«Rui Borges? Ninguém pode fugir com o rabo à seringa»
O universo leonino está, por estes dias, em brasas na sequência do empate com o Arouca, em Alvalade, depois de o Sporting ter estado em vantagem, tal com aconteceu com E. Amadora (2-2) e Famalicão (1-1).
Rui Borges tem a cabeça no cepo, como se diz na gíria, com muitas vozes a levantarem-se a favor da saída do treinador, depois de lenços brancos exibidos no último jogo em Alvalade, mas tal não é o entendimento da SAD leonina, como A BOLA já adiantou.
Augusto Inácio, antigo treinador que já conduziu os leões à conquista do título nacional em 1999/2000, entende o momento e defende que Rui Borges não pode ser apontado como único culpado.
«Tudo isto que se está a passar não se pode apontado apenas a um único homem. Sei que é o mais frágil quando a equipa não ganha, mas apontar a culpa só para ele acho que é redutor, até porque foi Frederico Varandas que quis cortar com muita coisa que deu muita coisa boa ao Sporting. A partir do momento em que saem muitos jogadores... E não se compreende aquela expressão de 'fim de ciclo' quando Pote [Pedro Gonçalves], três meses antes, renovou contrato até 2030, e o Trincão a mesma coisa, este com 26 anos fez uma época fantástica e extraordinária. Diria que Varandas optou por uma mudança radical, a partir daí o treinador tem de fazer uma equipa nova, e já se sabe que há altos e baixos nas coisas em construção. Naturalmente, depois há sempre aquela crítica quando não se ganha porque não fez isto, devia-se ter feito aquilo, porque o Sporting tem estado sempre em vantagem e depois perde essa vantagem, mas Isto não é só de agora, no ano passado aconteceu a mesma coisa», afirmou.
«Depois de perder a final da Taça de Portugal, Frederico Varandas renovou contrato com Rui Borges acreditando no trabalho dele. O que é certo é que os pontos agora estão a ser dilatados em desvantagem, o resultado do FC Porto - vitória frente ao Benfica (3-1) - também não interessou nada ao Sporting, ficando a seis pontos do primeiro lugar. O que isto quer dizer é que começa a entrar a desconfiança e o não acreditar que o Sporting possa ir lá. Agora, tudo depende daquilo que é a ideia do presidente. Ele é que manda, ele é que faz e que desfaz... Na minha opinião acho que ainda é prematuro estar a despedir o treinador, acho que deveria dar mais algum tempo, que é o que Frederico Varandas está a fazer. Depois vai analisar, porque o Sporting vai ter um jogo importante quando recomeçar o campeonato, em Braga, com jogadores a chegarem de véspera, sem Debast, que foi expulso. Vai ser um jogo determinante, porque imaginemos que o FC Porto ganha ao Marítimo e o Sporting perde em Braga, as coisas começam a ficar insustentáveis», sustentou.
«Suárez parece o dono daquilo tudo»
Olhando para o panorama, Augusto Inácio foi instado sobre o que se exige ao treinador do Sporting a partir daqui. «Tenho uma ideia do Rui Borges de um excelente profissional e de uma boa pessoa. Só que às vezes isto dos jogadores de futebol e do espírito de equipa e estar à frente de um plantel de 27 ou 28 jogadores requer que algumas vezes - não sei o que é que ele diz lá dentro - se dê um murro na mesa. Mas o Rui Borges, de tanto defender os jogadores, de tanta coisa que se passa, claramente que o plantel não está unido. Olho o Luis Suárez e parece que é o melhor jogador do Mundo, parece que é o dono daquilo tudo, faz o que quer, protesta com os árbitros, protesta com os colegas, protesta com os adversários, protesta com tudo e com todos e está sempre protegido pelo presidente e pelo treinador. E às vezes, de tanto proteger os jogadores, são os próprios jogadores que fazem a cama ao treinador, no sentido de que não fazem tudo dentro do campo para segurar o treinador ou para ganhar os jogos, porque isto não é normal, o Sporting entrar em pânico quando está a ganhar, não é normal. O Sporting está a ganhar, ainda por cima por dois golos, não é normal o pânico. E quando se fala que o Sporting, a partir do momento em que ficou com 10 jogadores, já tinha poucas possibilidades de segurar o resultado, eu diria que o Sporting em Famalicão também estava a jogar contra dez e estava a ganhar e deixou-se empatar, também com a vantagem. Há ali qualquer coisa que realmente não está a bater certo, mas há também que responsabilizar os jogadores», sublinhou.
«Os jogadores não podem só aparecer quando se ganha, e quando se perde são aqueles que dizem 'vamos dar a volta ao resultado', como disse Gonçalo Inácio, e 'a continuar assim vamos lá'. Não! A continuar assim o Sporting não vai lá. A verdade tem que ser dita, olhos nos olhos, cara a cara, e não mandarem aquelas atoardas, como se costuma dizer, de acreditar que vamos lá, estamos a trabalhar muito bem. Se estão a trabalhar muito bem, a culpa é dos jogadores, são eles que não fazem tudo dentro do campo para proteger também o seu treinador, por isso, ninguém pode fugir, como costuma dizer, com o rabo à seringa, porque são todos culpados: presidente, administração, treinador e jogadores. Mas, claro, quando o resultado não é bom, aponta-se o dedo a quem? Ao treinador», complementou.
«Maxi Araújo devia ser o capitão»
Outro ponto que Augusto Inácio aponta como algo que não está a correr bem é a falta de voz de comando no campo, reconhecendo que Gonçalo Inácio não tem o perfil para ser capitão.
«Temos de perceber os jogadores que temos à nossa frente e a sua personalidade. Não é por ter muitos anos de casa que pode ser um bom capitão. Tem a ver com a personalidade das pessoas, com aquilo que é a voz, com o que é dito e da maneira como se comportam dentro do campo. O Hjulmand impôs-se no Sporting e provavelmente era capitão porque no balneário se fazia ouvir também. O Gonçalo Inácio tem um perfil diferente, é mais calmo, às vezes, quando alguma coisa não corre bem, quase que vai lá [ter com o árbitro] por ter obrigação, porque tem a abraçadeira, senão provavelmente nem ia. Não gosta de confusão e não se gosta de meter nessas situações.», sustentou.
Nomeando, de seguida, quem entende que, atualmente, tem o perfil de capitão do Sporting: «Acho que o capitão do Sporting devia ser o Maxi Araújo. É ele quem leva a equipa para a frente, é uma pessoa que diz as verdades. Ainda no jogo com o Famalicão disse que mereceram o empate. Se calhar isso não foi a opinião da maioria, mas ele pôs o dedo na ferida. Como quem diz, 'temos de trabalhar mais para ganharmos os jogos'. E ele teve a coragem publicamente de dizer isso, enquanto o Gonçalo Inácio não, foi dizer que a trabalhar como estamos, vamos chegar lá.»