Marco Silva, treinador do Benfica (foto: Imago)
Marco Silva, treinador do Benfica (foto: Imago)

Três palavras para Marco Silva no Benfica

'A Bola é Redonda' é o espaço de opinião quinzenal do jornalista Nélson Feiteirona

Há uma palavra que Marco Silva repete com frequência nas conferências de imprensa: identidade. A esta, juntaria outras duas para definir as sensações que, nesta altura, me transmite a equipa do Benfica, além da boa qualidade do seu futebol: honestidade e coerência. E as três estão relacionadas, sobretudo, com o trabalho da equipa técnica.

Em primeiro lugar, acredito que já não existem dúvidas e que é possível constatar que o Benfica tem uma identidade em campo. Mesmo quando os jogos correm menos bem, a bola não entra ou surgem debilidades defensivas, a ideia dos jogadores parece ser uma só: ter bola, com posses longas de preferência, pressionar sempre e atacar de forma clara a baliza do adversário na procura do golo. Parece fácil e até óbvio, porque é essa a essência do futebol, mas não é simples — nem sequer um plano assumido por todos os treinadores.

Já não existem dúvidas e que é possível constatar que o Benfica tem uma identidade em campo.

Depois, a honestidade. Para que os jogadores comprem as ideias do treinador é preciso que as entendam e que a comunicação, tanto sobre o que lhes é pedido como sobre a escolha de quem entra na equipa inicial, faça sentido num contexto de plantel, sem gatos escondidos com o rabo de fora. O que observo nas escolhas de Marco Silva e concluo das explicações que dá publicamente leva-me a acreditar que o técnico tem uma relação suficientemente honesta com os jogadores. Mesmo que alguns estejam menos satisfeitos do que outros, não me parece que Marco Silva tenha deixado alguém para trás.

Para que os jogadores comprem as ideias do treinador é preciso que as entendam.

Finalmente, a coerência. Mesmo tendo em conta que, na análise prévia de um jogo e na definição da equipa e da estratégia, é necessário avaliar o adversário e muito mais, sempre me custou aceitar que um treinador elogie em público as suas opções e jogadores em concreto — sobretudo a capacidade dos mais jovens — e que, quando há necessidade de recorrer a segundas e terceiras opções, adote adaptações ou tome decisões que denotam falta de confiança. É verdade que agora não há possibilidade de assistir aos treinos, que há lesões e limitações que muitas vezes são desconhecidas, mas tenho dificuldade em perceber como se elogia a capacidade de um Banjaqui, por exemplo, e, quando falta um lateral-direito, se opte por outra solução.

Marco Silva ficou sem Dedic, Bah lesionou-se e fez entrar Banjaqui. Deu-lhe minutos, nem sempre correu bem, mas já correu bem em Itália, com o Milan, e certamente que o jovem de 18 anos, quando for preciso assumir a responsabilidade, estará mais preparado. Barrenechea está lesionado? É preciso fazer descansar João Palhinha? Quem é o terceiro médio? Avançou Manu para titular frente ao Omonia.

É preciso fazer descansar João Palhinha? Quem é o terceiro médio?

Pode resultar ou não, mas há coerência — e isso também conta pontos na gestão emocional de um plantel. Por detrás deste contexto, tem de existir uma boa escolha de plantel, mas, mais uma vez, é um trabalho no qual o treinador é decisivo.

O Benfica está bem e nem tudo se manterá assim durante a temporada, o que é normal, mas a forma transparente e determinada como Marco Silva está a desempenhar o seu papel é muito mais de meio caminho andado para chegar forte à fase das decisões.

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