Situação de Rúben Dias, ambição de Ronaldo e o sonho que comanda a vida (tudo o que disse Martínez)

Selecionador de Portugal fez a antevisão da estreia da equipa das Quinas no Mundial, esta quarta-feira, frente à RD Congo

— Como é que Portugal chega a este primeiro jogo do Mundial? A preparação foi a ideal, tendo em conta que o mau tempo levou ao cancelamento de um treino? E amanhã, o Rúben Dias está disponível para jogar ou vai ser poupado?

— Boa tarde. Acho que a preparação foi... foi perfeita a todos, todos os níveis. Só o aspeto de que o Rúben Dias não está 100% para amanhã, então não... não está apto para o jogo. Não... não é o momento de arriscar, está a trabalhar individualmente e acho que faz sentido continuar com a recuperação. O resto foi um período muito, muito positivo, muito bom. Todos os jogadores tiveram minutos, o nível de treino está a ser muito alto. Estamos a ajustar não só o fuso horário — que fizemo-lo muito bem, já com a experiência que tivemos durante março com o trabalho que fizemos no México e em Atlanta —, estamos a ajustar muito bem a trabalhar com a humidade e a temperatura em Miami. Então, para nós, também cancelar um treino foi mais uma oportunidade para trabalhar aquilo que é este Mundial, que é esperar o inesperado e tentar utilizar aquilo que acontece para acrescentar a preparação dentro do grupo. Fizemo-lo muito bem. As condições são excelentes e agora já estamos prontos para... para o jogo de amanhã e muito satisfeito com o jogo contra a Nigéria porque, realmente, é o teste perfeito para o jogo de amanhã.

— Gostava de lhe perguntar sobre o Rúben Dias. Há coisa de um mês, na Renascença, tivemos o Pep Lijnders (adjunto de Pep Guardiola) que garantiu que o Rúben Dias estava bem e pronto para ajudar Portugal no Mundial. Como é que o Rúben Dias chegou ao estágio da seleção? Estava efetivamente bem ou foi durante o estágio que se ressentiu da lesão?

— Não, não, posso dizer que o Rúben Dias chegou perfeitamente. Jogou os 90 minutos com o seu clube no último jogo na Premier League, o que sempre ajuda, e depois trabalhou muito bem durante a preparação, no jogo contra o Chile. Mas, infelizmente, o futebol é um jogo de contacto, o Rúben teve un golpe durante o jogo contra a Nigéria e... fizemos os testes. Está tudo bem estruturalmente e agora é só... não arriscar. Acho que, medicamente, precisamos de estar a 100% num jogo do Mundial e é isso que vamos fazer. Mas a situação do Rúben foi um momento de futebol, de contacto, que acontece, que pode acontecer, mas não tem um passado com aquilo que... que aconteceu na sua... na sua época com o Manchester City.

— O Bruno Fernandes referiu que esta seleção da República Democrática do Congo é muito forte defensivamente. No primeiro treino aberto, vimos os jogadores ensaiarem muitos remates de fora da área no final da sessão. Isso vai ser uma estratégia de Portugal para este encontro? E sobre as bolas paradas, já definiu quem as vai marcar?

— Primeiro, dizer que o Congo... precisamos todos nós, todos, todos nós respeitar muito o que o Congo está a fazer com o seu treinador. Já são muitos jogos, quase acho eu 48 jogos, isso dá... é um período de muito, muito bom trabalho ao nível das seleções. O Sébastien Desabre fecha uma fase de apuramento extraordinária. Estamos a falar de uma equipa que deixa fora os Camarões, deixa fora a Nigéria e depois teve um play-off intercontinental. Então é uma equipa que eu diria que é muito flexível taticamente, então não é só uma equipa de defender em bloco baixo. Já tivemos a experiência com a Nigéria de que as equipas africanas agora estão muito bem desenvolvidas, conseguem fazer uma pressão de bloco médio-alto agressiva, gostam dos duelos físicos, um jogo vertical quando têm bola descoberta, exploram os espaços na linha defensiva muito, muito bem. Têm jogadores europeus, ou que jogam nas ligas mais importantes na Europa, como o Bakambu, o Wissa, o Theo Bongonda... jogadores muito experientes. Então, nós respeitamos muito o que o Congo é como seleção. E para nós, todos os portugueses, o jogo contra a Nigéria é um jogo que mostra muito bem aquilo que as seleções africanas podem fazer. E acho que há pontos muito semelhantes com a Nigéria: o aspeto flexível, muitos jogadores na zona central, uma equipa que gosta do duelo físico e é muito vertical. A bola parada é um processo continuado. Já são 40 jogos que estamos a trabalhar com a nossa seleção. Nós temos muitos batedores, seja de pé esquerdo ou pé direito, na seleção. Não há um jogador que bata todas as bolas paradas. Temos estratégia em relação ao jogo, ao adversário, mas a bola parada está... está... é um processo que tem sido muito bem, muito bem trabalhado.

