Luís Castro está na moda em Espanha: «Todos acreditámos»
— Em traços gerais, qual foi o seu trajeto antes de chegar ao Levante?
— Comecei nas camadas jovens do Vizela e também dirigi as do Moreirense antes de ir para a Arábia Saudita, onde desenvolvi o meu primeiro projeto como profissional. Quando regressei a Portugal, fui para o Vitória de Guimarães. Estive alguns anos como coordenador e fiz lá um dos melhores trabalhos de toda a minha vida. O clube estava com algumas dificuldades e era muito importante dedicar toda a atenção à formação, de tal forma que ainda hoje o Vitória continua a vender jogadores dessa altura em que trabalhámos lá. Depois saí para a Grécia, regressei a Portugal para as camadas de transição do Benfica e, a partir daí, penso que a história já é mais conhecida: primeiro o Benfica, depois o Dunkerque, o Nantes e o Levante.
— Como se define: é um formador, um treinador ou um treinador-formador?
— Sou treinador, porque não se consegue fazer o trabalho que fiz no Levante e antes no Dunkerque, e competir a alto nível, não sendo um bom treinador. Mas também sou formador, gosto muito de trabalhar com jogadores jovens, há muitos que ajudei a crescer e nos quais continuo a apostar, por isso acho que sou as duas coisas: treinador e formador.
— A aventura francesa correu muito bem no Dunkerque, mas não tanto no Nantes. O presidente deste clube foi muito crítico consigo, chegando a vaticinar que o Luís desceria duas equipas de divisão na mesma temporada…
— Nessa entrevista ele criticou muita gente. Na parte que me diz respeito não me preocupa, só lá estive cinco meses, nem ele me conhece nem eu a ele. A acusação que me faz não tem sentido, comigo não desceu nenhuma equipa. O Nantes desceu, mas eu já lá não estava; o clube tem de pedir responsabilidades pelo sucedido a outros e não a mim. Tenho a consciência tranquila pelo trabalho que fiz enquanto lá estive.
— Saiu do Nantes e dez dias depois já tinha trabalho. Porquê o Levante? Tinha outras opções?
— Sim, havia outros clubes que mostraram interesse, mas as pessoas do Levante fizeram-me acreditar que este era o sítio certo para mim, que acreditavam no meu trabalho, e quando se sente que nos querem há mais conforto e mais vontade de abraçar o projeto.
— A aposta era arriscadíssima…
— Sim, era. As alternativas que tinha em cima da mesa talvez envolvessem menos riscos e até eram mais vantajosas, mas preferi o Levante pelas razões que já apontei.
— E como encontrou a equipa quando chegou?
— Encontrei um grupo de jogadores que estava no último lugar da classificação, mas que tinha bastante vontade de sair dessa situação. Muito rapidamente eles acreditaram nas nossas ideias, foram crescendo mentalmente com o dia a dia e acabaram a época de uma forma muito forte. Tivemos várias finais, jogos que eram de vida ou morte, mas eles foram sempre capazes de sair por cima.
— Qual foi o segredo do verdadeiro milagre que conseguiu fazer?
— O fundamental foi que todo o grupo trabalhou para o mesmo objetivo. Não houve nenhuma pessoa do plantel, da equipa técnica ou da direção do clube que não acreditasse e que não tenha lutado por conseguir o que queríamos. Quando temos todas as pessoas a pensar da mesma maneira e a remar na mesma direção, as coisas são mais fáceis.
— Se tivesse chegado mais cedo, podia até ter lutado pela Europa…
— Sim, os pontos que fizemos em 2026 eram suficientes para estarmos num lugar europeu. É fantástico que o Levante, com o orçamento mais baixo da Liga, tenha feito, nos meses deste ano, o mesmo que outros clubes muito mais poderosos que nós. Acho que estamos de parabéns, desde o mais humilde empregado até ao dono do clube, pelo grande trabalho coletivo que, entre todos, fomos capazes de fazer.
