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Mery Andrade: «Não é fácil ser mulher treinadora-adjunta na NBA»

Parte 2 — «Nunca foi fácil ser a primeira», assume. Aos 50 anos e de pedra e cal no 'staff' da formação de Toronto, a ex-internacional portuguesa faz o balanço de três anos no maior palco do basquetebol mundial a dias de arrancar o 81.º campeonato da Liga, esta terça-feira. Em conversa com A BOLA, fala de futuro, da exigência com a nova geração, do crescimento da equipa e da alegria contagiante de ver o sucesso português além-fronteiras, assim como da admiração por Neemias Queta.

...Continuação.

— Sempre foi fácil ser uma mulher treinadora-adjunta em Toronto?
— Se sempre foi fácil? Não é fácil! Nunca foi fácil! [gargalhada] Não é 'sempre', nunca foi fácil! Às vezes é complicado ser a primeira, e isso traz dias bons e dias maus. Mas o Senhor Deus encontra sempre maneiras de me continuar a empurrar e a puxar por mim, e são essas coisas que eu aprecio. São essas as coisas que me desafiam e que me levaram a jogar durante tantos anos [16] como jogadora [nos Estados Unidos, em Itália e em Portugal]. Quando eu e a Ticha [Penicheiro] saímos de Portugal [para a Universidade de Old Dominion, em 1995/96] não era fácil. As pessoas pensavam que Portugal ficava no Texas... Conseguimos educá-las e penso que agora também estou nessa fase de educação: fazer com que vejam uma mulher a este nível.

— Essas barreiras que tem de ultrapassar estendem-se a toda a NBA? É algo específico de Toronto ou de toda a Liga?
— Sim, é em toda a NBA, é mesmo a cultura. Mas creio que às vezes é até pior na Europa! No entanto, como a minha mãe diz: 'Não querias ir de bicicleta? Agora pedala...'.

— Ainda está longe o dia em que haverá uma mulher como treinadora principal de uma equipa da NBA?
— Acho que sim, não vou estar aqui a… É claro que existe sempre alguém que quer ser diferente e pode fazê-lo, mas acredito que vai levar algum tempo. O importante é aquilo que se diz: Roma [e Pavia] não se fez num dia, não é? O fundamental é que essa construção seja sempre para a frente — e que, se for para baixo, seja apenas um passo e não dez.

— As treinadoras-adjuntas que estão na NBA — não sei quantas serão atualmente — trocam experiências entre si?
— Somos três. Não temos muito tempo, isto é tudo muito rápido. Estou aqui a falar consigo [após o jogo] e daqui a pouco já devia estar no autocarro [não o perdeu por menos de um minuto]... Mas tenho de admitir que não, não trocamos muitas experiências.

— Qual é o seu grande sonho atualmente?
— Desfrutar ao máximo desta experiência — o que é extremamente difícil para mim, porque estou sempre à procura de mais. Já como jogadora era muito competitiva e queria sempre mais e mais; como treinadora sou igual. Às vezes o querer mais não me permite estar onde os meus pés assentam. Estou já a pensar no futuro ou a refletir sobre o passado porque quero melhorar, e então o presente — onde estou — por vezes não me deixa tirar satisfação dele. Só me apercebo disso quando volto à Europa e estou a falar com amigos, treinadores ou colegas que me fazem perguntas: eu respondo com a maior das naturalidades e depois vejo que não é assim tão normal.

Fotografia Toronto Raptors

— A chegada do Kawhi Leonard a Toronto [ex-Clippers, grande transferência do defeso e campeão pelos Raptors em 2018/19] mudou muito a mentalidade da equipa e da cidade…?
— Não, ele por acaso tem sido espetacular. Eu estou naquela fase de observação, porque não me encontrava cá quando eles ganharam [o título], mas foi sempre muito aberto. Disse: «Não estou cá para tirar o trabalho a ninguém, estou cá para ajudar». Ele às vezes fala pouco, como toda a gente sabe, mas é uma pessoa divertida e quando fala faz rir. Contudo, é muito cirúrgico no que diz: «Stop» — e toda a gente para. «Isto, isto e isto». Acabou.

