Muito cuidado com as palavras, sobretudo «assassino»
Tiro, disparo, guerra, batalha, liquidar. Se a inteligência artificial fosse o que já dizem dela, provavelmente dar-me-ia uma lista de quantas vezes usei termos bélicos em textos assinados por mim nos últimos 31 anos, tantos quantos levo de vida profissional. Não estou a queixar-me da minha parca importância para os algoritmos universais (enquanto assim for Aleluia!), antes a conceder que caí — e caio — nesta tentação de transformar a linguagem da guerra e do conflito em forma corrente de comunicar ideias e pensamentos. Como se a Humanidade só soubesse viver em guerra.
Trucidar, bombardear, aniquilar, esmagar. Tudo termos que estamos habituados a ler, ouvir e escrever quando falamos de desporto, sobretudo de futebol. Escrevemos e lemos sem pensar que esta normalização conduz a formatações mentais e interpretativas muito pouco bonitas. Isto parece politicamente correto e é. Mas por alguma razão se chama «correto» a algo que felizmente tem ganho espaço no panorama sócio-político. É WOKE? Não chega a tanto, mas se fosse também estaria bem.
Dizimar, arrasar, matar, bala, canhões. São tantas e tão variadas as aplicações em território aparentemente neutro e inocente que nos esquecemos do verdadeiro significado das palavras. Acontece que cada uma delas — estas e as outras palavras todas — têm um significado literal que por mais que as retiremos do contexto não deixam de transportar com elas. E nós crescemos a ouvir que «trucidar» ou «esmagar» um adversário, se possível com vários «tiros certeiros» durante um jogo, é uma coisa boa. Não é.
Assassino. Esta semana é a mais perigosa das imagens ou analogias que podemos imaginar. Em Espanha, um futebolista morreu na sequência de um choque com outro. Foi um lance muito infeliz numa prática desportiva. Nunca um assassínio. Convido todos a lerem o texto do Jorge Pessoa e Silva, abaixo, para perceberem o que não sei explicar com palavras tão bonitas como as dele.
PS — E não, não vamos colocar aqui o vídeo do momento fatídico.