Em entrevista exclusiva n' A BOLA Toni recorda, no Museu do Benfica, os troféus e uma vida recheada de histórias.
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Toni, 80 anos: «O futebol deu-me mais do que aquilo que eu lhe dei»

O bigode continua a ser uma imagem de marca de alguém que é para todos «o Toni do Benfica», mas que foi conquistando a admiração até dos rivais mais diretos. Toni faz 80 anos a sorrir para a vida!

A última entrevista tinha sido realizada aos 75 anos. Na altura fomos até ao Castelo de São Jorge ver Lisboa e tínhamos combinado voltar a colocar a conversa em dia quando fizesse 80 anos. Antes da festa fomos até ao Museu do Benfica, na Luz, olhar para alguns dos muitos troféus que fazem parte da carreira do Toni, jogador, treinador e dirigente. Quisemos a meio da entrevista surpreender Toni com a presença do filho, também de nome António Oliveira, que fez parte da entrevista connosco. Uma entrevista conjunta, a olhar para uma carreira recheada de vida.

— Qual é o significado de aos 80 anos fazermos esta viagem no tempo por uma história que vai ficar sempre do Toni do Benfica?

— Nesta altura, quando oito décadas estão quase passadas, vir a um espaço que é um espaço de memória é muito saboroso. Aqui podes percorrer, não digo todas essas décadas, mas uma parte grande da minha vida e, por isso, escolher o Museu do Benfica é falar dessa história à qual eu estarei ligado. Há aqui muitas alegrias, muitas tristezas, muito suor e muitas lágrimas pelo meio. É uma vida que foi vivida com muita intensidade, com muita paixão e, sem esquecer, naturalmente, que aqui não está outra parte do passado.

— Falta a parte das origens... Aqui está a parte pública. Mas, nunca se esquece Mogofores, o Anadia e, como me diz sempre, a Associação Académica de Coimbra.

— Verdade e que, felizmente, volta a ser de novo a Associação Académica de Coimbra (risos).

— Quando fez 75 anos falávamos das Bodas de Diamante. Agora aos 80 diz-se que são as Bodas de Carvalho ou de Nogueira porque significam raízes fortes e com muita memória. Nem de propósito, estamos num espaço de memória. Orgulha-se dessas raízes fortes?

— Olhando para trás, há um orgulho muito grande em todo o trajeto porque se parte de alguém que vinha carregado de sonhos e que de repente vê o Everest pela frente. Quando tu chegas a um clube de uma dimensão universal, como era o Benfica, e com jogadores de classe mundial, tu sabes que para todos esses sonhos se transformarem em realidade, vai ser preciso muita resiliência, que é uma palavra de hoje. Naquela altura era de muita vontade, muito querer, muita determinação e muito suor, para poder conseguir fazer um trajeto do qual me orgulho muito, mas contei com a ajuda dos companheiros, porque na vida não fazemos as coisas sozinhos.

Nem sonhei que podia chegar tão longe, como acabei por chegar

— No Benfica começou em 1968/69.

— É verdade. E se tu quiseres aqui ligar uma parte do ponto de vista desportivo e outra do ponto de vista social, falamos dessa final da Taça de Portugal, que não é transmitida pela televisão, em 1969. Foi uma manifestação que foi feita a céu aberto no Estádio Nacional e onde, tal como a canção do Sérgio Godinho, pedia habitação, educação, saúde… Estavam lá esses cartazes, porque a PIDE não conseguiu tirá-los. Hoje continuas a reclamar o mesmo: saúde, educação e habitação. Foi uma final que extravasou o futebol, porque essa final foi mais do que um jogo de futebol. Muito mais. Esta final tem um significado muito especial pois marca a academia de Coimbra, porque mobilizou muita gente e que esse jogo também ajudou a que o Estado Novo se enfraquecesse e passado poucos anos se desse o 25 de Abril de 1974.

— Nessa altura o mundo era preto e branco. Vivia-se em ditadura, mas havia tantos sonhos. Esse futebol, essa magia e esse Toni nunca imaginou que mais tarde seria este Toni que tenho aqui à minha frente?

— Nem eu sonhei que podia chegar tão longe como acabei por chegar. Tudo isso pode estar no teu imaginário, nos teus sonhos, mas... Não há vitórias individuais no futebol e elas são fruto do esforço de muita gente. Naquela altura estavam também a nascer o Nené, o Humberto, o Vítor Martins, o Shéu, que acabaram por fazer uma carreira brilhante dentro do Benfica. E todos eles alimentavam os mesmos sonhos. Partilhámos todos esses sonhos. Depois, chegar a preencher uma carreira onde depois, além de jogador, acabo por ser treinador adjunto e depois chegar a treinador principal, tudo isso é qualquer coisa… Sair do Anadia para a Associação Académica de Coimbra, e depois Benfica, nunca me levou a imaginar que o ponto alto, além de ser jogador, viria a ser também treinador.

— Conquistou quatro Taças de Portugal pelo Benfica, como jogador e oito campeonatos.

— A vitrine aqui no museu está cheia… O oito era um número que eu usei muitas vezes. O oito e o seis também.

— Como é que era o Benfica em que jogou?

