Guarda-redes que apurou o Olhanense na Taça treina com o irmão que joga no Benfica
João Félix, guarda-redes de 23 anos, esteve em evidência na 3.ª eliminatória da Taça de Portugal e no apuramento Olhanense, que afastou o Oliveira do Hospital, líder da Série C do Campeonato de Portugal. Os rubro-negros são agora o único representante dos campeonatos distritais na prova rainha. Com uma exibição memorável, defendeu três grandes penalidades e assumiu a responsabilidade de marcar o que decidiu a passagem do clube algarvio.
«Sinceramente não pensei nada, só que tinha de marcar o golo para acabar logo com a eliminatória», revelou a A BOLA, sobre o que sentiu quando correu para apontar o 17.º penálti do desempate e que acabou por decidir a eliminatória. Questionado sobre se o conhecimento da posição de guarda-redes lhe confere uma vantagem no momento de rematar, a resposta foi elucidativa: «Sim, porque eu também sei o que é que não gosto que me façam. Dá para tirar vantagem e tentar depois bater da melhor maneira.»
A abordagem à bola foi quase pausada, o que surpreendeu Lucas Silva, o guardião contrário. «Para quem não me conhece, o que é normal, não sabe como é que eu bato. Mas nos treinos faço sempre assim, porque quanto mais tempo se demora a chegar à bola, mais o guarda-redes vai ficar na indecisão e fica nervoso. E depois, quando se chega à bola, ele vai ter de escolher um lado e só temos de a meter no outro», explicou.
Para além do golo marcado, a defender João Félix também foi um alicerce do triunfo algarvio, ao deter três penáltis durante a série de desempate. «É um momento do jogo que, entre aspas, eu gosto e... não gosto, porque ter um penálti contra é sempre chato. Mas estou sempre confiante nesses momentos», assinalou o guardião, cujo feito – defender três penáltis – não é inédito e até aconteceu contra uma equipa treinada por Ivo Soares, o seu atual treinador, em 2024/25, no embate entre o Moncarapachense, que representava, e o Ferreiras, na Taça do Algarve.
Quiçá, o seu historial foi determinante para o técnico ter alterado o nome de quem iria avançar para a grande penalidade decisiva, apostando em João Félix. «Ele conhece-me bem. Mostrou confiança e eu assumi essa responsabilidade», disse.
Houve quem comparasse este feito com o de Ricardo Pereira, no Euro 2004, frente à Inglaterra. À pergunta sobre se já é tratado como o "Ricardo do Olhanense", respondeu, entre risos: «Não, ainda não. Apesar de ontem termos brincado um bocado, mas não.»
O jovem guardião é irmão de Nuno Félix, do Benfica. Nuno, que já se estreou pela equipa principal dos encarnados e atualmente atua na equipa B após recuperar de uma lesão grave, tem sido um parceiro nos treinos de aperfeiçoamento. «Ele esteve a ver o jogo. No verão, antes de começarem os treinos, nós estivemos a trabalhar para irmos mais em forma e treinávamos a marcação de penáltis. Eu a bater, ele a defender, e depois trocávamos. Ele sabe que é um momento que eu sou forte», revelou João Félix, que deu os primeiros passos no Portimonense, passando depois pela Académica, antes de ingressar no Benfica em 2022/23. Nas duas últimas épocas jogou no Moncarapachense.
João Félix conta que recebeu muitos telefonemas e mensagens após o jogo, «maioritariamente da família e amigos», entre os quais alguns com quem partilhou o balneário no Benfica, como Diogo Prioste, José Melro e João Veloso. Por isso, um reencontro com os encarnados na próxima eliminatória, seria o ideal e de preferência com o irmão Nuno em campo: «Se isso se proporcionar, é sempre especial jogar contra o meu irmão. Mas se não for o Benfica, qualquer adversário será bom.»
João Félix foi cartada de última hora de Ivo Soares
Treinador do Olhanense inverteu a ordem dos marcadores das grandes penalidades ao sentir o guarda-redes cheio de confiança
Ivo Soares, treinador do Olhanense, revelou que não era João Félix que, inicialmente, iria apontar o penálti: «Não, não era para ser ele. Por acaso ensaiámos também com ele na sexta-feira passada e já tínhamos visto que ele tinha capacidade para o fazer. Senti-o cheio de confiança naquele momento e por isso inverti a ordem dos batedores.»
Ivo Soares explicou onde o clube vai buscar argumentos para bater o pé a adversários de escalões superiores. «Em trabalho, organização, jogarmos também com os pergaminhos do clube, ou seja, uma equipa a jogar com alma, chama, acreditar naquilo que é a história do clube, da cidade. São valores que nos elevam para tentar ombrear com estas equipas e para nos superar todos os dias», apontou.
A perder por 1-0 ao intervalo, o técnico revelou o que disse aos jogadores. «Disse que estávamos vivos, mas que não podíamos cometer mais nenhum erro defensivo, como no golo que sofremos. E que se acreditassem realmente com alma e com coração na nossa forma de jogar e de treinar, íamos ter possibilidades», assinalou.
Único representante dos distritais em prova, o Olhanense mantém o realismo, quanto ao percurso na competição. «A partir de agora as dificuldades vão ser cada vez maiores. Queremos dignificar a camisola, ter visibilidade, mas sabemos que as nossas possibilidades de seguir em frente são muito curtas. E nunca esquecendo que o nosso objetivo é o 1.º lugar no nosso campeonato», afirmou, desejando defrontar agora um grande: «Seria um prémio para Olhão e para os jogadores.»