— Também descobriu jogadores jovens que tiveram uma grande influência na recuperação…
— Sim, fomos à cantera buscar alguns jovens que achámos que nos podiam ajudar. Responderam bem e, com isso, agora têm maior visibilidade num clube com a nossa dimensão. Vamos ver se, com o tempo, fazemos com que a situação do Levante fique mais estável, sabendo que, para isso, é necessário contar com jogadores da formação.
— Agora toda a gente diz que Luís Castro é o treinador revelação da Liga espanhola. Isso agrada-lhe, é bom para a sua imagem, para o seu futuro?
— Claro que é um orgulho ouvir a forma como estão a falar de mim, toda a gente gosta de ser elogiada pelo seu trabalho, mas não estou muito preocupado se isso pode ou não ajudar o meu futuro. Tenho consciência de que o que faço bem me dá mais oportunidades, mas tenho de continuar a trabalhar, ter consistência, para estar ao mais alto nível. Não se pode querer viver do passado; ao fim e ao cabo, esta manutenção já passou e agora é preciso começar já a pensar no próximo ano.
— Salvar o Levante foi o mais importante que conseguiu na sua carreira?
— Não é o mais importante, mas é um dos feitos mais importantes. Não posso ignorar outras coisas que, antes do Levante, já tinha feito: a Youth League com o Benfica foi a primeira do clube. Não voltou a conquistá-la porque não é fácil fazê-lo. A Intercontinental que ganhámos com o Benfica é a única conseguida por um clube europeu. É evidente que salvar o Levante é um dos melhores trabalhos que fiz até hoje, mas não o posso colocar acima dos outros só porque é o mais recente. O que consegui tanto no Benfica como depois no Dunkerque envolveu bastantes dificuldades e foi de enorme importância para a história dos dois clubes.
— Porque há tantos treinadores portugueses a trabalhar com êxito no estrangeiro? Onde está o segredo?
— Acho que os treinadores portugueses têm bastante qualidade, trabalham muito, são inteligentes, versáteis, normalmente adaptam-se com facilidade a tudo e por isso é normal que lá fora olhem muito para o nosso perfil. O que gostava de ver era mais treinadores portugueses nas equipas de topo das grandes ligas europeias. Têm qualidade para estar a esse nível e oxalá lá cheguem o mais depressa possível.
— A facilidade para falar idiomas também ajuda, o seu espanhol é estupendo…
— Isso faz parte do processo de adaptação. Domino bem o espanhol, quando fui para o Dunkerque aprendi rapidamente a falar francês, também tenho o inglês… Nós, portugueses, temos uma boa capacidade para aprender línguas e isso permite-nos integrarmo-nos mais rapidamente em qualquer parte.
— Sente-se querido pela massa associativa do Levante, as pessoas estão consigo?
— Neste momento sinto muito isso, sou acarinhado todos os dias, vá onde vá. No estádio, então, era uma loucura, sempre cheio e com um grande ambiente. Tudo isso é, para mim, um motivo de grande orgulho.
— Como vê a possibilidade de, na próxima temporada, defrontar José Mourinho?
— Será uma grande honra, não só pelo treinador que é, como pelo que representa para todos os portugueses.
— Gostaria de voltar ao Benfica?
— A minha preocupação, agora, é o Levante. Gostava de voltar a Portugal, a que clube não sei.
— Qual é a diferença fundamental entre a liga espanhola e a portuguesa?
— São muito diferentes, o nível das equipas espanholas é muito mais alto. Basta ver como os jogadores que saem da segunda ou da terceira divisão de Espanha e chegam à primeira liga portuguesa têm protagonismo. O Sporting, por exemplo, contratou no ano passado um avançado que era de uma equipa da segunda liga espanhola e nem sequer subiu de divisão. Em termos de estádios e de condições, os espanhóis também estão muito acima. Nós lutámos para não descer e tínhamos o estádio sempre cheio. É impensável imaginar uma equipa portuguesa que esteja nos lugares de baixo a ter, semana após semana, mais de 20 mil pessoas no estádio a apoiá-la. Penso que são duas realidades diferentes. Na minha opinião, a liga espanhola é, em muitas coisas, a melhor do Mundo. A portuguesa, até por uma questão económica, não tem possibilidade de fazer o mesmo. Portugal, com a dimensão que tem e com o dinheiro que os clubes têm, já faz o que eu chamo muitas vezes de autênticos milagres, até mesmo a nível europeu. Estamos sempre ali, muito perto dos cinco países mais fortes. Em termos de ranking europeu, os clubes estiveram durante muitos anos, e agora felizmente outra vez, no sexto lugar, o que não deixa de ser bastante notável.
