Lance muito polémico dentro da área do Famalicão está entre as queixas do Benfica. Foto Estela Silva/LUSA
Lance muito polémico dentro da área do Famalicão está entre as queixas do Benfica. Foto Estela Silva/LUSA

Um empate que sobreviveu ao jogo e ao prolongamento (crónica)

Um jogo que teve de tudo: um grande Benfica durante uma hora (0-2 e um penálti por assinalar), uma expulsão de Otamendi (justa) que ressuscitou o Famalicão — belíssima equipa — e um tempo extra que só não foi exagerado porque foi exageradíssimo. Espetáculo emocionante, que ainda seria melhor se os protagonistas só fossem os jogadores…

Cinco momentos, facilmente situáveis no tempo, marcaram a história deste jogo em que o Benfica começou bem e acabou a pedir o apito final.

O primeiro aconteceu aos 32 minutos, quando o Benfica já ganhava por 0-2: Aursnes abriu, de forma excelente, na esquerda, em Schjelderup, que dominou com perfeição, ganhou a linha, entrou na grande área e cruzou de pé esquerdo, com a bola a ser travada pela mão direita de Rodrigo Pinheiro, que tinha o braço bem aberto. Face ao critério vigente, aplicado aqui e no estrangeiro, penálti claro que o árbitro começou por não ver e o VAR aos costumes disse nada.

O segundo foi a expulsão de Otamendi (55 minutos), que viu o VAR (e bem) transformar o cartão amarelo que o árbitro lhe tinha mostrado em vermelho.

O terceiro foi o momento em que o quarto árbitro (que tinha sido assistente e fora substituído por lesão), levantou a placa sinalizando 15 minutos de compensação. Sabia-se que a compensação seria longa, mas um quarto de hora de tempo extra, nem no campeonato da Arábia Saudita. 

O quarto consistiu num remate belíssimo, de Rodrigo Pinheiro (aos 90+10), que fez abanar a baliza de Trubin (a bola bateu-lhe nas pernas e acabou por sair pela linha de fundo.)

O quinto foi o cartão amarelo mostrado a Richard Ríos (90+12), por uma questão de lana caprina a que o árbitro não tinha dado importância até àquele momento, que tirou o colombiano do jogo com o SC Braga. Nos finais de temporada há quase sempre jogos destes, que não beneficiam em nada, mesmo que bem jogados, a imagem do futebol e adjacentes. Este foi um desses…

Enorme Benfica

Contra um Famalicão que não está nos lugares de luta à Europa por acaso, o Benfica entrou de forma imperial, com pressão alta e uma grande qualidade de passe, e podia ter resolvido o jogo, porque, além dos dois golos, teve outras duas oportunidades soberanas (por Ivanovic), além do lance que deveria ter dado grande penalidade. José Mourinho optou por lançar uma equipa defensivamente muito agressiva — Ivanovic em ponta, Prestianni e Schjelderup na pressão aos laterais nas saídas de bola e Aursnes, Barreiro e Ríos a manterem os setores juntos, sem deixar respirar o Famalicão — que mandou nas operações até à expulsão de Otamendi.

Foi um tempo em que só deu Benfica, estando mais perto de cair o 0-3 do que o 1-2 quando o argentino, via VAR, viu (bem) o vermelho direto. José Mourinho, sem central de raiz no banco, prescindiu de Prestianni, colocou Barrenechea como defesa central e mandou recuar as duas linhas de quatro que protegiam Trubin. Poder-se-á dizer que foi uma opção pragmática, porque vencia por 0-2, ou que foi uma decisão conservadora, porque abdicou de ir à procura de mais. O que é certo é que o Famalicão, com Gustavo Sá e Mathias de Amorim em grande plano, começou por apostar no jogo aéreo (sem Otamendi o Benfica, nesse particular, não é a mesma coisa), e logo que a sua equipa se foi sentindo mais confortável, passou a apresentar diagonais perfeitas que mudavam de plano, às quais, o Benfica com dez, tinha dificuldade em responder: quanto mais a equipa que está em vantagem numérica apostar na largura, maiores hipóteses tem de desmontar o adversário.

Foi já com o Benfica em modo defensivo (que aos 58 minutos viu Gustavo Sá desperdiçar incrivelmente um cruzamento da esquerda de Sorriso) que a equipa da casa reduziu (grande trabalho de Mathias de Amorim com a bola a raspar em Dedic e a trair Trubin). Nesse minuto (67), o jogo abriu-se, o Benfica só pensou em defender e o Famalicão convenceu-se de que podia até ganhar. E vieram as substituições.

Grande Famalicão

Ao mesmo tempo (71 e 72 minutos), Mourinho, que já tinha prescindido de Prestianni, tirou Schjelderup (entrou Bah para lateral direito e Dedic colocou-se na frente do dinamarquês, derivando Barreiro para a esquerda do meio-campo), enquanto Hugo Oliveira deu poder de luta ao ataque com Abubakar e versatilidade ao lado direito com o fantasista Benéy.

O pendor atacante do Famalicão intensificou-se e o Benfica defendeu-se como podia, até que Abubakar desviou um remate de Mathias de Amorim e empatou tudo a dois (78). Faltava muito tempo para o apito final (27 minutos!!!) e curiosamente o jogo acalmou, aproveitando Mourinho para fazer entrar Rafa para o lugar do esgotadíssimo Ivanovic, com a mesma missão, de obstaculizar saídas de bola e tentar ser eficiente nos ataques rápidos. 

Até ao fim, o Famalicão, que podia ter feito o 3-2 aos 90+10 por Rodrigo Pinheiro, foi mais contido e o Benfica, finalmente, conseguiu ter mais bola. Uns pareceram mais saciados com o empate e para os outros, perante a conjuntura, o empate até foi um mal menor.

Haverá sempre a velha questão, que é um pouco como a da galinha e do ovo: quem ganhou um ponto? Quem perdeu dois pontos? Atendendo a tudo o que aconteceu, prolongamento incluído, no fim do jogo o empate não terá frustrado nenhum dos treinadores, cada um sabedor de que podia ter sido pior.

Quanto ao resto — nas situações já identificadas — mesmo concedendo que na fase final dos campeonatos tudo é hiperbolizado, haverá muita ilação a tirar com vista ao futuro, sabendo-se que ao longo da temporada foi levado a cabo um refrescamento geracional dos protagonistas da arbitragem, com apostas que, em muitas situações, se revelaram prematuras.  

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