Patrick Videira alcançou duas promoções consecutivas com o Le Mans

«Sou maluco e sempre acreditei na subida»

É um dos nomes mais badalados em França por ter levado o Le Mans do 3.º escalão à Ligue 1 em dois anos. O feito colocou-o no radar de clubes maiores, mas orientará 'Les Sang et Or' na primeira divisão

Patrick Videira causou sensação nos últimos dois anos no futebol francês e já renovou por mais três épocas pelo Le Mans, tendo mesmo recusado um convite do Lens, que vai disputar a Champions. O treinador luso-gaulês, filho de emigrantes, dá-se a conhecer a si e às suas ideias em entrevista a A BOLA.

— Obrigado por ter aceitado o nosso convite. Começo por aqui: é a subida um prémio justo, tendo em conta a luta, o trabalho e a consistência ao longo da temporada?

— Vou dizer sempre que é justo porque são 34 jornadas e merecemos esta subida. Agora, sabemos que é sempre difícil. Um campeonato é sempre complicado, mas, pronto, os rapazes, e digo-o muitas vezes, trabalharam muito, foi muito suor e depois, no fim, muita alegria.

— Há aqui uma coincidência, que foi ter-se tratado outra vez do Bastia, não é? Felizmente, acabou por correr bem das duas vezes, mas parece coisa do destino ou não vê as coisas dessa forma?

— Sim, é uma realidade. Na minha vida, aparece sempre o Bastia. Depois, foi também um momento complicado, porque havia de um lado muita alegria pela subida à primeira divisão, mas também havia a descida do Bastia, e eu moro aqui também perto do estádio do Bastia, mas uma pessoa tem de ser profissional e lutámos desde 30 de junho para poder subir à primeira divisão… Tinha pedido aos meus jogadores para terem muita humildade e no regresso a Le Mans pudemos festejar esta subida.

— Esse jogo na Córsega não terminou como vocês desejavam, devido aos problemas com os adeptos. Vocês estavam a ganhar e o resultado foi homologado, mas não foi a festa que vocês queriam fazer, certamente…

— Foi uma época muito complicada para o Bastia. Eles pensavam, e eu também, depois de terem feito uma grande época há dois anos, que iriam subir. Estávamos a ganhar por 2-0 e faltava um minuto. Os adeptos são muito fanáticos aqui e quiseram demonstrar que não estavam contentes com a época que o clube fizera. Mas eu já tenho os meus problemas e esses são problemas do Bastia. Tenho muito carinho pelo clube, como já disse antes, mas tenho de ser profissional e a minha vontade era fazer subir o Le Mans à primeira divisão.

— Em 2013, o Le Mans encontrava-se no sexo escalão. Sentiu que nesta tentativa de subida a equipa carregava uma ambição muito maior do que a sua, a expetativa de milhares de pessoas?

— Sim, foi muito complicado. Dei-me conta disso ao fim de dois, três meses, ao sentir que os sócios estavam fartos. Subiram muito rapidamente à terceira divisão, mas depois ficaram aí muito tempo e desceram mais uma vez. O clube tinha descido devido a problemas financeiros, ao mesmo tempo que a Câmara construía um estádio para que jogasse na Ligue 1. Algo que até hoje não conseguiu. Vai ser uma estreia agora, será fantástico. Temos um estádio novo, que digo sempre que é de Liga dos Campeões, mas foi complicado. Porque quando se joga contra o Le Mans na terceira divisão é como se se jogasse contra o PSG na primeira. Chega-se ao estádio e sente-se logo a motivação. Todos os nossos adversários sentiam essa boa motivação e a realidade é que fazíamos um campeonato fora de casa fantástico e em casa éramos sempre o último ou o penúltimo, e tínhamos de mudar isso. Os jogadores do Le Mans não sabiam a sorte que tinham de jogar neste estádio. Tive de fazer com que compreendessem que tínhamos de ter ainda mais vontade do que os nossos adversários para que ninguém viesse a nossa casa ganhar. 

Construiu-se um estádio para a Ligue 1, mas só agora jogaremos a esse nível

— Houve algum jogo em que percebeu que estavam mesmo na rota de subida?
— Sempre acreditei que ia subir. Já disse que sou maluco. Comecei a pensar na subida no primeiro treino deste ano. Quando cheguei disse aos jogadores que queria subir à segunda liga. Tinha contrato por dois anos, mas não queria esperar dois anos. Queremos ser competitivos, ganhar todos os jogos e, se o adversário for melhor, resta-nos dar os parabéns. Mas quando começámos a pré-época, no dia 30 de junho, e mostrei, na primeira palestra, uma última imagem em que estava escrito «o objetivo é a primeira divisão», as pessoas do clubes e os jogadores, reconheceram-no recentemente, não acreditavam. Pensavam que era maluco… Tiveram consciência disso quando, em outubro, fomos ganhar a Saint Etiènne. A partir dessa altura, começaram a acreditar muito mais.