— Os Raptors são candidatos ao título de Este?
— Nós trabalhamos para isso, não é? Só que não fomos só nós que melhorámos. Filadélfia [76'ers] e Miami [Heat] — com quem tivemos oportunidade de jogar no defeso — também melhoraram. Toda a gente trabalha no princípio do ano, que é quando se pode sonhar e ver onde o trabalho nos pode levar. Mas, com 82 jogos [só na fase regular], também é preciso ter sorte: as lesões influenciam muito o tipo de época que tens, o ranking em que vais ficar e como chegas ao fim…

— Onde se consegue estar?
— Exatamente. E com quem se consegue estar ali dentro de campo.

Em fevereiro, Mery teve oportunidade de estar no 'banco' do All-Star Game em Los Angeles integrada na equipa técnica de Darko Rajakovic

— O Este está mais competitivo do que nunca nos últimos anos?
— Absolutamente sim, absolutamente sim.

— Se pudesse alterar uma regra na NBA, qual seria?
— Elas já mudam tanto que eu só gostava que houvesse consistência! Mais do que alterar, gostava de consistência na parte física do jogo — que eu adoro —, mas que estão sempre a mexer: num ano metem, noutro tiram. Mas também percebo porquê: os jogadores da NBA são tão espertos... E nós fazemos o mesmo: estudamos a regra para ver até que limite podemos tirar partido dela. Por essa razão acho que não mudava nada, só queria que fosse mais consistente.

— Hoje em dia, ao falar da NBA, é difícil não falar do Neemias Queta. Na época passada, só num dos jogos em que atuou [de 76] é que não integrou o cinco inicial; foi votado para o Cinco Ideal de Defensores e para o Jogador que Mais Evoluiu. Como viu a época passada do Neemias?
—Disse-lhe que estava superorgulhosa dele, porque sei que não tem problemas em trabalhar. Uma das coisas que estou a aprender, mesmo como treinadora, é que meter a cabeça para baixo e trabalhar, trabalhar, trabalhar não garante que sejas reconhecido — pois depende da equipa em que estás e da sorte —, mas se não trabalhares, uma coisa é certa: não vais ter oportunidades. Fico muito contente por ele, porque mete o trabalho, teve a oportunidade, soube agarrá-la e ainda teve o contrato renovado.

Mery Andrade com os pastéis de nata para amolecer Neemias Queta antes do jogo contra os Raptors Fotografia Toronto Raptors

— Continua a dar-lhe gozo defrontá-lo?
— Sim, sim… Tento sempre acalmá-lo um bocado com uns pastéis de nata, pastéis de bacalhau… Fica todo contente, é mesmo um miúdo! Mas sim, gosto quando as pessoas dizem your boy [o teu rapaz] — é o reconhecimento da comunidade portuguesa.

— Sobre esse reconhecimento da comunidade: está em Toronto, onde a comunidade portuguesa é muito grande…
— Espetacular!

— É reconhecida em Toronto como treinadora-adjunta e como antiga internacional portuguesa?
— Sim, em alguns eventos. Pedem-me sempre para falar da experiência e acho que isso é positivo. Penso que fazem um bom trabalho, mesmo a embaixada. Tive de recorrer à embaixada e foram superprestáveis: dão tudo para ajudar e para te fazer sentir bem. Dizem: «Mery, Mery, tem de cá vir comer…». Tanto aqui como quando jogamos em Miami, no Old Lisbon [restaurante], que é espetacular — o Chef Carlos é incrível!

— Já estou a ver que os portugueses vão lá parar todos aos mesmos locais…
— Todos! Sentemo-nos mesmo em casa. É muito bom quando se está fora — e por vezes há dias que não correm tão bem — chegar ali, ouvir o nosso português e comer a nossa comidinha…

Fotografia Toronto Raptors

— Uma última pergunta, pois tem de ir embora: há oito épocas consecutivas que o campeão da NBA é diferente — num ciclo que começou em 2019 com os Raptors. Este ciclo vai continuar ou vocês vão interrompê-lo e repetir o título?
— [palmas] Vamos lá, vamos lá! É empurrar, é empurrar!

— Uma boa temporada, que corra tudo bem e a continuar a crescer como tem acontecido.
— Obrigada, obrigada!

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