Futebol português: estamos a ficar para trás
As competições europeias são o expoente máximo do futebol de clubes. Todos querem estar presentes: jogadores, treinadores, adeptos e dirigentes, num futebol em que os clubes são hoje verdadeiras marcas. Estas competições são também um excelente barómetro para avaliar a evolução do futebol português e perceber o lugar que ocupamos e queremos ocupar na Europa.
Lei Bosman: tudo mudou
A inda sou do tempo em que as equipas portuguesas lutavam para vencer competições europeias. Antes da Lei Bosman, até meados da década de 90, os clubes portugueses tinham capacidade para competir com os principais clubes europeus. Nessa altura, os clubes eram geridos como associações, e não como marcas. O dinheiro não tinha o peso de hoje e existiam limitações à utilização de jogadores estrangeiros. Com a aprovação da Lei Bosman, o futebol europeu começou a mudar.
Mais longe dos melhores
Se analisarmos as nossas prestações nas competições europeias nos últimos anos, percebemos que estamos a seguir um caminho pouco positivo. Apesar de, pontualmente, conseguirmos ter equipas que fazem bons percursos, estamos cada vez mais distantes dos mais fortes e mais próximos dos que antes estavam atrás de nós. Esta evolução pode até ser natural, mas também resulta de demérito próprio.
A minha preocupação não se limita aos resultados. Quando vemos jogos da UEFA Champions League, percebemos que países como a Áustria, a Bélgica, a Turquia ou a Noruega estão cada vez mais presentes. Mais do que essa presença, preocupa-me a evolução que demonstram dentro de campo. São equipas organizadas, com ideias claras, que procuram dominar os jogos, estudam os adversários e não têm medo de assumir riscos. Conseguem aliar a sua cultura desportiva ao crescimento coletivo.
A Noruega é um bom exemplo desta evolução. Na última época, o Bodo/Glimt fez um percurso extraordinário na UEFA Champions League e, esta temporada, tem duas equipas, Bodo/Glimt e Viking, na fase de liga da competição. Este crescimento também se reflete na seleção nacional e resulta de um trabalho de base consistente, com investimento na formação e no desenvolvimento de jovens jogadores.
O meu receio é que a vantagem competitiva que construímos no início deste século esteja a diminuir e possa mesmo ser ultrapassada por países que antes tinham menor expressão europeia. Além disso, muitos destes países beneficiam de economias mais fortes, que lhes permitem gerar receitas superiores às nossas.
Vantagem está a desaparecer
O desenvolvimento de talento foi fundamental para que os nossos clubes tivessem jogadores de qualidade, conseguissem realizar vendas avultadas e mantivessem equipas competitivas. Benfica, FC Porto e Sporting souberam trabalhar esta área, apostando na formação, na metodologia, nas infraestruturas e na valorização dos jogadores.
Contudo, o profissionalismo que demonstrámos neste segmento não teve correspondência na gestão global dos clubes. Se na formação conseguimos ser profissionais, fora dos relvados não acompanhámos a evolução. Continuamos, em muitos aspetos, a gerir os clubes e as competições como se estivéssemos nos anos 80 ou 90.
Hoje, a concorrência é maior. Temos mais dificuldades em chegar precocemente ao talento internacional, numa altura em que enfrentamos clubes com maior capacidade financeira. Ao mesmo tempo, outras ligas estão a crescer, a tornar-se mais competitivas e a ganhar valor no mercado. A vantagem que os nossos clubes construíram está, assim, a diminuir.
A pergunta é simples: desportivamente, em que se converteram os milhões que Benfica, FC Porto e Sporting arrecadaram ao longo dos anos? A resposta não é animadora. Financeiramente, os três clubes continuam a enfrentar dificuldades. O Sporting está mais desafogado, mas beneficiou de uma reestruturação financeira que lhe permitiu recomprar as VMOC ao BCP e ao Novo Banco por valores muito inferiores aos inicialmente previstos. Desportivamente, temos cada vez mais dificuldades em manter jogadores diferenciados e construir plantéis com a qualidade de outros tempos.
Nos últimos vinte anos, tivemos uma vantagem humana e financeira que não soubemos transformar numa evolução sustentada. Pelo contrário, em aspetos fundamentais, estamos hoje mais frágeis.
Perdemos na credibilidade
Outra área em que estamos a perder é na credibilidade, e isso pode diminuir a nossa capacidade de atrair talento e de gerar maior competitividade interna. Muitos dos castigos disciplinares e das multas aplicados nas nossas competições não têm um efeito dissuasor. Fica a sensação de que, em Portugal, se procura evitar incómodos, sobretudo quando estão envolvidos os grandes clubes.
O caso de Cristiano Ronaldo é mais um exemplo. A multa de 255 euros e a suspensão de 30 dias aplicadas na sequência do abandono do estágio da Seleção dificilmente transmite, por si só, uma mensagem de rigor. Pedro Proença insistiu publicamente na vontade de ter o capitão de regresso, apelando à tranquilidade e desvalorizando o sucedido. Pela dimensão do jogador, a prioridade pareceu ser resolver rapidamente o problema, mas será essa a melhor forma de proteger a credibilidade das instituições?
Imaginemos que Pedro Proença liderava a Premier League. Como reagiria ao caso do Manchester City? A comissão independente que analisou o processo considerou provadas as infrações financeiras em causa, embora o Manchester City tenha recorrido da decisão e a sanção ainda esteja por definir. As notícias apontam para a possibilidade de um castigo pesado, caso a decisão se confirme, que poderá servir de exemplo para outros clubes e reforçar a importância do cumprimento das regras.
É aqui que está a diferença: uma instituição pode procurar evitar incómodos no curto prazo, mas tem de estar preparada para tomar decisões difíceis quando está em causa a sua credibilidade ou das suas competições. Essas decisões podem ter custos imediatos, mas, a longo prazo, são fundamentais para garantir que as regras são respeitadas e que todos acreditam na justiça da competição.
Respondeu dentro do relvado a rumores sobre a sua importância no PSG.
Em seis anos tem quatro finais da Taça dos Libertadores. Pode-se não gostar do estilo, mas o treinador tem demonstrado muita competência e competitividade.