João Lusevikueno sente que a internacionalização da Liga Girabola é o único caminho FOTO: BREBO BARISON
João Lusevikueno sente que a internacionalização da Liga Girabola é o único caminho FOTO: BREBO BARISON

João Lusevikueno: «Quero que daqui a 20 anos se lembrem de mim como alguém que mudou o futebol angolano»

João Lusevikueno é Presidente da Associação Nacional de Clubes Angolanos de Futebol e assinou protocolo de colaboração com a Liga Portugal

João Lusevikueno, presidente da Associação Nacional de Clubes Angolanos de Futebol (ANCAF), esteve em Portugal para formalizar um protocolo de colaboração com a Liga Portugal e dar um passo decisivo rumo à internacionalização do Girabola. Pragmático e empenhado, defende que o único caminho possível é o da modernização e da profissionalização. Sem receio de quem ainda resiste à mudança, o líder da ANCAF revela como esta parceria promete revolucionar o futebol angolano — e deixa uma novidade de peso para a diáspora.

João Lusevikueno, a sua prioridade no presente passa por transformar o Girabola numa liga competitiva e capaz de gerar recursos para fortalecer os clubes?

Primeiro, gostaria de agradecer à A BOLA TV e ao jornal A BOLA pela oportunidade de abordarmos a nossa realidade futebolística. Permita-me uma breve resenha de como começou todo este processo até culminar na assinatura deste protocolo: a ANCAF assinou um contrato de delegação de competências com a Federação Angolana de Futebol (FAF). O Girabola foi sempre gerido pela FAF, mas o mundo moderno mostra-nos que gerir simultaneamente o campeonato nacional, as seleções, os escalões de formação, o futebol feminino e o futsal representa um peso enorme para uma federação. Em quase todo o mundo assiste-se a essa separação de funções e o nosso caminho tinha de ser este.

A transição de campeonato para liga formal foi o passo natural?

Exatamente. Como organismo autónomo, demos esse passo e, fruto desse contrato de delegação de competências, ficámos com a gestão do Girabola. A face mais visível dessa mudança é que, através do acordo estabelecido com a empresa de telecomunicações Unitel, a competição principal do futebol angolano passou a denominar-se Liga Unitel Girabola.

Uma alteração motivada por razões comerciais...

Sim, por razões comerciais, mas também pelo trabalho desenvolvido em prol dos clubes por uma direção que tomou posse apenas no ano passado. É um trabalho visível, onde se inclui também a celebração de um acordo para os direitos televisivos com a ZAP. Nesse percurso, o diálogo com a Liga Portugal foi fundamental. Há algum tempo realizámos uma visita a Portugal, onde fomos recebidos pelo presidente Reinaldo Teixeira, que nos guiou numa visita às instalações da Liga, no Porto, e partilhou a experiência do futebol português. Esse contacto abriu portas para a assinatura de um memorando de entendimento, validado junto da CAF com a segurança de sermos um organismo autónomo. O apoio do departamento jurídico da Liga Portugal foi absolutamente decisivo.

Desse memorando resultou agora o protocolo entre as duas instituições...

Sim. O objetivo é procurar a experiência de quem opera nas ligas mais fortes. A própria Liga Portuguesa de Futebol começou por ser gerida por um organismo autónomo, modelo que pretendemos replicar.

Que boas práticas da realidade portuguesa podem ser transportadas para Angola?

Iremos fazer essa transição com naturalidade e, no futuro, é provável que passemos a denominar-nos apenas Liga Angolana de Futebol. Atualmente, o modelo é uma parceria entre a ANCAF e a FAF que permite gerir a prova, mas não há dúvida de que Portugal tem excelentes práticas que podemos adotar. Durante o recente jogo entre o Benfica e o Celtic, tivemos oportunidade de conversar com delegados da Liga Portugal, que demonstraram total disponibilidade para colaborar com o nosso projeto e transmitir o seu conhecimento acumulado.

De que forma essa colaboração se vai traduzir no terreno para os clubes angolanos?

Disponibilizaram-se, por exemplo, para se deslocarem a Angola para realizar workshops e conferências. Neste arranque, precisamos desse know-how para dar os passos certos. Temos de procurar tudo o que esteja ao nosso alcance para subir degraus e atingir o nível de outras praças.

Em que áreas sente ser mais urgente investir na formação de quadros?

No Direito Desportivo, que é uma das nossas maiores lacunas. Faltam-nos juristas especializados na área do desporto. Enfrentamos sérios problemas na formulação de contratos de jogadores e de treinadores, e é precisamente aí que os clubes se têm de fortalecer. Dou-lhe um exemplo: temos um diferendo na FIFA com o antigo selecionador nacional que, se tivéssemos em Angola pessoal devidamente preparado em Direito Desportivo, poderia ter sido resolvido de outra forma. Veja-se o percurso do futebol português desde os anos 90: a Liga Portugal está hoje entre as melhores da Europa. A língua aproxima-nos e temos de aproveitar este capital de experiência.

«Com a centralização dos custos de arbitragem, acabámos com a proximidade direta entre dirigentes e árbitros. Não tenho dúvidas de que é o melhor modelo.»

