Cristiano Ronaldo saiu da Seleção Nacional pela porta pequena
Cristiano Ronaldo saiu da Seleção Nacional pela porta pequena

Os anos passam por todos até por Cristiano Ronaldo

O antigo capitão da Seleção Nacional terminou o seu ciclo na turma das quinas com uma saída pela mais pequena das portas, mergulhado em soberba e ressentimento. A História far-lhe-á, em devido tempo, justiça, e o futebol português ser-lhe-á eternamente grato. Mas a verdade é que, enquanto jogador, já tinha ultrapassado o prazo de validade para ser útil à equipa de todos nós…

Cristiano Ronaldo renunciou à Seleção Nacional, e com esta decisão foi colocado ponto final parágrafo, no capítulo que por ele foi escrito na equipa de todos nós. Durante a crise que se iniciou com a deserção do antigo capitão da turma das quinas do jogo com a Dinamarca, tive oportunidade de escrever, perante os comunicados e declarações que saíam quer de Riade, quer da Cidade do Futebol, que estávamos a assistir a uma espécie de jogo de ténis, bola cá, bola lá, sem nenhum dos contendores a querer assumir o ónus da rutura, embora cada uma das partes tivesse consciência de que o ponto de não retorno já tinha sido ultrapassado.

Neste exercício de paciência, acabou por ser Jorge Jesus a dar o xeque-mate, ao pré-convocar Ronaldo para a dupla jornada que se segue, com o País de Gales e a Dinamarca. Confrontado com uma realidade que o faria estar de novo frente-a-frente com o selecionador nacional, a quem chamou duas vezes mentiroso em comunicado, Cristiano Ronaldo preferiu desistir da demanda, e afastar-se, 23 anos depois, da Seleção Nacional.

Este desenlace, do ponto de vista de Jesus, terá merecido um enorme suspiro de alívio: não tinha de ser confrontado com um jogador que o hostilizara publicamente; não tinha de ficar exposto, perante o restante grupo, à desautorização de lidar com quem o destratara; e já pode, a partir de agora, aplicar as ideias de jogo que tem para a turma das quinas, sem o embaraço de ter de lidar com o ocaso de Ronaldo. Se a ideia era ver quem cedia primeiro à tentação de bater com a porta, a pré-convocatória de Ronaldo foi uma cartada que acabou por resultar em cheio.

Já Cristiano Ronaldo poderá dizer que foi ele a decidir o momento de abandonar a Seleção, embora este não fosse o fim de festa com que terá sonhado e fez, durante grande parte do seu percurso de quinas ao peito, por merecer. Talvez, se no contexto em que se vivia, Pedro Proença tivesse despedido Jorge Jesus, Ronaldo nomeasse novo selecionador e continuasse a liderar o ataque de Portugal. Em boa hora o presidente da FPF não o fez. Assim, ganhou em autoridade e reforçou o estatuto do seu treinador. Também ele apostou na paciência, forçando a mão de Cristiano Ronaldo, que acabou por entender que não tinha mais condições para estar na Seleção. 

É possível que Ronaldo esperasse, na constância de todo o processo, uma vaga de fundo popular que lhe desse força e levasse a outro tipo de decisão. Porém, não só nada disso sucedeu, como todas as sondagens realizadas em Portugal mostraram uma opinião pública manifestamente contra as posições do capitão do Al-Nassr.

Com este desenlace, evitaram-se penosos meses de hipocrisia, entre Ronaldo e o Selecionador, e por parte dos restantes jogadores, que iriam dizer sempre o politicamente correto, apesar de as coisas não serem nada assim, bem pelo contrário. Mas essas são contas de outro rosário. 

Haverá uma constatação e uma conclusão a extrair de todo este caso.

A primeira, de ordem desportiva e quiçá a mais relevante, é que, de facto, Cristiano Ronaldo já não tinha lugar no melhor onze de Portugal e a partir do momento em que não aceitou o único papel que o engrandeceria - ser figura da Seleção, enquadrar os novos jogadores e aceitar ser utilizado na medida das suas atuais capacidades - deixou de ser solução e passou a ser problema.

A segunda é que depois de tantos jogos, tantos golos, tantos títulos, e tantas emoções, Cristiano Ronaldo optou uma saída pela porta dos fundos, quando podia ter acesso à porta grande e aos ombros de uma Nação que o idolatrou. A História encarregar-se-á de devolver, no tempo certo, Cristiano Ronaldo ao pedestal onde deve estar no futebol mundial. Mas, por vaidade, arrogância e desfasamento com a realidade, acabou por despedir-se cheio de ressentimento e amargura, muito provavelmente porque não se apercebeu que os anos passaram, e não passaram só pelos outros, também passaram por ele.  

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