— O início desta última temporada não foi fácil. Teve uma vitória em seis jogos. Houve alguma coisa que tenha feito para alterar o que estava a correr mal ou a equipa só precisou de tempo para conseguir bons resultados?

— Foram muitas coisas… E tive de falar com o preparador físico também. A nossa pré-época foi muito difícil e já o tinha sido antes, no terceiro escalão. Noventa e cinco por cento dos meus jogadores não conheciam a segunda divisão. Há aquele período de adaptação, aquele receio, aquele medo, porque apanhámos o Montpellier, o Reims, que tinham descido. Perdemos quatro jogos e três deles foram nas cinco primeiras jornadas. Depois fizemos 29 encontros com uma derrota… Passou por falar muito com eles, dar-lhes muita confiança, mudar algumas coisas também taticamente. O mercado também ainda não tinha fechado. Houve coisas que ao princípio foram complicadas, mas depois, com confiança, conseguimos fazer uma boa segunda volta. 

— Durante a caminhada, o seu discurso foi sempre muito a apontar para o coletivo, para o sentimento de grupo, retirando-se a si próprio da equação. Foi assim porque foi dedicado ao momento ou é sempre assim, também pelo facto de ter sido capitão e médio raçudo?

— É o meu projeto de jogo. Digo muitas vezes que sempre quis jogar futebol para poder viver emoções com outras pessoas, fazer tudo coletivamente. Se há um jogador individualmente muito forte, mas que não quer entrar no meu projeto coletivo, vai ser muito complicado para ele. Depois de subirmos no ano passado, começámos a pré-época a 30 de junho e, quando apresentei o projeto aos meus jogadores, disse-lhes só uma coisa: temos um pequeno orçamento, acabámos de subir de divisão, mas vamos ter muita ambição. Individualmente, não tínhamos jogadores tão bons como o Sant Etiènne, como o Montpellier, mas fiz com que compreendessem que se conseguíssemos ter uma boa organização, se conseguíssemos trabalhar mais do que os outros, com suor e os nossos muitos valores, seríamos capazes de fazer uma época fantástica. Esse é o meu projeto. Eu falo sempre coletivamente. Há uma pessoa aqui em França que fez com que muitas pessoas compreendessem. O Luís Enrique perdeu o Mbappé, o Messi e o Neymar e quando disse que o PSG ia ser mais forte disseram que era maluco. Hoje é uma realidade, ganhou duas vezes seguidas a Liga dos Campeões e fez com que todos entendessem. E eu sou muito maluco também. Não temos o dinheiro ou a qualidade individual do PSG, mas as pessoas que jogaram contra nós dizem: «É uma verdadeira equipa e quaisquer que sejam os jogadores que o Patrick mete em campo têm todos o mesmo projeto.» E digo-lhes sempre: «Há 11 que vão iniciar o jogo e 11 que o vão acabar. Mas o projeto é o mesmo, joguem 5, 10, 20 minutos, meia-hora, ou 80 ou 90. O nosso objetivo é sempre ganhar e com o mesmo projeto. Pois, se há um jogador que não concorda com isso, claro que tenho muito caráter, sou uma pessoa que vive muito as coisas, aceito que não queira entrar no meu projeto, tem de ir ver outro clube e desejo-lhe o melhor.

Quis jogar futebol para viver emoções com outras pessoas

— Os seis anos seguidos no AS Furiani foram um estágio perfeito para o Le Mans?
— Foi fantástico. Comecei a treinar na oitava divisão, depois subi para a sétima, sexta, quinta, quarta, terceira, segunda e agora vou para a primeira. Treinei em todas as divisões e foi uma aprendizagem fantástica. Depois, tive a sorte de ter um presidente que me deixava trabalhar. Fazia tudo dentro do clube. Era capaz de ir meter gasolina no autocarro ou de me ocupar do orçamento, de ir buscar jogadores para o treino… Em seis anos, desempenhei todas ou quase todas as funções possíveis. Ao fim de cinco anos, tive a sorte de entrar no quarto nível do curso, que me permitiria treinar equipas profissionais. São 10 treinadores que entram e entrar um que estava na quarta divisão é muito raro. Quando entrei, o meu presidente chorou de alegria, porque achava que tinha qualidade para treinar a nível profissional na segunda ou na primeira divisão. Mas também sabia que ao entrar no quarto nível me ia perder. Dei-lhe a minha palavra. Disse: “Presidente, durante o ano da minha formação continuo a treinar aqui, mas no próximo vou-me embora e, por isso, temos de trabalhar na escolha do próximo treinador. E eu ajudei-o.

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