de entrada e saída rondam os 38 e os 42%, respetivamente. Destaca-se o Campeonato de Portugal como aquele com a maior diferença entre transferências e empréstimos: por cada jogador contratado temporariamente, dois ficam nos clubes de forma definitiva.

As contas dos portugueses

Para Portugal, voltam muitos atletas portugueses. É da Europa que chegam mais jogadores lusos, de países como Espanha, Inglaterra, França, Suíça ou Luxemburgo (estes três últimos são, como referido anteriormente, muito procurados por atletas amadores). A partir dos 25 anos, os sítos de onde regressam os jogadores alteram-se um pouco, com Chipre, Grécia, Roménia e Polónia a entrarem nas contas. 

Também nos destinos há alterações ao longo do tempo. Os mais novos foram mais para Espanha, Inglaterra, Itália e Alemanha, os mais velhos seguiram para Roménia, Grécia, Arábia Saudita e Turquia. Falta apenas uma menção curiosa: Chipre foi, para os atletas até aos 24 anos, o segundo destino mais escolhido, apenas atrás de Espanha. A partir dos 25, tornou-se o país para onde foram mais jogadores portugueses profissionais e, no total, as terras cipriotas foram o maior recetor de atletas lusos.

O mundo amador

Em termos amadores, altera-se um pouco o panorama. É no futebol amador que os jogadores entram e saem mais jovens: mais de metade dos atletas não profissionais que chega a Portugal tem menos de 20 anos e 24% tem essa idade quando sai, comparado com os 8% que sai quer em transferência profissional, quer por empréstimo. Em termos de sítios favoritos de partida e chegada, os países da UEFA são «donos e senhores» da liderança. Dos 1.359 jogadores que chegaram, 854 vieram da Europa, um valor de 63%. De entre aqueles que saíram, este número é ainda mais diferenciado: 87% dos atletas sai para o Velho Continente. O estudo do Observatório destaca França, Suíça e Luxemburgo como principais recetores de atletas vindos de Portugal, que considera «destinos conhecidos como atrativos para emigrantes portugueses.»