— Está de acordo com a lista dos jogadores que Roberto Martínez escolheu para o Mundial?
— Não tenho opinião sobre isso porque, como se pode imaginar, eu não andei durante o ano a ver os jogos e a acompanhar os futebolistas portugueses. Da mesma maneira que o Roberto Martínez não tem o conhecimento dos meus jogadores do Levante, também eu não conheço suficientemente os jogadores portugueses que o selecionador tem neste momento a trabalhar com ele.
— Mas viu Guedes, Samu, Renato Veiga, que foram convocados, e outros, como o André Silva, que ficaram de fora…
— Sim, vi todos os que, na temporada que acabou, estavam na liga espanhola. Tinham muita qualidade, mas não tenho um conhecimento aprofundado para poder dizer se as opções foram as melhores ou não. O Roberto Martínez quer o melhor para a Seleção portuguesa, convocou os que ele acha que são os melhores e o que desejo, do fundo do coração, é que Portugal seja campeão.
— Que possibilidades temos no Mundial?
— À partida, e antes de começar, acho que podemos alcançar o máximo. Temos jogadores que estão nos melhores clubes do Mundo, alguns são campeões europeus, outros têm experiência do futebol ao mais alto nível. Há outras equipas que também são muito fortes, mas temos capacidade para ganhar a qualquer delas. São onze contra onze, num dia bom ou num dia mau as coisas podem ser diferentes, mas em termos de qualidade temos a suficiente para fazer frente a qualquer seleção.
— Quem tem maior favoritismo, Espanha ou Portugal?
— É difícil responder porque não tenho acompanhado muito a equipa espanhola, mas ambas são de altíssimo nível e adoraria ver as duas na final.
— Qual deverá ser o papel do Cristiano neste Mundial?
— O Cristiano foi um dos melhores do Mundo, é uma referência para Portugal e continua a ser indispensável para a nossa equipa. Como não acompanho a liga da Arábia Saudita, não posso dizer mais do que isso.
— Está feliz em Valência? Tem a família consigo?
— Sinto-me muito feliz aqui. A minha família está em Portugal e essa é a parte mais difícil do futebol, nem tudo na vida é perfeito. Felizmente, há todos os dias voos diretos de Valência para Portugal e assim conseguimos, de uma forma ou de outra, ter toda a família em contacto.
— O que lhe pareceu a final da Taça de Portugal entre o Sporting e o Torreense? Surpreende-o que uma equipa da 2.ª divisão se imponha a uma da Champions?
— Não me surpreende por duas razões: a primeira é que, efetivamente, no futebol muitas coisas podem suceder; a segunda é que conheço bem o treinador e o diretor desportivo do Torreense, sei as competências que ambos têm.
— Agora vai ter de planificar a próxima temporada, fazer contratações. Tem na sua mente algum jogador português que possa vir para o Levante?
— Já começámos a trabalhar nisso, a ver jogadores de todo o Mundo, e há alguns nomes de portugueses em cima da mesa, sim.
— Tem mais dois anos de contrato com o Levante. E se, entretanto, aparecer uma proposta de algum grande?
— Neste momento a minha cabeça só está no Levante, mas no futebol tudo pode acontecer. Até posso ser despedido. Não estou a pensar em sair. Se aparecer alguma coisa fora do normal, será analisada com atenção, mas, sinceramente, o meu objetivo é continuar aqui e não vejo opções que me levem a sair.
— Teria continuado se a equipa tivesse descido de divisão?
— Sem qualquer dúvida. Estou muito bem no clube e na cidade, e não teria nenhum problema em treinar a equipa estando na segunda liga.
— E por parte do Levante, também teriam continuado a confiar em si?
— Estou absolutamente convencido que sim.
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