Três palavras para Marco Silva no Benfica
Há uma palavra que Marco Silva repete com frequência nas conferências de imprensa: identidade. A esta, juntaria outras duas para definir as sensações que, nesta altura, me transmite a equipa do Benfica, além da boa qualidade do seu futebol: honestidade e coerência. E as três estão relacionadas, sobretudo, com o trabalho da equipa técnica.
Em primeiro lugar, acredito que já não existem dúvidas e que é possível constatar que o Benfica tem uma identidade em campo. Mesmo quando os jogos correm menos bem, a bola não entra ou surgem debilidades defensivas, a ideia dos jogadores parece ser uma só: ter bola, com posses longas de preferência, pressionar sempre e atacar de forma clara a baliza do adversário na procura do golo. Parece fácil e até óbvio, porque é essa a essência do futebol, mas não é simples — nem sequer um plano assumido por todos os treinadores.
Depois, a honestidade. Para que os jogadores comprem as ideias do treinador é preciso que as entendam e que a comunicação, tanto sobre o que lhes é pedido como sobre a escolha de quem entra na equipa inicial, faça sentido num contexto de plantel, sem gatos escondidos com o rabo de fora. O que observo nas escolhas de Marco Silva e concluo das explicações que dá publicamente leva-me a acreditar que o técnico tem uma relação suficientemente honesta com os jogadores. Mesmo que alguns estejam menos satisfeitos do que outros, não me parece que Marco Silva tenha deixado alguém para trás.
Finalmente, a coerência. Mesmo tendo em conta que, na análise prévia de um jogo e na definição da equipa e da estratégia, é necessário avaliar o adversário e muito mais, sempre me custou aceitar que um treinador elogie em público as suas opções e jogadores em concreto — sobretudo a capacidade dos mais jovens — e que, quando há necessidade de recorrer a segundas e terceiras opções, adote adaptações ou tome decisões que denotam falta de confiança. É verdade que agora não há possibilidade de assistir aos treinos, que há lesões e limitações que muitas vezes são desconhecidas, mas tenho dificuldade em perceber como se elogia a capacidade de um Banjaqui, por exemplo, e, quando falta um lateral-direito, se opte por outra solução.
Marco Silva ficou sem Dedic, Bah lesionou-se e fez entrar Banjaqui. Deu-lhe minutos, nem sempre correu bem, mas já correu bem em Itália, com o Milan, e certamente que o jovem de 18 anos, quando for preciso assumir a responsabilidade, estará mais preparado. Barrenechea está lesionado? É preciso fazer descansar João Palhinha? Quem é o terceiro médio? Avançou Manu para titular frente ao Omonia.
Pode resultar ou não, mas há coerência — e isso também conta pontos na gestão emocional de um plantel. Por detrás deste contexto, tem de existir uma boa escolha de plantel, mas, mais uma vez, é um trabalho no qual o treinador é decisivo.
O Benfica está bem e nem tudo se manterá assim durante a temporada, o que é normal, mas a forma transparente e determinada como Marco Silva está a desempenhar o seu papel é muito mais de meio caminho andado para chegar forte à fase das decisões.