— Não está arrependido de não ter trazido mais um central? O Rúben Dias está limitado e agora só conta com três centrais de raiz para este primeiro jogo. E gostava também de perguntar se vai fazer alguma gestão entre Cristiano Ronaldo e Gonçalo Ramos para a posição de ponta de lança, ou se o Cristiano vai jogar quase sempre?

— Não, arrependido não, porque temos três centrais. O Rúben Dias está bem, só que agora precisamos de gerir o seu... o seu golpe que ele teve. E depois temos jogadores que também conseguem jogar nas posições de centrais. Já utilizámos o Rúben Neves, já utilizámos o Diogo Dalot... então a polivalência do nosso grupo é maior do que tentar trazer um jogador novo que não tem experiência ao nível das seleções e que não... não tem clareza daquilo que estamos a trabalhar. Chegar a um Mundial para nós são 40 jogos, é um processo que tem sido muito, muito meticuloso, que não é... falta de foco ou de avaliar e analisar tudo aquilo que nós temos, e tudo aquilo que podemos precisar durante o Mundial. Então, estou muito contente, muito feliz com os jogadores, com a atitude, com o trabalho feito, com aquilo que nós temos e com o que eu percebo durante o treino. Não só ao nível de qualidade individual, mas ao nível de grupo. O espírito de grupo e a responsabilidade que mostram é um equilíbrio muito bom entre o aspeto emotivo de representar a Portugal e ter um orgulho muito, muito grande, mais também o aspeto racional de preparar os jogos bem, ter uma clareza daquilo que precisamos de fazer amanhã. Tudo isso faz com que o período que agora terminamos, que é o período de preparação — porque amanhã começamos um período diferente —, fique toda a equipa técnica e eu muito feliz. E o aspeto de qualquer jogador, os minutos... precisamos de gerir isso jogo a jogo, dia a dia. Não é o mesmo jogar um jogo com cinco dias entre o jogo ou três dias, a situação pessoal, se é um jogo exigente, se não é um jogo exigente... Nós precisamos de ter uma responsabilidade de gerir todos os minutos em relação àquilo que acontece todos os dias.

— Nos treinos da seleção, quem é que costuma acertar mais livres diretos? É o Ronaldo, o Bruno, o Vitinha, o Nuno Mendes? Quem é que tem a melhor percentagem de acerto?

— Não é uma questão de percentagem de acerto. Nós temos muitos, muitos jogadores que constantemente praticam a bola parada. O Cris já é uma valência de muitos, muitos anos, o Bruno Fernandes, o João Neves — como já desfrutámos do seu golo contra a Arménia —, o João Cancelo, o Nuno Mendes... Eu acho que o toque e o aspeto técnico do jogador português permite que todos eles tenham a capacidade de tirar e praticar bola parada.

— O dia de hoje ficou marcado por uma notícia em Inglaterra sobre o seu futuro. Sei que já houve um esclarecimento por parte da Federação Portuguesa de Futebol, mas gostaria de ouvir a sua resposta a isso. Embora o foco seja o Mundial, não se pode ignorar um tema destes na véspera da estreia de Portugal.

— Não é... não é notícia. Já falámos disso muito em Portugal. Aqui pode ser diferente, mas em Portugal já falámos muito disso. O foco é continuar o trabalho feito durante três anos e meio. Quando cheguei a Portugal, o foco era... todos os dias tentar ganhar tudo, mas o foco era preparar o Mundial. Estamos já aqui, 40 jogos depois, depois de ganhar a Liga das Nações. O foco é o mesmo. O importante é o Mundial. Eu encaro com naturalidade. É uma notícia... o meu contrato termina depois do Mundial, eu acho que não é notícia. É um facto. É um facto, não é... não é uma notícia.

