Sporting: e se o projeto se chamava Ruben Amorim?
Foi preciso esperar pouco mais de um mês para que Frederico Varandas desse o dito pelo não dito e abrisse a porta de uma saída que já se imaginava previsível desde a final da Taça a Rui Borges. Foi a 21 de setembro, há 45 dias, que, depois de uma das 18 vantagens no marcador desperdiçadas na era Borges (2-2 com o Arouca), Varandas garantiu que o lugar do técnico «nunca esteve em causa» e questionou «o que seria do presidente do Sporting se decidisse em função da contestação?».
LASK e Académico foram a sentença para Rui Borges, que, a partir daí, percebeu-se que já não dependeria de resultados melhores ou piores para se aguentar num projeto que, fazendo fé na renovação de contrato a 1 de maio, se acreditava que seria para durar. Se Varandas mantinha toda a fé em Borges, porque o deixou ser queimado em lume brando ao longo de quase três semanas sem nada dizer? Se «o tempo em que o Sporting despedia treinadores por pressão já lá vai», como disse, ontem, na apresentação de Fonseca, como se explica que o ex-Lyon seja o sexto treinador contratado (fora os dois interinos, Tiago Fernandes e Leonel Pontes) em oito anos na presidência?
A final da Taça perdida para o Torreense, e da forma que foi, é impossível esconder, foi o início de uma ferida que nuca mais sarou e só não foi pior porque, depois de ganhar em Alvalade, o Benfica ofereceu o segundo lugar e o acesso à Champions ao grande rival. Com o treinador acabado de renovar contrato, Varandas, certamente com aval de Borges, decidiu mudar metade do plantel para o recomeço. Saíram, entre outros, Diomande, a muralha física que comandava a defesa, Hjulmand, o capitão e líder, Trincão e Pote, que tantas vezes encontraram soluções para resolver os jogos mais fechados. O perfil do plantel mudou, o Sporting tornou-se mais físico e vertical e menos pensador e faltam-lhe líderes. Só assim se justifica que a equipa entrasse numa espiral descendente sem travão quando encontrava a adversidade. É muita coisa para mudar de uma vez e o barco abanou.
Quando contratou Ruben Amorim (e Hugo Viana), Frederico Varandas entregou-lhe a chave do futebol e os resultados ficaram à vista, com o Sporting dominador como não se via há muitos anos e a fazer frente a tubarões na Europa. Nem tudo foram rosas e o lugar do mais bem sucedido treinador do leão nas últimas décadas esteve em causa na época do 4.º lugar e eliminação da Taça aos pés do Varzim, mas percebia-se que havia uma ideia e um caminho a seguir. Amorim saiu e deixou a equipa lançada para o bi e au point para quem nela pegasse.
João Pereira, o treinador que Varandas queria proteger para crescer e, dali a quatro ou cinco anos, estar num dos mais poderosos da Europa, foi um erro de casting que durou mês e meio e Rui Borges o penso rápido que segurou a equipa e a levou à dobradinha, com a humildade de ter feito marcha-atrás e recuperado o modelo de Amorim para não mexer no que tão bem funcionava.
Rui Borges, é certo, também podia ter tido outra comunicação e ajudado-se sem recorrer a chavões para justificar o desaparecimento da equipa durante os jogos, mas deixá-lo sem amparo e sozinho contra os lobos não foi bonito. O processo de mudança de treinador a meio da época em Alvalade é legítimo e Varandas ainda tem crédito para tal, mas foi, novamente, feito sem bons costumes.
Segue-se Paulo Fonseca numa altura definidora para ambos: para o Sporting, que a nove pontos do FC Porto e à beira de ir ao Dragão pode ficar afastado do título no Natal, e para o treinador, que aos 53 anos está a meio do caminho e quer mostrar que não tem como cartão de visita apenas bons trabalhos nas equipas do patamar médio da Europa.