Ramón Calderón: «Negociámos dois anos Ronaldo com o Man. United»
MADRID — Acertou ao contratar Cristiano Ronaldo. Conte-nos um pouco como foi a história.
— Sempre disse, e não é falsa modéstia, que não foi mérito meu, mas sim do Real Madrid. Estava lá e o Cristiano Ronaldo tinha interesse em vir, foi só uma questão de chegar a acordo com o Manchester United sobre o valor pelo qual estava disposto a deixá-lo sair, foram 80 milhões de libras, 94 milhões de euros. Estivemos dois anos em negociações, o Manchester United, como é lógico, não queria que ele fosse embora, mas o jogador queria sair. Já se sabe que futebolistas como o Cristiano acabam por ir para aonde realmente querem, é impossível retê-los contra a sua vontade. Insisto, estava lá e, como teria feito qualquer outro, aproveitei a oportunidade. Era, naquele momento, o melhor jogador do mundo a par de Messi e, portanto, o mais lógico seria agarrar com as duas mãos a possibilidade de contratá-lo. Correu muito bem, esteve aqui nove anos, triunfou, ganhou tudo o que havia a ganhar e, aos 41 anos, continua na linha da frente e acaba de conquistar a liga da Arábia Saudita. É alguém com o talento, a inspiração e a decisão de ser melhor a cada dia, preparando-se com uma intensidade que no final o leva, com a sua idade, a continuar a fazer golos espetaculares e a ajudar a equipa. Foi uma sorte tê-lo aqui e estou muito orgulhoso de ter podido aproveitá-la.
— Foi um erro tê-lo deixado sair?
— Creio que foi um erro das duas partes. Seguramente a relação não foi boa desde o início, depois, com o tempo, deteriorou-se no final dos anos que esteve aqui. Creio que o presidente não acreditava que alguém fosse capaz de pagar 100 milhões de euros, mas sim, houve um clube disposto a fazê-lo e aí já não teve outra opção senão aceitar a saída do jogador, com a qual tivemos um benefício económico de 6 milhões entre o que se pagou quando eu era presidente e o que se obteve quando ele saiu; desportivamente foi uma operação de saída muito má, embora economicamente tenha sido boa. Mas creio que foi mau para ambas as partes: o jogador nunca se adaptou completamente a nenhum clube fora do Real Madrid, e ao Real Madrid custou-lhe, porque é impossível encontrar alguém como o Cristiano; há jogadores parecidos, mas iguais ou melhores não existem.
— Deixou numa bandeja de prata ao seu sucessor, Florentino, a possibilidade de fechar o contrato. Acha que ele teve dúvidas em respeitar o que estava acordado?
— Não estava lá, mas quem participou na chegada de Florentino disse-me que ele, quando viu aquele contrato, teve muitas dúvidas e parece que hesitava em o levar a efeito. Havia inclusivamente uma cláusula de 30 milhões de euros que deveria pagar a parte responsável pela não formalização oficial do acordo. Segundo me contaram, o Cristiano, quando soube que havia dúvidas, ficou furioso e chegou, inclusivamente, a estar disposto a renunciar aos 30 milhões e a não vir. Felizmente, houve pessoas à volta de Florentino que o convenceram de que dar marcha atrás seria uma loucura, uma decisão totalmente inapropriada. Por fim, o presidente aceitou, o Cristiano veio e felizmente esteve aqui nesses nove anos de enorme sucesso, e disso há que se alegrar.
— Alguma vez sonhou com a possibilidade de ter Messi ao lado de Cristiano na sua equipa?
— Teria adorado, mas era impossível porque Messi era do Barcelona e nunca o teriam deixado sair, a menos que tomasse a iniciativa, como fez o Cristiano no Manchester United. Mas ele sentia-se feliz no Barça e, portanto, não havia qualquer possibilidade. Foi uma pena porque juntar os dois melhores jogadores do mundo na mesma equipa teria sido fantástico.