Águas: o estudante do ISEF que 'praxou' o Sporting antes de chegar a presidente de Câmara
A primeira ninguém esquece. Então se for a única muito menos… É, precisamente, bem longe do esquecimento que em Viseu se revive o primeiro e único triunfo do Académico contra o Sporting e logo em Alvalade.
Aconteceu a 20 de janeiro de 1981, «uma terça-feira», lembra, em entrevista A BOLA, Carlos Marta — Águas, no mundo do futebol —, o autor do único golo da partida: «Foi na recarga de um pontapé livre, com o pé esquerdo e eu, ainda por cima, jogava fundamentalmente com o pé direito. Fiz um remate fora da área e consegui fazer golo.»
Quatro décadas e meia depois, o ex-jogador de 69 anos ainda recorda o relato do jogo feito pelo antigo jornalista e diretor-adjunto do nosso jornal, Santos Neves: «Fizemos uma extraordinária exibição, relatada muito bem pelo jornalista de A BOLA Santos Neves, que foi o autor dessa crónica. Vencemos por 1-0. Esse resultado não só foi impactante por ter sido a primeira e única vitória do Académico em Alvalade, como também foi muito importante para a manutenção na primeira divisão. Nesse ano, mantivemo-nos por um ponto.»
A tirar a licenciatura no Instituto Superior de Educação Física (ISEF), em Lisboa, Águas faltava a mais de metade dos treinos da equipa. Ainda assim, e apesar de ser o único do plantel beirão nessa condição, terminou a época como o jogador com mais jogos nas pernas: «Nos dois anos que joguei no Académico — já tinha jogado no ano anterior, na subida de divisão, também a estudar em Lisboa — estava no ISEF e só vinha à quinta-feira para Viseu. Tinha aulas até quinta e durante a época toda, fui sempre titular. Treinava sozinho em Lisboa, no Estádio Nacional, e consegui ter um papel muito importante. Fiz muitos jogos [37].»
«Os jogos normalmente eram ao domingo à tarde. À noite, apanhava o comboio outra vez em Santa Comba ou em Coimbra para ter aulas às 8 da manhã de segunda-feira. Era um esforço grande», confessa o antigo médio-direito. Porém, recorde-se que aquele jogo foi a uma terça-feira e em Lisboa, o que permitiu a Águas estar ainda mais fresco. «Tinha sido adiado, porque o Sporting tinha feito uma viagem ao Brasil», evoca, acrescentando a curiosidade de que o treinador dos viriatos para aquela época, «o professor Zé Moniz, tinha acabado de ser despedido e ficou o professor Idalino de Almeida, que era o adjunto à época».
«A intenção era pontuar e fazer o melhor resultado possível» e assim aconteceu, mesmo diante dos craques que o leões apresentavam: «Foi uma noite histórica. O Sporting à época tinha excelentes jogadores, como o Eurico Gomes, o Inácio, o Fraguito, o Jordão, o Ademar... O treinador era o Radisic….»
«Foi um grande momento da vida desportiva do Académico e da minha vida também, por ter feito o golo da vitória a um conterrâneo meu, também de Viseu — eu de Tondela, ele de Penalva do Castelo —, o guarda-redes do Sporting, que era o Vaz e, entretanto, já faleceu», rematou Águas, tal como fez (e muito bem) naquela noite de 20 de janeiro de 1981.
Depois de pendurar as botas, no Mangualde (1987/88), a alcunha de Águas — que tinha surgido por culpa de José Águas, apesar de não pertencer à família do bicampeão europeu pelo Benfica (1961 e 1962) — foi abandonada e passou a assumir-se como Carlos Marta — foi com esse nome que ficou conhecido no mundo da política, sobretudo, por ter sido presidente da Câmara Municipal de Tondela (de onde é natural) entre 2001 e 2013.
Hoje, o ex-jogador nascido em 1957 é vice-presidente do Tondela — «o clube de coração», salienta — e diretor-geral da SAD dos auriverdes.