— Estamos a poucas horas da estreia de Portugal e fiquei sem perceber muito bem se temos uma seleção nacional a uma só voz ou a várias vozes. O selecionador diz que Portugal tem o sonho de chegar longe e vencer o Mundial, o capitão Cristiano Ronaldo diz exatamente o mesmo e os outros jogadores subscrevem isso. Depois, vem o presidente da Federação Portuguesa de Futebol dizer que um mau Mundial será não chegar acima dos quartos de final. Em que é que ficamos? Este tipo de declarações do presidente beneficia ou prejudica a seleção?

— Primeiro, dizer que o sonho comanda a vida. Para todos nós. Vocês como jornalistas... tudo é um sonho e comanda a vida. Para nós, a seleção portuguesa, o sonho comanda o nosso Mundial. É assim. Todas as pessoas que adoram, que gostam da seleção, têm uma opinião e é muito, muito respeitada. Como selecionador, a minha responsabilidade é como é que nós podemos atingir o sonho. O sonho é uma emoção, emoção. É difícil, não é? Como ganhar? O que é ganhar? Um selecionador precisa de mostrar o que é ganhar contra o Congo, dar clareza. Então o selecionador é o chato que precisa de dizer: o Mundial... há dois Mundiais. Um, os três jogos da fase de grupos. É isso, só temos isso. Depois, precisamos de crescer e mostrar que estamos preparados para continuar. Mas faz sentido que o nosso presidente, que o nosso capitão, falem do sonho. Eu também tenho o sonho, e temos o mesmo. Mas a minha responsabilidade é mostrar que o Mundial ganha-se racionalmente e como um caminho muito bem marcado. Então, não estamos a falar de diferentes vozes. Há uma voz geral e depois há uma voz chata, que é racional, explica o caminho e que utiliza a experiência do terceiro Mundial, de muitos jogos na seleção. Mas é... é uma voz.

— Gostava de ouvir a sua opinião sobre as pausas de hidratação neste Campeonato do Mundo, que acontecem mesmo em estádios climatizados como este em Houston. Passa a impressão de que existem mais por questões comerciais do que por preocupações físicas, transformando os jogos em partidas de quatro partes?

— Eu acho que é uma... uma muito boa pergunta, porque o jogo muda. O jogo muda. Eu diria que se precisamos de pausas de hidratação — que certamente precisamos, porque há jogos em estádios muito exigentes, precisamos da pausa de hidratação —, no mesmo torneio, precisamos de pausas de hidratação em todos os jogos, para que a competição seja íntegra e seja... importante. Todos os jogos precisam de ter as pausas de hidratação. Não é a minha opinião de dizer que precisamos delas, mas quando temos, acho que isso, como treinadores, selecionadores, equipas técnicas, muda muito como trabalhamos durante os jogos. Antes, era o aspeto tático antes do jogo, o intervalo e o fim, para o próximo jogo. Agora não, agora há quatro intervalos. Então isso é um aspeto muito, muito importante, revolucionário, porque agora o jogo são quatro partes. Então, nós precisamos de utilizar... não é a minha função dizer se é bom ou se é mau, é utilizar isso. E é um aspeto que nós podemos utilizar, já tivemos a oportunidade de fazer isso em março, começámos a trabalhar porque... é diferente para os jogadores, é diferente para a equipa técnica, mas nós precisamos de utilizar um período — estamos a falar de um período de três minutos — para trabalhar muito. Então, há aspetos táticos, de flexibilidade, de poder ajustar, que já vemos noutros desportos e acho que para o aspeto tático ajuda muito poder ter contacto com os teus jogadores durante o jogo.

— Mencionou a parte racional, mas queria perguntar-lhe sobre o lado emocional e o seu papel na gestão dos nervos dos jogadores. Esta equipa tem muita experiência, mas como vê o seu papel a ajudar a gerir os nervos, especialmente considerando que Portugal é visto como um dos favoritos a vencer o Mundial?

