Varandas - uma entrevista corajosa
A recente entrevista de Frederico Varandas, presidente do Sporting, apesar dos óbvios condicionalismos de ter sido dada ao canal televisivo do clube, é uma entrevista que merece ser ouvida, lida e analisada pela importância e, até, pela invulgaridade do seu conteúdo.
Não é habitual um presidente sair de uma época de desastre desportivo e anunciar, com convicção e frontalidade, a continuidade da sua política desportiva e a continuidade dos seus protagonistas.
Procuro colocar-me na pele de um qualquer fervoroso adepto sportinguista, mas não consigo ter a certeza de qual o seu sentimento. Terá admitido como razoável a decisão e, mais do que isso, a argumentação dessa decisão, tomada pelo presidente do clube?
Varandas não é um presidente carismático. Não é um defeito, é uma constatação, e que resulta da sua personalidade pouco empática, aliás, nos antípodas do populismo que, hoje, faz escola numa sociedade superficial e vazia, que até nos discursos gosta de fogo de artifício e de lantejoulas. Para muitos, é algo de inconveniente num presidente de clube, que precisa de mobilizar as massas. Mas talvez seja, precisamente, por Varandas não pretender agradar a ninguém que se dá ao luxo de decidir contra a maré dos tempos.
Julgo que manter Rúben Amorim é uma decisão, mais do que pacífica, aplaudida pela grande maioria dos adeptos leoninos. O problema coloca-se ao nível da política desportiva, que nem sequer é definida e muito menos óbvia. E isto porque a ideia de que o Sporting é um clube que, no futebol profissional, procura ter por base a formação é uma legenda que não se aplica à fotografia. Que apostas na formação, sérias, conclusivas e persistentes teve, na época passada, o Sporting? Algumas experiências tímidas, muitas por pura necessidade, provocadas por défice de jogadores no plantel, mas que nem se afirmaram, nem tiveram tempo, paciência e vontade para se poderem afirmar.
Portanto, quando Varandas anuncia uma política de continuidade e uma total rejeição de qualquer mudança, que, ele próprio, qualifica de revolução, está a anunciar que, com ele, em equipa que perde não se mexe. A muitos, tal ideia poderá parecer injustificável, a qualquer título. Porém, Varandas argumenta, de uma forma hábil, que o desastre desportivo do Sporting, na última época, se ficou a dever a razões meramente circunstanciais. Em momentos decisivos, a equipa poderia ter ganho jogos que não ganhou por detalhes e nos chamados jogos grandes, incluindo aqueles com grandes da Europa, o que se viu foi um Sporting à altura de uma dimensão de Champions, algo que nunca seria possível se aquela equipa não fosse, de facto, valiosa. Por isso, a mantém, dando como situação excecional, a mais do que provável saída de Ugarte.
É neste ponto que os sportinguistas não deixarão de parar para pensar e admitir que, sim, esses jogos de que o presidente fala foram, realmente, de grande qualidade e a todos deixaram orgulhosos. Tal como não lhes irá passar ao lado a superioridade de caráter de Frederico Varandas, quando afirma que o Benfica mereceu ser campeão e que o Sporting não teve uma classificação medíocre por causa dos árbitros, embora também não deixe de marcar a sua posição firme como rival crítico.
Por tudo isto, não se trata de uma entrevista expectável de quem se esperava, afinal, a explicação de males e a correção na linha do bem. Mais: temos de admitir que é uma entrevista corajosa e personalizada. Uma entrevista dada por um Presidente moderno e no qual não há o mais pequeno cheiro a bafio do futebol de outros tempos.
DENTRO DA ÁREA
As denúncias de Evangelista
Importante e, ao mesmo tempo, preocupante, a entrevista que Joaquim Evangelista, presidente do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol, concedeu ao jornal A BOLA. A forma frontal, direta e sem desvios jurídicos do essencial do problema de tráfico de jovens, como Evangelista se referiu a um negócio deplorável e não raras vezes criminoso, é um documento essencial para se compreender a grave dimensão de um problema que vai muito para além do caso que agitou o país e levou à demissão do presidente da Assembleia Geral da Liga.
FORA DA ÁREA
Por cá, o futebol vai mudando...
A Assembleia da República aprovou, sem votos contra, apenas com as abstenções do PCP e do Livre, o novo Regime Jurídico das Sociedades Desportivas. Caso seja promulgado pelo Presidente da República, avançará uma nova lei que substitui a anterior e que há muito se revelava inadequada e ultrapassada até pelo sucessivo aumento de conflitos insanáveis gerados no futebol profissional português e que provocavam natural desconfiança em investidores nacionais e estrangeiros. Lentamente, por cá, também o futebol vai mudando.