— Era um Benfica que tinha ainda grandes jogadores da década de 60 e esses marcaram uma história dentro do clube, porque ninguém foi campeão europeu a não ser os jogadores dessa década. E esses devem estar num pedestal diferente. Eu chego numa fase de transição ao Benfica, onde ainda estavam o senhor Mário Coluna, o Cruz, o Cavém, Simões, José Augusto, Eusébio... Era um Benfica que fez a sua renovação porque terminaram grandes figuras e jogadores que vão chegando. Sempre na ideia de tentar ir buscar os melhores para dentro do clube. É um plantel que chega a ter como avançados Eusébio, Nené, Artur Jorge, Vítor Batista e Jordão.

— Na carreira, ser jogador foram os melhores anos?

— Ah sim. Cheguei em 1968, joguei até 1981 e conquistei oito campeonatos, quatro taças, umas taças de honra pelo meio.

— Eu perguntava isso porque ao fim destes anos todos em que já nos conhecemos, ainda não percebi bem o que é que o Toni é. É ex-jogador? Ex-treinador? É dirigente? Se tivesse de escolher uma coisa, o que é que era o Toni?

— Eu cumpri, dentro do Benfica, um ciclo que começou como jogador, passou como treinador e depois dirigente. E se te disser que talvez o meu desejo maior, mesmo já quando os 80 anos estavam à porta, era poder fechar de novo o ciclo no Benfica. Mas, os caminhos não se cruzaram. Mas, sem mágoas, porque as mágoas azedam a vida. Então, acabei por fechar um ciclo no sítio onde hoje estou, o que é um orgulho muito grande, onde também fui jogador, fui treinador, e acabei por fazer parte, como membro da Direção [da FPF].

Mesmo com 80 anos ainda tenho um sonho. E esse sonho passa pelo Campeonato do Mundo de 2030

— A Federação Portuguesa de Futebol, onde está, é o último projeto que quer abraçar?

— Não. Eu ainda tenho um sonho. Mesmo com 80 anos ainda tenho um sonho. E esse sonho passa pelo Campeonato do Mundo de 2030. Eu tenho esse sonho. Não sei se ele será ou não concretizado. Lembro-me que depois da última conversa que tivemos, o Covid-19 apressou a minha despedida como treinador, mesmo sem nunca ter assumido que fechava a carreira de treinador. Mas, a paixão pelo futebol não morreu. É a grande paixão da minha vida, mesmo com 80 anos.

— E com muitas memórias…

— Muitas mesmo. Por exemplo, com Eriksson tenho algumas. É alguém que deixou uma marca em todos os jogadores do Benfica, da sua época, e em todos os desportistas portugueses, porque ele soube ganhar o respeito e a admiração de todos. Ele deixou em todos um legado que nos deixa a todos orgulhosos de o ter tido como amigo e como treinador. Aliás, ele tem um momento em que ele anunciou a sua morte e tem uma frase que nunca vou esquecer: « Não chorem pela minha morte, porque a minha viagem foi fantástica. Vivam a vida.» E eu posso dizer-te também: não chorem a minha morte, porque a minha viagem tem sido fantástica dentro do futebol e fora dele. Vivam a vida.

— E quando se chega aos 80 anos, e se começa a recordar aquilo que foi o caminho, o que custa mais é recordar o vazio que fica com quem vai embora?

— Sim. Eu olho muito para as fotografias e no onze, há sempre quatro ou cinco que já partiram. É um bocado de nós que parte também porque partilhámos momentos importantes. Ficamos com muita saudade de muitos deles.

Toni a ser entrevistado pela jornalista Irene Palma e a recordar os 8 títulos de campeão que conquistou como jogador do Benfica FOTO: Miguel Nunes

— Com o passar dos anos, começa-se a ter medo da morte ou começa-se a ficar em paz?

— Eu não tenho medo de ter medo. Eu penso que foi uma frase que já te disse, na outra entrevista dos 75 anos. Não tenho medo de ter medo, há que envelhecer de uma forma feliz. Eu estou a sentir que estou com saúde. Com alguns percalços, e alguns até que já fui apanhado na curva, mas que deu para fintar. Mas, tenho a família, os amigos e depois o futebol, ao qual ainda continuo ligado. Portanto, eu sinto que sou feliz. Estou a caminhar na idade, estou a envelhecer, mas não estou com medo que a morte chegue. Ela tem que chegar, mas não há que pensar na morte. Alguém que há pouco li dizia, numa reflexão, «sem tempo para perder tempo». A senhora vai fazer 91, eu 80. Sem tempo para perder tempo. Há que desfrutar de cada dia como fosse o último dia.

Há aqui muitas alegrias, muitas tristezas, muito suor e muitas lágrimas pelo meio

— Hoje não tem lugar no relvado, não tem lugar no banco de suplentes, não tem lugar como diretor, tem lugar na tribuna presidencial e vejo-o muitas vezes ao lado do presidente Rui Costa a ver os jogos do Benfica. Esta ligação ao futebol também lhe dá vida e ainda há um caminho para ser feito?

— Sinto isso e daí dizer que a paixão pelo futebol não morreu nem vai morrer. Só vai morrer naquele dia em que eu fechar os olhos e acabar. Porque foi o futebol que me deu tudo. E eu penso que o futebol deu-me mais do que aquilo que eu lhe dei. E, por isso, esta paixão vai ser até ao fim dos meus dias. São muitos anos dentro de um clube e mesmo estando fora, eu nunca estou lá fora. Estou sempre fora cá dentro. Porque esse tempo passado aqui dentro deixou marcas muito profundas. O Benfica será sempre algo indissociável. Sei que estou na história deste clube e a história não se pode apagar.

Era alguém que vinha de Mogofores carregado de sonhos e que de repente vê o Everest pela frente

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