Jesús Owono é inocente ou assassino? De filósofo à condenação perpétua num fósforo
Há momentos que expõem, com uma violência absolutamente desconcertante, a ilusão de permanência sob a qual vivemos. A vida pode mudar no tempo exato de riscar um fósforo e apagar num sopro involuntário tudo o que parecia eterno. Como desabafou Alberto Camus, muitas vezes o terrível não é o fim, é a rapidez com que a cortina desce a meio da peça. E desceu tragicamente cedo e rápido na vida de Jesús de Miguel, que esbarrou na morte por um choque num jogo de futebol. Mas também na vida do guarda-redes Jesús Owono, cuja vida ficou marcada para sempre.
Foi imprudente? Claro que foi. Como muitos outros na emoção de um jogo. É assassino? Sabemos que não. Tal como sabemos que a pena maior que Owono vai ter de cumprir nem seria a de morte por negligência como muitos estão a pedir em Espanha. Essa não chegaria a meia dúzia de anos. Pena maior é ter todos os dias a imagem do lance na cabeça. Todos os dias perguntar-se porque abordou o lance daquela maneira. Todos os dias imaginar que um só segundo teria dado outro desfecho. Todos os dias vai adormecer a desejar acordar no dia seguinte e concluir que foi apenas um pesadelo. Todos os dias vai olhar ao espelho e saberá que provocou a morte a uma pessoa.
Já tinha lido sobre Jesus Owono devido a deveres jornalísticos e paixão por África. Aos quatro anos deixou a Guiné Equatorial com a família e mudou-se para o país basco. No futebol revelou-se um talento precoce, com estreia na seleção aos 17 anos, depressa se assumindo como titular e herói nacional. Mas foi a nível pessoal que Jesus Owono me cativou. Pelas reflexões nas entrevistas mais longas e intimistas. Pela forma como aborda a natureza ingrata e isolada da posição. A baliza como metáfora da condição humana: a efemeridade do sucesso; aprender a lidar com o erro sem permitir que o defina; um exercício diário de humildade e confronto com o ego, onde a linha entre ser herói ou vilão dura frações de segundo a ser ultrapassada. A baliza como um lugar de solidão, reflexão e autoconhecimento, onde a mente precisa de estar silenciosa perante o ruído.
Antes da titularidade, o banco de suplentes onde alinhou o pensamento com uma filosofia estoica de aceitar o papel secundário sem ressentimento, aproveitando para melhorar, crescer, saber esperar e respeitar os colegas e as decisões dos treinadores. E também o futebol como uma paixão e profissão, nunca uma identidade.
Owono tem também refletido muito sobre a riqueza da multiculturalidade, no seu caso entre as raízes africanas e a realidade europeia, mas fortemente identitária como aprendeu no País Basco. E assume o dever moral de gratidão, relativizando as pressões do futebol em confronto com as lutas reais de sobrevivência das pessoas. De que lhe vale isso agora? De que forma irá mudar?
Numa fração de segundo, um só fósforo queimou duas vidas. Jesús de Miguel perdeu-a. A vida dos entes queridos mudou para sempre abrindo- se uma cratera infindável de vazios. Cruel. Um absurdo que não se explica. O outro Jesús ficou marcado. Para sempre.
Somos convocados a ser mais do que espectadores desta história. A fazer mais do que partilhar imagens e exigir condenações sumárias. Não estamos na plateia da vida. Estamos no palco. Convocados à titularidade a cada jogo, sabendo que, por vezes, chega ao fim muito cedo e de forma abrupta. Daqui resulta a necessidade de sugarmos o máximo do que a vida tem para nos dar; prepararmos o caminho para podermos dizer um dia «valeu a pena»; tomar a melhor decisão a cada momento. Uma delas será a última.