V. Guimarães: o resultado esperado
1 - No meu artigo de 21.04.2026 escrevi que «a gravidade do momento exige ponderação e reflexão sérias, um toque a reunir ao invés do desfilar de ambições individuais. Esta altura é de sabermos sobrepor a imagem do Vitória às legítimas ambições pessoais.» Mais recentemente, em 19.05.2026, expliquei que procurei com esse texto «fazer, atempadamente, um apelo ao sentido de responsabilidade coletivo. A que o Vitória seja visto como fim e não como meio. Debalde.» O resultado das eleições do Vitória apenas vem confirmar aquilo para que procurei alertar.
2 - O novo Presidente do Vitória será Rui Rodrigues, que aproveito para felicitar pela sua vitória e desejar o melhor mandato possível, pois esse é o interesse de qualquer vitoriano. E quero ainda acrescentar que a exígua vitória por dois votos é, quanto a mim, irrelevante no que respeita à sua legitimidade. Desde logo porque, ainda que com diferença curta, obteve mais votos que o candidato que ficou em segundo lugar (aqui se encaixa o velho adágio de que por um voto se ganha, por um voto se perde). Mas fundamentalmente — para o que mais me interessa analisar — porque ganhar por 2 ou por 200 votos representa exatamente a mesma coisa: teríamos sempre uma eleição de que resultariam mais derrotados do que vencedores, teríamos sempre um maior número de sócios a pretender uma opção diferente da que venceu (neste caso o rácio foi de 69,47% para 30,53%), em suma, teríamos sempre um Vitória dividido. É esse o «resultado esperado» com que intitulo esta crónica. E isso, eu só posso lamentar. Lamentar e responsabilizar. Disse aqui no tal texto de há um mês que «ninguém cuidou de se preocupar minimamente com a potencial instabilidade que é expectável seguir-se a uma eleição da qual sairão três derrotados, nada disso, cada qual viu o momento como uma oportunidade e avançou». Disse-o por ser evidente que quem sobreponha os interesses coletivos aos seus individuais, quem prefira o Vitória ao seu lugar na História, faria a evidente leitura de que o momento presente exigia – de todos nós – maturidade, sentido de responsabilidade, busca de consensos ao invés do seu próprio lugar ao sol. Numa palavra: elevação.
E isto não posso, em obediência à minha consciência, deixar de dizer. Porque daqui resulta a situação absolutamente paradoxal de, pelos vistos, ser para todos inquestionável a situação financeiramente catastrófica do clube, mas nunca ter havido tantos a sentirem-se com capacidade para a resolver, o que confesso ter dificuldade em compreender.
3 - Fechado este ciclo resta-me esperar poder estar errado desta vez e que a aparente divisão social não se reflita em instabilidade que é, como penso ser óbvio para qualquer pessoa consciente, aquilo de que o nosso clube menos precisa. Rui Rodrigues e a sua equipa precisam agora de tempo e de paz para poderem implementar o seu projeto e enfrentar as dificuldades já de si bastas resultantes da situação financeira em que nos encontramos. Manterei com o Vitória a relação não sinalagmática que é a única que julgo que um adepto deve ter com o seu clube, desprendida, da bancada para o relvado, a dar mais do que a receber, a ser vitoriano da única forma que interessa: de coração.
Com o início do Campeonato do Mundo é evidente que este texto deveria ter sido dedicado à Seleção Nacional, mas o momento que vive o meu clube torna compreensível que o não tenha feito, o que farei na próxima crónica.