— Acho que é, obviamente, um aspeto belíssimo porque as emoções, os sentimentos de representar uma seleção nacional num Mundial, são muito naturais. Portanto, não temos de lutar contra eles. Penso que aquilo de que precisamos para os superar é clareza. Clareza sobre o que fazer quando se está no relvado e naqueles momentos em que não podemos ser guiados pelas emoções e sentir apenas que temos de fazer algo diferente. É um trabalho coletivo, é um desporto em que precisamos que todos estejam a pensar na mesma linha. E considero que o selecionador nacional e a equipa técnica precisam de dar constantemente essa clareza, clareza, clareza, porque isso supera a emoção. Mas eu nunca impediria um jogador de se sentir emocionado por estar num Mundial, porque é bonito, é uma oportunidade única na carreira. Penso que, se tivermos a oportunidade de disputar um Mundial como jogador na carreira, somos muito afortunados. Se disputarmos dois, é uma dádiva. Se disputarmos três, é algo que vai mudar a vida para sempre. E nós temos um jogador que vai para o seu sexto Mundial, por isso acho que podem tirar as vossas próprias conclusões a partir daí. Mas acho que é bonito, as emoções são boas. E outra das coisas é que precisamos de igualar as emoções do Congo, porque amanhã não será o mesmo para nós estar num Mundial em que provavelmente temos muito pouco a ganhar do ponto de vista exterior. Se ganharmos ao Congo, é o esperado; se ganharmos por um, é um grande problema; se empatarmos, é uma catástrofe; se perdermos, é o fim do mundo. E vamos defrontar uma equipa que vem sem expectativas, que está a desfrutar de estar aqui. Vimos exibições incríveis de equipas como o Catar ou Cabo Verde, exibições exemplares que mostram que não há jogos fáceis. Num Mundial, podemos mudar um jogo para torná-lo um pouco mais fácil se marcarmos o terceiro golo, como a Alemanha fez, mas até ao minuto 30 foi um jogo competitivo. Portanto, esperamos amanhã um jogo totalmente difícil, com emoções, e queremos igualar essas emoções positivas da equipa do Congo.

— Fala-se muito de Portugal neste Mundial. Como é que sente o nível desportivo atual da equipa para assumir esse protagonismo? E quais são as suas sensações em relação ao Cristiano Ronaldo, no seu sexto Campeonato do Mundo, a nível físico, emocional e desportivo?

— Primeiro, dizer que Portugal, para mim, é um exemplo. Estamos a falar de um país de 10 milhões de habitantes e que consegue ter uma estrutura de formação onde produz jogadores do mais alto nível todos os anos. Estamos a falar de um país que ganhou o Mundial Sub-17, de um país que constantemente tem os melhores jogadores nos melhores balneários do futebol europeu e do futebol mundial. Então, admiro imenso a capacidade pessoal do futebolista português de sair do país e ser um jogador importante nos balneários de equipas exigentes. E, depois, esta capacidade de voltar a Portugal e sentir-se orgulhoso, sentir-se um embaixador e estar disposto a trabalhar muito forte pela equipa. Então, o nível de Portugal preferia que seja o senhor a analisá-lo desde fora, analisar rivais é sempre uma forma subjetiva. Eu fico com o facto de que vínhamos de fazer campanhas muito, muito consistentes e de ganhar a Liga das Nações. A Liga das Nações na Europa é a mais exigente de sempre, com 10 jogos, com uns quartos de final, com uma fase final contra a Alemanha, na Alemanha — algo que não se tinha conseguido, ganhar a uma equipa como a Alemanha na Alemanha, há 25 anos — e ganhar uma final, a primeira final que ganhámos, à Espanha. Então, a equipa está radiante, está com muitíssima confiança, mas também com muitíssima responsabilidade e sabendo que um Mundial é muito distinto de qualquer outra competição e temos de ir passo a passo.

— E o Cristiano?

E o Cristiano, mais uma vez, é um exemplo e uma referência para o futebol, para todos aqueles futebolistas jovens, ou crianças na rua, meninos e meninas que começam a sentir o amor pelo desporto, seguir o exemplo do Cristiano Ronaldo é uma maravilha. Para nós, é o seu sexto Mundial, mas posso dizer que, a nível interno, parece que é o seu primeiro Mundial. A nível de intensidade, a nível de força emotiva, do quão importante é para ele poder estar preparado para ajudar o grupo. E dentro da seleção é um jogador vital porque é o finalizador, é o jogador de área, é o jogador que tem aqueles movimentos que podem abrir espaços para outros jogadores dentro do nosso jogo de ataque. É um jogador em que os seus números refletem a importância que tem.

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