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Pelé: a eternidade não se escreve sozinha
Pelé fez anos ontem. Teria feito 86. Os mortos obrigam a estes cuidados com os verbos. Com o resto somos menos cuidadosos. Dizemos que são eternos e seguimos para a notícia seguinte. Um treinador levantou a sobrancelha. Um avançado apagou uma fotografia. Há uma polémica, há sempre uma polémica. Pelé pode esperar. E espera.
Nasceu a 23 de outubro de 1940, em Três Corações. O calendário fez o seu trabalho. Houve homenagens, notícias, quem lhe devolvesse o nome e o rosto. Não houve silêncio absoluto. Mas há uma enorme distância entre recordar uma data e guardar um lugar. A memória também exige tempo. E o tempo está todo vendido ao próximo assunto.
Pelé é eterno, dizemos. A frase sai limpa, pronta, sem esforço. Serve numa legenda, numa cerimónia, numa despedida. Depois fechamos a gaveta. A eternidade fica lá dentro, arrumada, a não incomodar a atualidade. Até ao próximo aniversário. Até que alguém se lembre de que é preciso lembrar. Estranha forma de tratar um imortal. Dar-lhe uma palavra tão grande e um espaço tão pequeno.
Não interessa saber se foi o melhor de sempre. Essa discussão transforma o futebol numa repartição onde se conferem números para atribuir uma licença de grandeza. Há sempre alguém com mais um argumento, mais uma estatística, mais um vídeo escolhido para encerrar a conversa. O debate nunca acaba. Mais importante é o que Pelé tornou possível imaginar.
Antes dele, existiram grandes jogadores. houve gigantes. ídolos. Mas Pelé foi o primeiro herói que atingiu uma dimensão capaz de ultrapassar o futebol. O seu nome chegava onde não se ouviam os relatos. Uma palavra. Só uma palavra. Pelé. Era o que bastava. Nunca precisou de tradução, de explicação, de uma lista de títulos. O mundo inteiro cabia num só nome de quatro letras.
Em 1958, um rapaz de 17 anos ajudou o Brasil a conquistar o seu primeiro Mundial. Voltou a ser campeão em 1962. Em 1970, depois de tantas pancadas de adversários incapazes de o travar de outra maneira, continuava a inventar futebol e conquistou o terceiro. Mas os títulos contam apenas a parte da história.
O resto (e o resto é tanto) está num gesto. Em todos os gestos. A bola levantada sobre um defesa antes do remate na final de 1958. O cabeceamento, em 1970, que obrigou Banks a fazer uma das defesas mais memoráveis da história. A bola deixada passar diante de um guarda-redes, o corpo a ir pelo outro lado, a possibilidade de um golo nascida de não tocar na bola. Essa que não entrou. E até o falhanço ganhou direito a ficar exibido em galeria. É preciso ser muito grande para deixar saudades de golos que não marcou.
Não havia uma câmara em cada bolso. Não havia a obrigação de produzir uma eternidade por semana. Havia um jogador a encontrar soluções que os outros ainda não tinham formulado como problema. O espanto vinha antes da repetição. Hoje repetimos tanto que, às vezes, já nem conseguimos espantar-nos.
Também houve o homem. Com contradições, escolhas discutíveis, silêncios. Cobraram-lhe não se ter levantado contra a ditadura brasileira. A pergunta é legítima. A utilização política das suas vitórias também faz parte da história. A grandeza de um jogador não deve servir para apagar o que nos desagrada no cidadão.
Mas convém não transformar a coragem numa tarefa simples, prescrita à distância por quem não arrisca nada. É fácil escolher as palavras que outro deveria ter dito quando não somos nós a enfrentar as consequências. O medo não desaparece porque alguém sabe jogar à bola. Uma camisola 10 não protege um homem de um regime. Podemos julgar um silêncio sem fingir que teria sido fácil quebrá-lo.
Recordar Pelé não exige que se desculpe tudo. Exige que se conheça a sua história antes de lançar a acusação. Também é para isso que serve a memória. Para impedir que uma vida inteira fique reduzida ao que dá mais jeito dizer sobre ela.
O presente habituou-nos a essa pressa. Mastigar. Engolir. Deitar fora. O grande jogo de ontem já estorva a antevisão de amanhã. Um talento é anunciado como geracional antes de ter uma geração para o medir. Uma semana chega para o promover. Outra chega para o descartar. Queremos história, desde que acabe de acontecer.
Aos jogadores que hoje se imaginam instalados num lugar divino, imune ao calendário, talvez convenha olhar para aqui. Como medida. Os seguidores não são uma garantia de memória. O ruído à volta de um nome pode acabar sem que esse nome tenha deixado de merecer ser ouvido. Se até Pelé precisa que alguém lhe abra espaço, nenhum aplauso de hoje garante que amanhã se lembrem de nós.
Não se exige que cada aniversário interrompa o mundo. Exige-se alguma coerência entre a eternidade que proclamamos e a atenção que concedemos. Uma página. Uma conversa. Um pai a mostrar um lance a um filho. Alguém que conte por que razão aquele nome importa, em vez de presumir que o nome se explica sozinho.
As pessoas morrem. Pelé também morreu. Mas o que fez não tem de morrer por falta de quem o conte. Ontem fez anos. Hoje ainda vamos a tempo.
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