Sendo economista de formação, como analisa a valorização do futebol, dos clubes e da Liga angolana? A relação com a Federação é determinante para o sucesso?

Sem dúvida. Há vários exemplos no futebol mundial em que relações institucionais ou pessoais deficientes entre os presidentes da Federação e da Liga acabam por criar graves problemas de funcionamento. Além disso, o presidente Alves Simões já presidiu à ANCAF, pelo que conhece por dentro a nossa realidade e as nossas dificuldades. A abertura deste caminho só foi possível com ele à frente da FAF. Vejo o presidente Alves Simões como um stakeholder fundamental; reunimos semanalmente para articular estratégias. A mudança de mentalidade de "campeonato" para "liga" ainda gera alguma confusão em dirigentes que temem a modernização. Nas competições da CAF e nas ligas competitivas, as equipas são obrigadas a fornecer o onze inicial três ou quatro horas antes do jogo. No Girabola, ainda há dirigentes que escondem a ficha de jogo por receio do adversário. Mesmo nestes pequenos detalhes, a mudança tem de ser rápida.

A ANCAF passou a assumir a totalidade das despesas com as equipas de arbitragem. Que balanço faz dessa medida?

O objetivo principal foi eliminar o contacto direto entre clubes e árbitros. Anteriormente, as viagens, o alojamento e toda a logística dos árbitros eram custeados pelo clube visitado. Se o 1.º de Maio de Benguela recebesse uma equipa e o árbitro viesse de Luanda, era o clube de Benguela a pagar a viagem e o hotel. Essa proximidade gerava suspeições, muitas vezes injustas. Ao assumirmos esses custos de forma centralizada, acabámos com essa promiscuidade. É, sem dúvida, o modelo mais transparente.

A entrada de marcas como a Unitel e a Sonangol garante a sustentabilidade financeira do projeto?

Assinámos com a Unitel um contrato de três anos, com opção de mais dois, e o feedback tem sido excelente. A Sonangol também já entrou — como se pode ver pelas placas publicitárias nos jogos —, e estamos em conversações adiantadas com outra grande empresa do setor petrolífero. Contamos ainda com a parceria da ZAP nos direitos de transmissão, o apoio da Rádio Cinco e o protocolo com o Hospital Dom Alexandre do Nascimento para o acompanhamento médico e recuperação de lesões dos atletas. É desta forma que auxiliamos os clubes nesta fase de transição.

«Temos conversações adiantadas com a Liga Sul-Africana, que é uma das mais bem organizadas do nosso continente.»

Como é feita a distribuição de receitas entre clubes com dimensões sociais e mediáticas tão distintas como o Petro de Luanda ou o 1.º de Agosto e os restantes?

Na época transita, a ANCAF geriu a vertente comercial e a FAF a parte operacional. Como o regulamento da FAF não previa a distribuição de dividendos, ficou acordado em Assembleia Geral dividir os proveitos equitativamente: foram distribuídos cerca de 42 milhões de kwanzas (cerca de 40 mil euros) a cada clube, e o campeão recebeu 90 milhões de kwanzas (cerca de 80 mil euros). Para um campeonato que desde a década de 1970 nunca tinha gerado retorno financeiro aos clubes, foi um avanço muito bem acolhido.

E em relação aos direitos televisivos para esta nova época?

O modelo foi ajustado em Assembleia Geral. Como nem todos os jogos são transmitidos, seria injusto aplicar um coeficiente baseado estritamente em audiências. Decidiu-se que 50% do bolo financeiro é distribuído de forma equitativa por todos os clubes e os outros 50% são atribuídos em função da classificação desportiva, premiando o mérito. O campeão recebe mais, mas todos recebem.

A profissionalização total vai exigir mais dos clubes. Estão preparados?

É por isso que estes acordos com a Liga Portugal são vitais. Permitem-nos, por exemplo, levar a Angola especialistas de marketing do Benfica, do FC Porto ou do Sporting para dinamizar workshops com os departamentos dos nossos clubes. Contudo, os clubes têm de perceber que não podem viver apenas de subsídios; precisam de criar receitas próprias e de construir a sua própria sustentabilidade. Nós estamos aqui para facultar as ferramentas. Além de Portugal, temos conversações adiantadas com a Liga Sul-Africana, que está a apenas três horas de avião e é uma das mais organizadas do continente.

Que legado gostaria de deixar quando terminar a sua missão na ANCAF?

Quando fiz o meu mestrado na Universidade de Oxford, a candidatura exigia que refletíssemos sobre o que poderíamos fazer pelo nosso país e pela sociedade sob uma dimensão ética. Sempre pensei em criar algo com impacto duradouro. O meu objetivo é deixar conhecimento e demonstrar que é possível ter uma liga forte e profissional. Em termos infraestruturais, a ANCAF ainda opera em instalações arrendadas. Gostaria de replicar o que o presidente Pedro Proença fez em Portugal e deixar uma sede própria para a Liga Angolana de Futebol. Acima de tudo, gostaria que daqui a 20 ou 30 anos se lembrassem de mim como alguém que deu um contributo decisivo para transformar o futebol angolano e levá-lo do patamar amador para uma era plenamente profissional.

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